Baseado em uma história real, No Limite Da Justiça se passa na Mississippi da década de 1960. As primeiras cenas nos mostram o desaparecimento de três ativistas dos direitos civis durante o que ficou conhecido como Verão da Liberdade. Dois dos homens eram judeus, um era negro, e os três trabalhavam no cadastramento de eleitores negros locais. As imagens históricas da época mostram que as buscas ainda estavam em andamento e que as autoridades prometiam encontrar os homens e levar os responsáveis à justiça.
Então, vemos Gregory Scarpa (Mark Wahlberg) espancando um homem até deixá-lo à beira da morte. Ele questiona onde estão os corpos dos ativistas, enquanto golpeia com um taco de beisebol os joelhos já estraçalhados de sua vítima ensanguentada. A brutalidade funciona. Scarpa consegue arrancar a informação que procura e solucionar o caso. Para ele, os fins justificam os meios.
Dois anos depois, Vernon Dahmer (Giancarlo Esposito), presidente da seção local da NAACP, é assassinado por membros da Ku Klux Klan. Gregory então se une ao agente do FBI de conduta irrepreensível Wayne Strider (Yahya Abdul-Mateen II), um dos poucos homens negros a integrar a organização naquele período.A dupla tem a missão de investigar o assassinato, só que ambos têm ideias radicalmente diferentes sobre como fazer justiça.
Wayne enfrenta diariamente, dentro do próprio ambiente de trabalho, os efeitos da supremacia branca. Ainda assim, acredita que é possível combater o racismo atuando dentro das instituições. Tornou-se agente do FBI justamente para fazer cumprir a lei e, por isso, prefere seguir as regras à risca. Gregory pensa de maneira oposta: para ele, a violência não é o último recurso, mas frequentemente o mais eficiente.
À medida que os dois avançam na investigação, percorrendo a cidade e interrogando moradores, o filme começa a recorrer a alguns clichês conhecidos dos dramas sobre direitos civis. Histórias desse tipo muitas vezes assumem um tom moralista e autocongratulatório, transformando personagens brancos em salvadores e reduzindo personagens negros à condição de vítimas à espera de alguém que intervenha em seu favor. No Limite da Justiça flerta perigosamente com essa fórmula ao apresentar Gregory como o homem que chega para resolver os problemas da comunidade. Ainda que seja, literalmente, na base da porrada.
Por outro lado, o filme também encontra uma dinâmica mais convencional na relação entre os protagonistas: a de uma dupla de parceiros incompatíveis, cujos temperamentos conflitantes produzem tanto momentos de humor quanto situações dramáticas. A diferença entre eles não está apenas na maneira como encaram a violência, mas também na própria concepção do que significa fazer justiça.
E é justamente nessa relação que o filme encontra alguns de seus momentos mais interessantes. Aos poucos, a ousadia pragmática (e muitas vezes brutal) de Gregory começa a contagiar Wayne. O agente, inicialmente comprometido com as regras e com os limites institucionais, passa a demonstrar uma indignação cada vez maior diante daquilo que presencia. A transformação não acontece de maneira repentina, mas surge do choque entre aquilo em que Wayne acredita e a realidade de um sistema profundamente contaminado pelo racismo.
Nesse sentido, a dupla funciona como o principal motor dramático da história. Gregory representa a justiça pelas próprias mãos, enquanto Wayne, a tentativa de reformar um sistema por dentro. Entre os dois extremos, o filme procura discutir até que ponto é possível combater uma estrutura de violência sem, de alguma forma, ser contaminado por ela.
O roteiro, no entanto, não oferece espaço suficiente para que os atores explorem plenamente as contradições de seus personagens ou a complexidade da situação em que estão inseridos. Ainda assim, Yahya Abdul-Mateen II consegue transmitir com precisão o desconforto de retornar a uma cidade natal que provavelmente precisou abandonar por razões de segurança. Há nele uma tensão permanente, como se a simples presença naquele lugar despertasse memórias e ameaças que nunca desapareceram. Essa sensação é intensificada pela convivência com Gregory, uma figura igualmente deslocada, mas que parece incapaz de passar despercebida. E, pior, que parece gostar disso.
Mark Wahlberg, por outro lado, começa em um registro quase caricatural. Seu Gregory Scarpa é apresentado como uma espécie de máquina de violência, sempre pronto para intimidar, provocar ou partir para a agressão física. Conforme a trama avança, porém, a atuação ganha contornos mais adequados ao personagem, e aquilo que inicialmente parece apenas uma caricatura começa a revelar uma personalidade mais calculista e pragmática. Mesmo assim, é difícil ignorar a estranha maquiagem com a prótese no nariz, que permanece artificial e desconcertante durante praticamente todo o filme.
O maior problema de No Limite da Justiça, entretanto, está menos em suas atuações do que na dificuldade do roteiro em transformar um material histórico tão rico em um drama à altura de sua importância. Ele frequentemente prefere os caminhos mais convencionais do thriller policial e da dinâmica entre parceiros incompatíveis. Por isso, acaba sendo menos impactante do que poderia.
Não é exatamente um filme ruim: há boas atuações, uma atmosfera de constante ameaça e uma história real naturalmente carregada de tensão. O problema é que tudo parece apontar para algo maior que nunca se concretiza. Existe, no coração dessa história, um conflito muito mais perturbador e complexo sobre justiça, violência e racismo do que aquele que o filme consegue desenvolver. O que permanece, então, é a incômoda sensação de que No Limite da Justiça esteve o tempo todo diante de ser um grande filme, mas nunca encontrou coragem ou profundidade suficientes para realmente chegar lá.
No Limite Da Justiça estreia no Brasil em 17 de setembro, com distribuição da Diamond Films.
Regular
No Limite da Justiça aborda o racismo e a luta por justiça no Mississippi dos anos 1960 por meio do conflito entre violência e ação institucional. É um filme tenso, mas que fica aquém de seu potencial ao preferir um thriller policial convencional a uma reflexão mais profunda sobre racismo, violência e justiça.