Após a decepcionante adaptação em live-action de 2003, o Gatola está de volta em um novo longa-metragem. Desta vez, em uma aventura animada que, felizmente, apresenta um resultado superior. Em O Gatola da Cartola, o protagonista começa a história trabalhando como uma espécie de funcionário burocrata de uma gigantesca empresa especializada em levar alegria às crianças. Sua missão é receber clientes designados pela companhia e encontrar maneiras de fazê-los sorrir.
Durante uma de suas atividades, ele acaba invadindo o almoxarifado da empresa, um lugar gigantesco que mais parece uma cidade construída com objetos e quinquilharias acumulados em prateleiras. Ali, recolhe diversos materiais de trabalho e os guarda dentro de sua cartola, que funciona como uma espécie de bolsa mágica, ao melhor estilo Mary Poppins.
Outros animais antropomórficos trabalham ao seu lado, todos dedicados a proporcionar entretenimento e incentivar a imaginação de crianças que precisam de um pouco de estímulo. As missões são avaliadas com base em dois critérios: o aumento do nível de felicidade dos clientes e a quantidade de destruição provocada durante o serviço. O Gatola é excelente no primeiro quesito, mas bastante desastroso no segundo. Por isso, corre o risco de ser demitido caso não consiga obter sucesso em sua próxima missão.
Seu novo desafio é colocar um sorriso no rosto de Gabby, uma menina que acaba de se mudar para uma cidade desconhecida com o irmão mais novo, Sebastian, e a mãe, Carmen. Sentindo-se triste, solitária e deslocada, ela ainda não conseguiu se adaptar à nova realidade. Gabby toca trompete, mas não quer mais ser reconhecida como a nerd da banda. É nesse cenário que o Gatola aparece, disposto a provocar uma verdadeira confusão. O problema é que sua recepção não poderia ser pior: a menina o atinge com um spray de defesa pessoal. Durante boa parte da aventura, ele terá dificuldades para conquistar não apenas Gabby e Sebastian, mas também Waffles, o peixinho dourado britânico e bastante rabugento da família.
O Gatola, entretanto, carrega consigo um objeto bastante peculiar: uma espécie de cronômetro complexo capaz de permitir viagens no tempo. Gabby acredita que o aparelho pode ajudá-los a voltar para antes da mudança, permitindo que a família retorne à cidade natal, de que ela sente tanta falta.
Entre os pertences ainda encaixotados da família, existem três caixas de papelão lacradas, uma para cada integrante. Repletas de lembranças e objetos pessoais, elas acabam se transformando em portais literais para outros mundos. A partir daí, o filme assume uma proporção ainda mais grandiosa, barulhenta e caótica, repleta de engenhocas, truques e acessórios dos mais variados tipos. Há espaço até para um gigantesco monstro demoníaco de olhos brilhantes, que aparece saltando de um lado para outro.
Quando o Gatola perde o objeto que permitiria a viagem no tempo, o grupo decide explorar os mundos escondidos nas caixas e embarcar em uma jornada a bordo do velho sofá vermelho da família. O móvel se transforma em uma espécie de veículo motorizado, capaz de assumir diferentes formas, e passa a ser utilizado na busca pelo objeto desaparecido.
A aventura leva os personagens até o fundo do mar, em uma sequência recheada de criaturas peculiares, incluindo um cardume de cuecas nadadoras e uma baleia cantora que ostenta um chifre de unicórnio com aparência de arco-íris de plástico. Também encontramos um circo, uma banda marcial tocando Shake It Off, de Taylor Swift, e uma série de situações aparentemente aleatórias, que culminam em um confronto com um monstro.
Em determinado momento, somos apresentados à Coisa Um e à Coisa Três, mas não à Coisa Dois, cuja ausência tem uma explicação surpreendente. Os ajudantes mais conhecidos do Gatola aparecem com seus cabelos rebeldes, que lembram chamas azuis, e seus tradicionais pijamas vermelhos. Embora não falem, conseguem se comunicar por meio de palmas, estalos de língua e batidinhas no próprio corpo.
Como o clássico livro infantil de Dr. Seuss é curto demais para sustentar um longa-metragem, a história precisou ser reinterpretada e consideravelmente expandida. Os roteiristas e diretores Erica Rivinoja e Alessandro Carloni partiram essencialmente da premissa original: a chegada de um personagem fantástico à vida de crianças, incentivando a imaginação, a criatividade e as travessuras.
O resultado é uma produção visualmente bastante inventiva, que aposta em um universo repleto de cores, transformações e situações absurdas. A animação consegue explorar com liberdade o caráter fantasioso da obra original, criando sequências que dificilmente funcionariam da mesma maneira em uma adaptação em live-action.
Entretanto, seu principal problema está justamente no excesso. Com quase duas horas de duração, o filme acaba se estendendo mais do que deveria para uma proposta tão simples. Embora apresente boas ideias e momentos divertidos, a narrativa perde fôlego à medida que se aproxima da conclusão. Algumas subtramas parecem desnecessárias e poderiam ter sido eliminadas em uma edição mais rigorosa, tornando a experiência mais dinâmica e envolvente.
A mensagem também acaba ficando um tanto dispersa. Em determinados momentos, o filme fala sobre a importância de defender os amigos; em outros, sugere que nossos pais também já foram jovens cheios de sonhos e personalidade. Há ainda a ideia de que lar não é necessariamente um lugar, mas aquilo que construímos com as pessoas que amamos. Por fim, a produção parece defender que fazer bagunça e explorar a imaginação são partes essenciais da infância. São mensagens interessantes, mas que nem sempre encontram uma conexão suficientemente consistente dentro da narrativa.
Ainda assim, a produção consegue entregar uma experiência agradável, especialmente para o público infantil, ao celebrar a criatividade, a amizade e a importância de preservar a imaginação. Talvez faltasse apenas um pouco mais de concisão para que toda essa confusão funcionasse melhor. Afinal, quando se trata do Gatola da Cartola, a bagunça é muito bem-vinda, desde que não se prolongue mais do que o necessário.
O Gatola da Cartola estreia em 5 de novembro nos cinemas de todo o Brasil, com distribuição da Warner Bros. Pictures.
Bom
A nova animação de O Gatola da Cartola aposta em um universo visualmente inventivo, repleto de cores, criatividade e situações absurdas, oferecendo uma aventura divertida para o público infantil. Uma produção agradável e cheia de personalidade, que só precisava de um pouco mais de concisão para funcionar melhor.