A nova adaptação de Street Fighter, dirigida por Kitao Sakurai, mantém o foco em Ryu (Andrew Koji) e Ken Masters (Noah Centineo), dois lutadores que cresceram juntos e que, na vida adulta, precisam aprender a lidar tanto com os próprios demônios quanto com os laços que ainda os unem.
Anos se passaram desde o primeiro torneio World Warrior, no qual Ryu derrotou todos os seus adversários. Depois de um confronto com Akuma (Joe “Roman Reigns” Anoa’i), um demônio que cruza seu caminho, ele e Ken seguem rumos distintos. Longe do antigo companheiro e sem a disciplina de outrora, Ken se acomoda nas glórias do passado e passa a perseguir contratos publicitários superficiais, interessado apenas em encher os próprios bolsos e os de seu empresário, Dan (Andrew Schulz).
Enquanto isso, M. Bison (David Dastmalchian) continua à caça de Ryu, obcecado pela possibilidade de absorver sua energia. Sedento por poder, o vilão pretende extrair todo o Psycho Power (uma espécie de energia psíquica) do corpo do lutador para ampliar suas próprias capacidades. Para isso, organiza um segundo torneio World Warrior, na esperança de tirar Ryu do esconderijo.
É nesse contexto que Chun-Li (Callina Liang), encarregada de recrutar os melhores lutadores de rua do mundo, procura Ken. A convite de Bison, ela o convence a participar do torneio com a intenção de atrair seu antigo parceiro. Ken aceita a proposta tanto pela oportunidade de recuperar parte da fama perdida quanto pelo desejo de finalmente sair da sombra de Ryu.
Determinado a provar seu valor, ele se prepara para enfrentar nomes como Guile (Cody Rhodes), Dhalsim (Vidyut Jammwal), Balrog (Curtis “50 Cent” Jackson), Zangief (Olivier Richters), E. Honda (Hirooki Goto) e Vega (Orville Peck). Chun-Li, porém, esconde motivações próprias, que dão à trama um segundo eixo de conflito.
Boa parte do filme se desenvolve em torno de um torneio de artes marciais com 16 participantes. O problema é que mais da metade dos confrontos mais aguardados acaba resolvida por desistências fora de cena, antes mesmo de os lutadores chegarem à arena. Em vez de combates memoráveis, há longas sequências de conversas no bar do hotel e provocações pelos corredores. Cody Rhodes, um dos nomes mais populares do wrestling mundial, sequer chega a lutar no filme. Uma oportunidade desperdiçada, sobretudo para quem espera ver o espetáculo prometido pela premissa.
A experiência se aproxima mais da dinâmica de um jogo de fliperama do que da de um filme tradicional de artes marciais: o público é apresentado a uma sucessão de personagens extravagantes, cada um com seu visual característico, enquanto a trama funciona como pretexto para colocá-los frente a frente. É uma fórmula que faz sentido dentro do universo dos games, mas que nem sempre se sustenta quando transportada para o cinema.

Ainda assim, este talvez seja o melhor longa-metragem live-action de Street Fighter até hoje. Considerando as adaptações anteriores, não representa exatamente uma conquista extraordinária. Seu mérito está em compreender que o material de origem não precisa ser tratado com solenidade. Ao abraçar o absurdo, o exagero e o humor, o filme encontra uma identidade própria e evita cair na armadilha de levar a sério demais um universo que sempre teve algo de caricatural.
Visualmente, a produção é uma celebração da estética dos fliperamas dos anos 1990. As cores vibrantes, a trilha sonora recheada de pop e rock clássico, os figurinos extravagantes e os penteados exagerados demonstram um esforço admirável para reproduzir a aparência bidimensional dos jogos. As sequências de flashback, inteiramente animadas, reforçam essa proposta e criam um contraste interessante com as cenas do presente, filmadas em live-action.
A ação também merece elogios. As coreografias de luta valorizam o trabalho físico dos atores e dos dublês, entregando confrontos que, quando efetivamente acontecem, fazem jus à expectativa dos fãs. O problema está na montagem excessivamente fragmentada, que corta o ritmo e dá a impressão de que estamos assistindo a uma coleção de vídeos curtos reunidos sem muita preocupação com a continuidade dramática.
Jason Momoa, que também participa da produção, empresta sua energia habitual a Blanka. Sua interpretação aposta em um personagem selvagem, brincalhão e imprevisível, mas acaba prejudicada por efeitos visuais pouco convincentes. A computação gráfica transforma o lutador de pele verde em uma figura visualmente desagradável, comprometendo justamente um dos personagens mais reconhecíveis da franquia.
O comediante Eric André também aparece como Don Sauvage, um extravagante locutor de lutas cuja presença se torna cansativa rapidamente. O humor é parte fundamental da identidade do filme, mas nem sempre funciona. Quando a produção insiste demais nas piadas e nos momentos de constrangimento, o resultado tende a ser mais irritante do que divertido. A diferença entre abraçar o ridículo e simplesmente exagerar na dose nem sempre parece clara para os realizadores.
Quem realmente se destaca, porém, é Noah Centineo. Nas cenas que retratam a decadência de Ken, transformado em uma celebridade de quinta categoria, o ator encontra espaço para satirizar clichês da cultura dos tabloides: surtos em público, comerciais de televisão constrangedores e estratégias de marketing que terminam em desastre. Centineo explora o lado patético do personagem sem perder de vista sua vaidade e seu carisma, construindo um Ken que diverte justamente por tentar desesperadamente manter uma imagem que já não corresponde à realidade.
É no reencontro inesperado com Ryu, entretanto, que sua interpretação ganha verdadeira dimensão. Por trás da arrogância e do humor, surge um personagem frustrado, inseguro e ainda preso à necessidade de provar seu valor. Mais adiante, na arena, Ken finalmente tem a oportunidade de demonstrar que é muito mais do que uma figura decadente em busca de atenção. Embora o elenco inteiro contribua para a energia irreverente da produção, é Centineo quem lhe confere um centro emocional.
No fim, Street Fighter funciona melhor quando se entrega ao espetáculo do que quando tenta construir uma narrativa consistente. A montagem irregular, os efeitos visuais questionáveis e os combates que nunca acontecem limitam o potencial de uma produção que tinha à disposição personagens icônicos e um universo naturalmente propício à ação. Em compensação, o visual exuberante, as boas coreografias e a disposição de abraçar o exagero garantem momentos de diversão.
Street Fighter já está em cartaz nos cinemas, com distribuição da Paramount Pictures.
Regular
A nova adaptação de Street Fighter aposta no visual colorido dos games dos anos 1990, em boas coreografias de luta e no humor exagerado para conquistar os fãs. Apesar da energia irreverente, a montagem irregular, os efeitos visuais questionáveis e os combates que não acontecem comprometem o ritmo da produção. Noah Centineo se destaca como Ken, dando profundidade emocional a um filme que funciona melhor como espetáculo do que como narrativa.