Manual Prático Da Vingança Lucrativa é a nova adaptação para os cinemas de Israel Rank: The Autobiography of a Criminal, livro lançado em 1907 por Roy Horniman. No filme, Becket Redfellow (Glen Powell) é o filho de uma mulher rica (Nell Williams), que engravidou dele na adolescência e por isso foi deserdada por seu pai frio e cruel, Whitelaw Redfellow (Ed Harris). Mesmo com poucas condições financeiras, o garoto recebeu a educação de alguém com pedigree e desde pequeno sempre soube que ele não foi retirado do testamento da família. Ele sabe que tem a chance de receber uma bolada milionária, desde que seja o último e mais velho membro vivo da família. Em seu leito de morte, sua mãe o fez prometer que não desistiria de lutar até conseguir a vida que ele merece.
Porém, quando o conhecemos, sabemos que seu plano já fracassou: ele está no corredor da morte, a poucas horas de sua execução. O restante da trama se desenrola como suas memórias, um relato de como seus esquemas o levaram a essa situação em que ele se encontra. Acompanhamos a história através da narração de Becket, que calmamente conta para um padre o que aconteceu – e consequentemente, para o público.
Quando adulto, Becket aparenta ser um homem gentil e inofensivo, ainda que acomodado e sem grandes ambições. No entanto, após ser rebaixado em seu emprego medíocre em uma loja de ternos masculinos, um trabalho que já não lhe oferecia qualquer perspectiva, e passar pelo constrangimento de reencontrar sua antiga paixão de infância, a confiante e deslumbrante Julia Steinway (Margaret Qualley), algo muda dentro dele. Humilhado e decidido a provar seu valor, Becket resolve tomar para si aquilo que acredita ser seu por direito. O que o separa de uma vida de luxo é um pequeno detalhe: ele ocupa a oitava posição na linha de sucessão da fortuna da família Redfellow. Para alcançar a tão sonhada riqueza, precisará eliminar alguns obstáculos. Ou melhor, alguns parentes.

Enquanto planeja cuidadosamente a série de assassinatos que o aproximará da herança, Becket conhece Ruth (Jessica Henwick), uma professora de literatura sensível e pé no chão, que acaba se tornando a personagem mais fácil de se identificar na trama. Coincidentemente, ela namora um de seus primos. Ao removê-lo da equação, Becket não apenas avança na linha sucessória, como também abre espaço para tentar conquistar Ruth.
Os assassinatos geralmente são executados de forma absurda, porém a maioria das vítimas recebe pouco mais do que participações especiais glorificadas antes de encontrar um fim prematuro. Raff Law interpreta um primo festeiro, caricato e exagerado de Wall Street, que se torna a primeira vítima de Becket. Zach Woods arranca algumas risadas como Noah Redfellow, um artista pretensioso e sem talento. Topher Grace é um evangelista bronzeado que reclama de ter sido injustamente difamado por sua amizade com El Chapo. Bianca Amto é uma mãe falsamente filantrópica. Claro, todos são pessoas terríveis, mas não particularmente memoráveis. Bill Camp adiciona humanidade e profundidade como o tio de Becket, que acaba se revelando um bom sujeito, o que complica as coisas.
O roteiro de John Patton Ford acerta ao transportar a premissa para os dias atuais sem comprometer a espinha dorsal da narrativa. A adaptação é perspicaz ao atualizar tanto as vítimas quanto as circunstâncias dos assassinatos, integrando tecnologia, dinâmicas sociais e obsessões contemporâneas de maneira orgânica, o que dá novo fôlego à história no contexto do século XXI. A trama é povoada por uma galeria de personagens excêntricos que formam os inúmeros integrantes da árvore genealógica dos Redfellow. Cada parente surge com traços muito bem definidos, muitas vezes beirando o exagero, mas nunca escorregam para a caricatura fácil. São mimados, fúteis e frequentemente irritantes, porém mantêm um pé na verossimilhança. O senso de privilégio ostensivo que exibem é tão cômico quanto indigesto, e essa antipatia generalizada acaba facilitando que o público, quase sem perceber, continue torcendo por Becket.
Já Glen Powell sustenta o filme com um carisma magnético. Sua habilidade de transitar entre charme despretensioso, arrogância calculada e lampejos de vulnerabilidade torna até as decisões mais eticamente condenáveis de Becket estranhamente fascinantes de acompanhar. É essa presença que mantém a narrativa coesa quando o tom oscila entre humor ácido e suspense, garantindo que Manual Prático da Vingança Lucrativa permaneça envolvente e divertido do início ao fim.
Manual Prático Da Vingança Lucrativa estreia nacionalmente em 26 de fevereiro, com distribuição da Diamond Films.
Bom
Com carisma magnético, Glen Powell sustenta o humor ácido e o suspense ao interpretar um anti-herói cuja ascensão criminosa é tão calculada quanto sedutora. Mesmo com vítimas pouco memoráveis, o filme diverte ao criticar privilégios e heranças familiares, conduzindo o público a torcer, desconfortavelmente, pelo protagonista.