Em seu mais novo filme, Na Zona Cinzenta, o diretor Guy Ritchie mostra fidelidade à sua fórmula de sucesso, trazendo Henry Cavill (O Homem de Aço) e Jake Gyllenhaal (O Abutre) como agentes arrogantes, que demonstram afeto através de insultos, lealdade e violência e que lutam contra um criminoso falastrão, enquanto protegem Eiza González (Em Ritmo de Fuga), uma advogada contratada para lidar com um criminoso que deve milhões de dólares à empresa que ela representa e que realiza negociações complexas. Um filme de ação repleto de comédia e focado em diálogos e narrações em off que nos levam de um ponto da trama a outro, marcas que consagraram trabalhos anteriores como Jogos, Trapaças, Dois Canos Fumegantes e Snatch – Porcos e Diamantes ou até mesmo Sherlock Holmes.
Toda a engrenagem jurídica apresentada parece excessivamente complexa, mas o filme conduz os acontecimentos com tanta confiança que acabamos aceitando quase sem resistência o fato de Rachel conseguir mobilizar os tribunais e confiscar todos os bens de Salazar (Carlos Bardem) em questão de poucos dias. O roteiro prefere apostar no ritmo, na tensão e no impacto dramático das ações, em vez de se preocupar em tornar cada detalhe plenamente plausível.
Grande parte dessa eficácia vem justamente da direção estilizada de Guy Ritchie. Seu domínio do timing, dos diálogos acelerados e da encenação frenética é capaz de manter o espectador constantemente envolvido. A montagem de Martin Walsh amplifica ainda mais essa sensação, costurando cenas, informações e reviravoltas com uma energia tão intensa que quase não sobra espaço para questionamentos. Tudo avança rápido demais para que possamos parar e refletir sobre as fragilidades do enredo. Claro, é confuso em alguns momentos, mas também é incrivelmente divertido do começo ao fim.
Rachel narra boa parte dos acontecimentos para o público, mas isso acaba passando despercebido. Sua narração funciona como um guia contínuo, traduzindo esquemas, explicando motivações e conectando peças da trama que talvez não se sustentassem apenas pela dramatização visual. Em outro filme, esse excesso de exposição poderia soar artificial ou didático demais, mas aqui ele se integra de forma surpreendentemente orgânica ao estilo ágil e performático da narrativa. O resultado é um filme que transforma possíveis inconsistências em parte do próprio espetáculo.
Henry Cavill continua sua parceria criativa com Ritchie como Sid, um agente elegante e discretamente perigoso, cujo humor seco e presença imponente. Em contraste, Jake Gyllenhaal traz uma energia de perdedor, porém refinada, para Bronco. Juntos, ele e Sid compartilham uma camaradagem estranhamente afetuosa e sutilmente homoerótica que se torna uma das dinâmicas mais divertidas do filme. A química entre os atores dá ao filme grande parte de sua personalidade, principalmente nos momentos mais tranquilos, quando a missão fica brevemente em segundo plano em relação às suas brincadeiras. E claro, temos a implacável e calculista Rachel Wild, de Eiza González. Seja manipulando inimigos em uma mesa de negociação ou orquestrando a operação nos bastidores, ela dá vida ao filme.
Na Zona Cinzenta não consegue reinventar a fórmula de Guy Ritchie, mas prova que ele ainda a executa com charme e estilo suficientes para tornar a experiência gratificante. É um longa que frequentemente acredita que seu enredo é mais engenhoso do que realmente é, e os espectadores que esperam ação incessante podem se surpreender com o quanto o filme se torna cheio de diálogos, mesmo assim, o carisma desse elenco não deixa que o ânimo se perca.
Na Zona Cinzenta já está em cartaz nos cinemas brasileiros, o filme conta com distribuição da Diamond Films.
Bom
Na Zona Cinzenta mantém a fórmula de Guy Ritchie, combinando diálogos rápidos, humor ácido e uma narrativa frenética que disfarça as fragilidades do roteiro. A química entre Henry Cavill e Jake Gyllenhaal sustenta o carisma do longa e ajuda a entregar uma experiência divertida e envolvente.