Adaptação do livro Medley ou os Dias Em Que Aprendi a Voar, de Keka Reis, o filme Medley, dirigido por Ana Luíza Azevedo, acompanha Lola (Mel Maia), uma adolescente de 16 anos que encontra na natação uma maneira de seguir em frente. Fora da piscina, porém, a ausência do pai e os conflitos com a mãe, Catarina (Mariana Lima), despertam sentimentos com os quais ela ainda não sabe lidar. Entre as dificuldades típicas da adolescência e as questões mal resolvidas de seu passado, Lola precisa aprender a enfrentar aquilo que há muito tempo tenta evitar.
Lola é uma nadadora talentosa, que já conquistou diversas competições e premiações. Apesar de seu desempenho, existe um obstáculo que ela não consegue superar: o nado borboleta. Mais do que uma dificuldade técnica, essa limitação funciona como uma metáfora para os conflitos que a personagem ainda não consegue enfrentar fora da água, especialmente aqueles relacionados à morte misteriosa do pai. Enquanto encontra na natação uma forma de canalizar suas emoções, Lola continua evitando as perguntas que a acompanham desde a infância.
Após um desentendimento com Catarina, a adolescente decide passar as férias no sítio de seu tio, na cidade fictícia de Salto Bonito. É a primeira vez que viaja sozinha, e a mudança de ambiente representa uma oportunidade de se afastar dos problemas familiares e conquistar certa independência. O que ela não imagina é que a viagem também será o ponto de partida para uma jornada de descobertas capaz de transformar sua maneira de enxergar a si mesma e sua própria história.
No interior, a adolescente conhece novas pessoas, constrói amizades, enfrenta algumas inimizades e descobre o amor. Além disso, surge a oportunidade de integrar a equipe de natação da cidade, que não vem apresentando bons resultados nos últimos campeonatos. A possibilidade de fazer parte de um grupo e contribuir para um objetivo coletivo amplia suas experiências e oferece novos desafios. No entanto, por mais que tente se concentrar no presente, entrar na água continua despertando emoções e lembranças dolorosas que ela gostaria de deixar para trás.
Aos poucos, a estadia no sítio também se transforma em uma investigação sobre o passado de sua família. Como Catarina nunca revelou muito sobre o pai, Lola encontra, na casa do tio, vestígios e memórias que a ajudam a preencher as lacunas de sua história. A partir dessas descobertas, ela começa a reunir as peças de um quebra-cabeça que permaneceu incompleto por muito tempo. Enquanto se prepara para um campeonato importante, a adolescente precisa lidar não apenas com os desafios esportivos, mas também com os medos e traumas que carrega. Para conseguir seguir em frente, será necessário encarar o passado e descobrir a verdade sobre o pai.
Um dos pontos positivos de Medley está na maneira como o filme aborda os conflitos da adolescência. A produção compreende que os dilemas dessa fase da vida são importantes por si só, sem precisar fazer grandes dramas por conta disso. As inseguranças, as dificuldades de comunicação entre pais e filhos e a necessidade de compreender o próprio lugar no mundo são apresentadas de maneira relativamente natural, permitindo que o público acompanhe as transformações de Lola sem que tudo precise ser tratado como um acontecimento extraordinário.
Outro aspecto interessante é a ambientação nos anos 1990, que contribui para a identidade do filme e desperta certa nostalgia sem depender excessivamente de referências à época. O período funciona como pano de fundo para a narrativa, ajudando a construir uma atmosfera própria. A natação também é um elemento importante, não apenas por conduzir parte da trama, mas por representar o modo como Lola lida com seus sentimentos. A piscina é, ao mesmo tempo, seu refúgio e o lugar em que suas limitações se tornam mais evidentes.
Mel Maia sustenta bem a narrativa como protagonista. A atriz transmite o carisma e as contradições de uma adolescente. Lola tem suas fragilidades, seus impulsos e suas dificuldades de comunicação, características que ajudam a torná-la uma personagem interessante.
Por outro lado, o desenvolvimento dos personagens secundários deixa a desejar. Embora a história apresente novas amizades, possíveis rivalidades amorosas e conflitos familiares, nem todos esses elementos recebem a atenção necessária para adquirir maior profundidade. O caso mais evidente é o de Catarina, interpretada por Mariana Lima. A relação entre mãe e filha é fundamental para compreender os conflitos de Lola, mas Catarina desaparece durante boa parte da narrativa e retorna apenas próximo ao desfecho, quando participa de um discurso que procura amarrar as questões emocionais da protagonista. Com isso, uma relação que poderia render momentos mais complexos acaba sendo explorada de maneira superficial.
Essa limitação parece estar relacionada à quantidade de subtramas que o filme tenta desenvolver. Ao dividir sua atenção entre o mistério envolvendo o pai, os conflitos familiares, as descobertas amorosas, as novas amizades e a preparação para o campeonato, a narrativa nem sempre consegue aprofundar os elementos que apresenta. Algumas relações parecem existir mais para cumprir uma função na trajetória de Lola do que para se desenvolver de maneira orgânica.
Além disso, embora o mistério sobre o passado da família ajude a movimentar a trama, sua resolução não alcança necessariamente o impacto emocional que a narrativa parece buscar. Assim, o desfecho consegue encaminhar a trajetória da protagonista, embora não explore plenamente o potencial dramático das questões levantadas ao longo do filme.
Medley apresenta uma mensagem válida sobre amadurecimento, família e superação, mas não consegue transformar suas boas ideias em uma experiência verdadeiramente marcante. É um filme agradável de acompanhar, embora dificilmente permaneça na memória por muito tempo depois que os créditos sobem.
Após ser exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, Medley chega aos cinemas no dia 29 de outubro.
Regular
Medley aborda com sensibilidade os desafios da adolescência, explorando o amadurecimento de Lola e sua busca por respostas sobre o passado familiar. O filme entrega uma história agradável sobre superação e autoconhecimento, mas sem alcançar todo o potencial emocional que poderia ter.