Minotauro
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Minotauro e os horrores escondidos na banalidade

Vencedor do Grande Prêmio no Festival de Cannes 2026 e escolhido como representante da França na disputa pelo Oscar, Minotauro, de Andrey Zvyagintsev (Leviatã), adapta A Esposa Infiel (1969), de Claude Chabrol, incorporando à trama referência aos 14 sacrifícios exigidos pelo Minotauro na mitologia grega. O longa marca o retorno do diretor ao cinema após nove anos em hiato.

A história acompanha Gleb (Dimitry Mazurov), o CEO de uma empresa de transportes bem-sucedida, que vive com sua família em uma casa isolada, elegante e sombria, que aparentemente fica nos arredores de Moscou. Seu casamento com Galina (Iris Lebedeva) sobrevive apenas como formalidade, esvaziado de afeto e intimidade. O único vínculo que ainda parece unir o casal é o filho adolescente (Boris Kudrun), vítima de bullying na escola. Diante do sofrimento do garoto, Gleb não oferece acolhimento, mas uma solução que reproduz sua própria visão de mundo: aconselha-o a reagir com violência e a ameaçar esmagar o rosto do agressor. A brutalidade, nesse universo, não é um desvio, mas uma forma de exercer poder.

Depois de partir o coração de Galina com suas sucessivas infidelidades, Gleb passa a suspeitar que também está sendo traído. Suas inquietações conjugais, porém, logo se misturam a preocupações de outra ordem. Ele e os demais empresários influentes da região são convocados para uma reunião com o prefeito, cujo gabinete exibe uma fotografia de Putin. A mensagem é direta: Moscou precisa recrutar mais homens para a guerra, mas não quer comprometer setores estratégicos da economia local. Cada empresa deverá, portanto, indicar funcionários do sexo masculino que possam ser dispensados, deixando-os à mercê da temida convocação militar.

Gleb não demonstra qualquer fervor patriótico, tampouco manifesta uma posição política explícita. A ordem, no entanto, oferece-lhe uma oportunidade conveniente para se livrar de funcionários que considera dispensáveis. É nesse momento que o filme revela uma de suas ideias mais contundentes. Em uma Rússia mobilizada pela guerra, até as decisões aparentemente administrativas se tornam profundamente políticas. A convocação militar deixa de ser apenas um instrumento do Estado e passa a funcionar, nas mãos de homens como Gleb, como mecanismo de descarte de vidas indesejadas.

Ao contratar um detetive particular, Gleb confirma suas suspeitas de infidelidade e descobre a identidade e o endereço do amante de Galina. Anton (Yuriy Zavalnyouk), um jovem fotógrafo atraente, torna-se o alvo de um confronto que, a princípio, não parece destinado a terminar em violência. Mas a situação escapa ao controle, e Anton acaba assassinado. O humor ácido que atravessa a filmografia de Andrey Zvyagintsev emerge, então, das tentativas desajeitadas de Gleb de administrar as consequências do próprio crime: da limpeza do sangue no apartamento ao transporte do corpo, enrolado em um tapete, para ser descartado em um rio. O absurdo dessas situações não suaviza a violência, apenas expõe a mediocridade moral de um homem habituado a acreditar que qualquer problema pode ser resolvido com os meios adequados.

Mais do que retratar o trauma de um casamento em ruínas, o diretor conecta a desintegração da vida íntima de Gleb à instabilidade de uma sociedade atravessada pela guerra contra a Ucrânia. Essa relação se torna ainda mais evidente quando o empresário precisa eliminar os vestígios de sua ligação com o assassinato. Para selecionar os 14 homens que serão enviados ao front, ele instrui sua assistente a anunciar vagas para motoristas de caminhão, oferecendo salários que podem chegar ao dobro do habitual. A promessa atrai trabalhadores que, uma vez incorporados formalmente à empresa, poderão ser convocados antes mesmo de receberem seus primeiros salários. Entre eles está o próprio detetive particular, cuja eliminação se torna mais uma consequência conveniente da operação montada por Gleb.

Os 14 sacrifícios da mitologia encontram, assim, uma tradução contemporânea e brutal: já não são oferendas destinadas a apaziguar uma criatura monstruosa, mas homens transformados em peças descartáveis por uma engrenagem política e econômica que preserva os privilégios de poucos à custa da vida de muitos. O Minotauro, nesse sentido, não se limita a representar a violência individual de Gleb. Ele evoca um sistema que devora aqueles que não dispõem de poder para escapar de seu labirinto.

Gleb encarna uma elite abastada que prefere proteger seus interesses a reconhecer as consequências da invasão. Sua reação a qualquer questão relacionada à guerra é fria, pragmática e calculada. As vidas perdidas não despertam nele indignação ou compaixão e só adquirem alguma relevância quando ameaçam seus negócios ou sua segurança pessoal. A guerra não é, para ele, uma tragédia coletiva, mas uma circunstância a ser administrada (e, se possível, explorada em benefício próprio). Essa indiferença é também a força política do filme. Sem precisar transformar seu protagonista em um ideólogo explícito, Zvyagintsev mostra como a violência de Estado se sustenta igualmente na conveniência dos que lucram com ela e na omissão dos que preferem não enxergá-la.

Repleto de fúria, desespero, metáforas abertas e humor ácido e sombrio, Minotauro demonstra domínio narrativo. O diretor preserva a estrutura central da história de Chabrol, mas desloca radicalmente seu significado, inserindo o drama conjugal em uma realidade marcada pela corrupção, pelo patriarcado e pela instrumentalização da guerra. O resultado funciona simultaneamente como um thriller doméstico de construção precisa, um suspense psicológico sobre um casamento em decomposição e uma crítica contundente à Rússia contemporânea. O filme expõe, assim, a desigualdade radical entre aqueles que ainda podem escolher como viver e aqueles a quem resta lutar para continuar vivos.

Minotauro estreia em 3 de dezembro nos cinemas, com distribuição da Imovision em parceria com a Mubi.

4

Ótimo

Em Minotauro, o diretor Andrey Zvyagintsev transforma o drama conjugal em uma contundente alegoria da Rússia contemporânea, revelando as conexões entre violência, corrupção e guerra. Com humor ácido e atmosfera sombria, o filme expõe uma elite que instrumentaliza vidas humanas para preservar seus privilégios.

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