O Testamento De Ann Lee
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O Testamento De Ann Lee, uma cinebiografia intensa e destemida

Narrado por sua seguidora e amiga Mary Partington (Thomasin McKenzie), O Testamento De Ann Lee conta como Ann Lee (Amanda Seyfried) fundou a seita Shaker e levou um pequeno grupo de fiéis da Inglaterra para os Estados Unidos no século XVIII, incluindo seu leal irmão William (Lewis Pullman) e seu marido Abraham (Christopher Abbott). O Novo Mundo promete um refúgio para sua religião nascente, mas eles ainda encontram oposição e muitos perigos nessa jornada.

A maior peculiaridade desta religião é que eles eram liderados por uma mulher em um mundo que só permita que homens estivessem à frente dos ritos religiosos, além disso, defendiam ferrenhamente o celibato, o que pode ter contribuído para que o número de devotos durante os anos tenha diminuído até quase a extinção. Bastante irônico observar essa comunidade se esforçando tanto para construir uma utopia, sabendo que são essencialmente uma fé que não será passada para as futuras gerações.

Dirigido por Monica Fastvold e seu parceiro Brady Corbet (com quem ela coescreveu O Brutalista, filme que ele dirigiu), o musical acompanha a vida de Ann Lee, da infância até a morte. Como o canto e a dança eram parte integrante do culto dos Shakers, a musicalidade não é apenas um artifício artístico aqui. Os números musicais foram compostos por Daniel Blumberg a partir de hinos Shaker reais, que são repetitivos, estranhos e diferentes de tudo que já vi em um musical tradicional de Hollywood, assim como as coreografias de Celia Rowlson-Hall, que são estranhamente orgânicas, mesmo quando os personagens se movem em uníssono. Como uma pessoa não religiosa, foi inquietante ver um grupo de pessoas perder o controle do corpo da forma mostrada no filme como método de conexão com um ser superior, mas ao mesmo tempo a produção consegue deixar claro que isso é algo que traz felicidade e um senso de pertencimento para essas pessoas.

Quando criança, Ann Lee, sempre seguida por seu irmão William, se dedicava ao trabalho, enquanto seu tempo livre era dedicado à Deus. Quando adulta, Ann fica noiva, casa-se e é enviada para morar com seu novo marido, Abraham, basicamente assim que entra na puberdade, como era comum na época. Ela passa por uma série de anos infernais, apresentados a nós por meio de uma montagem devastadora, na qual sua existência alterna entre sexo nada prazeroso e por obrigação, gravidez, morte dilacerante de quatro filhos e as tentativas subsequentes de Ann de lidar com a situação trabalhando como auxiliar de enfermagem em um hospital e de se purificar do pecado através de canções e danças em cultos de uma religião que ainda estava se formando.

Então, após uma grande provação, Ann se declara a segunda vinda de Cristo e com a liderança dela, os Shakers se estabelecem como um movimento religioso genuíno. A Inglaterra não vê isso com bons olhos e Ann Lee passa a ver as colônias americanas como a terra prometida da liberdade religiosa. Assim ela convence seu rebanho a empreender uma perigosa viagem marítima através do Atlântico até as colônias. Apesar dos planos religiosos estarem dando certo, seu marido é incapaz de conceber uma esposa como algo além de uma máquina de fazer bebês e uma série de orifícios sexuais, então a abandona.

Assim que se estabelecem na América, a segunda metade do filme começa a se arrastar um pouco. A história fica lenta, focando na tensão crescente com os vizinhos. Então o final se aproxima com um grande evento que revitaliza o filme. Ainda assim, dá a sensação de ser um pouco mais longo do que deveria. Porém, dá até para relevar esses momentos mais repetitivos e lentos, pois a atuação de Amanda Seyfried é incrível. Ela se entrega completamente ao papel, especialmente nas sequências mais intensas, nas quais sua presença domina a tela. Seja pregando para uma multidão, gesticulando com fervor ou cantando com convicção quase hipnótica, há uma ferocidade palpável em seu olhar que torna fácil compreender por que tantas pessoas dentro da história se deixariam guiar por ela. A atriz constrói uma personagem magnética, cuja mistura de carisma, fé e intensidade cria uma aura de liderança que prende a atenção do público do início ao fim.

É justamente essa força interpretativa que mantém o filme envolvente, mesmo quando o ritmo desacelera. Em momentos mais contemplativos ou narrativamente arrastados, a atriz consegue sustentar o interesse apenas com sua presença e nuances emocionais, transformando cenas potencialmente estáticas em momentos de tensão silenciosa. O Testamento de Ann Lee não se preocupa excessivamente com os fatos de sua história, mas dedica seu tempo à maneira como Ann Lee se conecta com o divino através da dança e do canto, em como ela era a frente de seu tempo ao defender igualdade, independentemente de gênero ou raça. 

Ann Lee era incrivelmente forte e, independentemente de concordarmos ou não com suas crenças religiosas, é impossível não admirar sua convicção. O Testamento de Ann Lee é um filme ambicioso, diferente, impactante, mas por vezes desconcertante. Um ritual enigmático que pode não agradar a todos, pois não é um filme fácil de assistir, mas que certamente deixa sua marca. 

O Testamento De Ann Lee chega aos cinemas em 12 de março, com distribuição da Searchlight Pictures.

3.5

Muito bom

O Testamento de Ann Lee retrata a história da fundadora dos Shakers, Ann Lee, interpretada por Amanda Seyfried, destacando sua fé radical, liderança feminina e a busca por uma utopia religiosa no século XVIII. A musicalidade incomum baseada em hinos Shaker e a atuação magnética de Seyfried sustentam a narrativa mesmo nos momentos mais lentos. Ambicioso e inquietante, a obra impressiona pela intensidade espiritual e estética.

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