O Mago Do Kremlin
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O Mago Do Kremlin, uma história superficial sobre a escalada de Putin ao poder

Em O Mago do Kremlin, dirigido pelo premiado cineasta francês Olivier Assayas (Personal Shopper), acompanhamos a trajetória de Vadim Baranov (Paul Dano), um jovem que ascende ao posto de estrategista de comunicação do Kremlin durante a chegada de Vladimir Putin (Jude Law) ao poder, no turbulento cenário da Rússia dos anos 1990. Baseado no romance satírico de sucesso de Giuliano da Empoli, que é inspirado na figura real de Vladislav Surkov, o filme mistura ficção e história de maneira inquietante.

A narrativa se estrutura a partir do relato de Baranov, em flashback, ao acadêmico americano Lawrence Rowland (Jeffrey Wright). A partir dessa conversa, somos conduzidos por eventos marcantes, como o declínio de Boris Yeltsin, a ascensão de Putin ao cargo de primeiro-ministro sob a influência de oligarcas, sua vitória nas eleições de 2000, o desastre do submarino Kursk, as guerras da Chechênia, a anexação da Crimeia e o desenvolvimento de operações digitais clandestinas, como fazendas de bots. Ainda que se assuma como obra de ficção, o filme se aproxima perigosamente de acontecimentos e figuras reais, criando um retrato perturbador da história recente da Rússia.

Filho de um burocrata soviético devoto, Baranov chega à vida adulta no momento em que o comunismo colapsa, abrindo espaço para um breve período de liberdade e uma democracia frágil. Inicialmente, leva uma vida boêmia como diretor de teatro de vanguarda em Moscou. Paralelamente, surgem os oligarcas, enriquecendo rapidamente por meio de alianças com o novo Estado. Seu amigo Dmitri Sidorov (Tom Sturridge) torna-se um deles, prospera financeiramente e acaba conquistando Ksenia (Alicia Vikander), antiga namorada de Baranov.

Após a ruptura amorosa, Baranov abandona o idealismo artístico e mergulha no cinismo da época, passando a trabalhar na produção de reality shows de gosto duvidoso. Enquanto isso, a Rússia afunda sob a liderança debilitada de Yeltsin. Em meio ao caos, os oligarcas articulam sua permanência no poder: garantem a reeleição do presidente em troca do controle da televisão estatal, consolidando-se como os verdadeiros detentores do poder, com Yeltsin como figura decorativa.

Com a saúde do presidente em declínio, torna-se urgente encontrar um sucessor. Surge então Putin, ex-chefe da KGB, visto pelos oligarcas como um burocrata manipulável. No entanto, essa percepção logo se revela um erro. Em um encontro privado com Baranov, Putin deixa transparecer uma astúcia muito maior do que se imaginava — algo que seus patrocinadores só compreenderão quando já for tarde demais. Por meio de estratégias sofisticadas, como a criação e manipulação de grupos de oposição para controlar todas as narrativas, Baranov, apelidado de “o mago do Kremlin”, se torna uma figura paradoxal: ao mesmo tempo inovadora e arcaica, uma espécie de Rasputin moderno a serviço de um novo czar.

Essa história de política, dinheiro, poder e de como a mídia exerce influência sobre a opinião pública, leva o público aos bastidores da intriga internacional e dos eventos mundiais, o que poderia ser algo muito interessante para os espectadores. Embora muitos eventos tenham ocorrido durante esses anos em que o filme se passa, eles são abordados apenas superficialmente, como as crises que Putin supera graças às maquinações maquiavélicas de Vadim. Ele raramente permanece tempo suficiente em um único lugar para que possamos compreender plenamente como a Rússia de Putin antecipou o que pode vir a ser um novo mundo marcado pelo autoritarismo. Ainda assim, O Mago do Kremlin é episódico ao extremo e em suas duas horas e meia de duração, algumas partes simplesmente se arrastam. Apesar das duas atuações muito competentes de Jude Law e Paul Dano, o filme nunca encontra um núcleo dramático forte. O fato de o diálogo ser em inglês, com vários sotaques, também dificulta um pouco a imersão do espectador.

O Mago do Kremlin se apresenta como uma obra ambiciosa, que busca decifrar os mecanismos de poder por trás da ascensão de Vladimir Putin e as engrenagens invisíveis que moldam a política contemporânea. Embora tenha méritos evidentes, especialmente nas atuações e na relevância de seu tema, o filme acaba se perdendo em sua estrutura fragmentada e no tratamento superficial de eventos complexos. Ainda assim, permanece como um retrato instigante de um modelo de poder que ultrapassa fronteiras e ressoa no cenário global atual, convidando o espectador à reflexão, mesmo que sem oferecer respostas aprofundadas.

O Mago do Kremlin estreia em 9 de abril nos cinemas, com distribuição assinada pela Imagem Filmes.

 

2.5

Regular

O Mago do Kremlin é ambicioso ao retratar os bastidores do poder na Rússia de Putin, sustentado por boas atuações. No entanto, a narrativa fragmentada e superficial dilui o impacto de eventos históricos complexos.

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