O Bosque Selvagem, de Travis Knight, é uma das produções em stop-motion mais ambiciosas já realizadas. Fruto do trabalho dos artistas da Laika, estúdio que se tornou referência absoluta nessa técnica e responsável por filmes como Coraline, ParaNorman e Kubo e as Cordas Mágicas, o projeto levou 15 anos para ser desenvolvido e mobilizou mais de mil profissionais, além de exigir a construção de mais de cem cenários e duzentos bonecos.
Embora os efeitos visuais (VFX) tenham sido utilizados para aprimorar algumas cenas, o cuidado com a animação artesanal impressiona pela riqueza de detalhes, tanto no design dos personagens quanto na elaboração dos cenários. Com a combinação de técnicas inéditas e outras aperfeiçoadas especialmente para o filme, a Laika alcança um nível de realismo impressionante. Os personagens parecem respirar de verdade: seus peitos sobem e descem graças a um mecanismo interno desenvolvido pelo estúdio especificamente para a produção. É um detalhe sutil, mas que acrescenta uma camada extraordinária de vida à animação. Difícil não se impressionar com tamanha dedicação.
Baseado no livro de Colin Meloy, vocalista da banda The Decemberists, com ilustrações de Carson Ellis, o filme acompanha Prue (Giulia Benite), uma adolescente de Portland cujos pais hippies sempre a alertaram para os perigos do mundo exterior, especialmente os que rondam o bosque nos arredores da cidade. Ela, porém, acredita que essas histórias não passam de exageros. Assim, quando fica encarregada de cuidar do irmãozinho, Mac, decide aproveitar a oportunidade para passar um dia divertido com ele pela cidade.
Tudo muda quando Prue testemunha o sequestro do bebê por um bando de corvos, que o arranca de um escorregador no parquinho. Ao lado de Curtis (Pedro Burgarelli), um colega de escola, ela parte em perseguição às aves e adentra a floresta, descobrindo um mundo encantado que, em tese, jamais deveria ser capaz de encontrar.
Logo, os dois se deparam com um grupo de coiotes falantes que integra o exército de Alexandra (Sabrina Miragaia), uma líder implacável que está por trás do desaparecimento de Mac. A governanta viúva deseja o bebê em razão de uma tragédia devastadora, capaz de conduzi-la à loucura. Marcada por uma perda terrível e por uma tentativa igualmente trágica de encobrir suas consequências, Alexandra carrega uma dor profunda, cujas origens são reveladas logo no início da narrativa.
Ao longo da jornada, Prue e Curtis encontram aliados bastante singulares: Brandon, o Rei dos Bandidos, e seu grupo de foras da lei que lutam por uma causa nobre; Septima, uma rata; o imponente General, uma águia-real, uma sábia coruja contadora de histórias e um grupo de místicos liderado por Iphigenia. Juntos, esses personagens dão vida a uma aventura repleta de reviravoltas, que culmina em um confronto épico entre os habitantes nativos da floresta, que vivem em harmonia com a natureza, e as forças de Alexandra, determinada a dominar aquele território para benefício próprio.

Mais do que uma aventura fantástica, O Bosque Selvagem é uma história sobre as diferentes maneiras de reagir à adversidade. Diante da dor, alguém pode encontrar forças para se tornar um herói, mesmo sendo apenas uma criança ou uma pequena criatura da floresta. Por outro lado, o sofrimento também pode alimentar a crueldade e transformar alguém em vilão, sobretudo quando a pessoa se recusa a aceitar que o mundo natural siga seu próprio curso.
O universo retratado pelo filme é de uma beleza exuberante, evidenciada tanto pelo design de produção quanto pela fotografia de Caleb Deschanel. Essa riqueza visual, entretanto, contrasta com uma narrativa que não poupa o público de temas difíceis, como tragédia, traição, violência e morte. Não por acaso, a obra recebeu classificação indicativa para maiores de 14 anos no Brasil. As melhores animações não subestimam seu público, tampouco a capacidade de compreensão dos espectadores mais jovens. Aqui, as decisões cruciais dos protagonistas mirins são tratadas com honestidade emocional, sem recorrer a respostas fáceis ou soluções excessivamente simplistas.
Um dos grandes méritos de O Bosque Selvagem está justamente em equilibrar a intimidade dos pequenos momentos com a grandiosidade das sequências de ação. Os detalhes do design dos personagens e de seus figurinos são tão memoráveis quanto os grandes espetáculos visuais, entre eles uma perseguição aérea eletrizante e uma batalha de proporções épicas, digna dos grandes clássicos da fantasia.
O roteiro de Chris Butler promove algumas mudanças em relação ao livro original, mas preserva o evidente carinho pela singularidade daquele lugar e pelos muitos personagens que habitam seu universo. Sob a aparência de uma fantasia atemporal, o filme aborda questões bastante contemporâneas, como a preservação ambiental e o deslocamento de populações. Há espaço, ainda, para críticas bem-humoradas à burocracia e à ineficiência de figuras governamentais, em piadas que certamente encontrarão maior ressonância entre os espectadores adultos.
O Bosque Selvagem se destaca não apenas pela excelência técnica de sua animação, mas também pela sensibilidade com que aborda o luto, a responsabilidade e a relação entre os seres vivos e o ambiente que compartilham. É uma obra que combina beleza artesanal, aventura épica e profundidade emocional, demonstrando que o stop-motion continua sendo uma forma de expressão artística capaz de produzir experiências visuais tão extraordinárias quanto histórias verdadeiramente comoventes.
O Bosque Selvagem estreia em 29 de outubro nos cinemas, com distribuição da Imagem Filmes.
Excelente
O Bosque Selvagem impressiona pela riqueza visual do stop-motion e pela criatividade na construção de um universo fantástico repleto de personagens marcantes. Por trás da aventura épica, o filme aborda temas como luto, preservação ambiental e as consequências de nossas escolhas, sem subestimar o público mais jovem.