Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, filme inspirado no premiado livro de Maggie O’Farrell, acompanha Agnes (Jessie Buckley), esposa de William Shakespeare (Paul Mescal), em uma narrativa ficcional construída a partir dos poucos fatos conhecidos sobre a vida do bardo. Entre eles, o que revela que Hamnet Shakespeare, de 11 anos, morreu em 1596, provavelmente do que hoje conhecemos como peste bubônica. Três anos depois, a obra mais célebre de seu pai, uma peça profundamente marcada pelo luto, estrearia no Globe Theatre, em Londres. À época, os nomes Hamnet e Hamlet eram frequentemente usados como sinônimos, detalhe que o filme explora com delicadeza e intenção simbólica.
A primeira imagem de Agnes é emblemática, a vemos encolhida sob uma árvore na floresta, como uma criatura da mata ou um espírito da floresta, vestida com um vestido vermelho. Ela então vagueia sem rumo pela floresta com seu falcão, um hábito que lhe rendeu uma reputação de bruxa, assim como sua falecida mãe. Sua beleza encanta o jovem William Shakespeare, um jovem professor de latim que escreve fervorosamente à luz de velas e que se revolta por ter que seguir os passos de seu pai abusivo no ramo de luvas.
O amor entre os dois nasce rapidamente e culmina em um casamento que desagrada profundamente a mãe de William, Mary (Emily Watson). Agnes engravida, para desgosto de ambas as famílias. O filme a imagina tendo sua primeira filha, Susanna (Bodhi Rae Breathnach), na floresta. Com o tempo, William passa a se sentir sufocado pela tranquilidade de Stratford-upon-Avon. Agnes, em um gesto de amor e renúncia, o incentiva a partir para Londres, consciente de que apenas lá ele poderá encontrar a realização artística que busca.
Ao chegar ao final de sua segunda gravidez, com o marido em outra cidade, ela é forçada a dar à luz em um ambiente fechado, o que considera um mau presságio por conta de sua enorme conexão com a natureza. Após um parto extremamente complicado, nascem os gêmeos Judith (Olivia Lynes) e Hamnet (Jacobi Jupe). Judith sobrevive por pouco, e Agnes passa a tratá-la com extremo cuidado, como se fosse feita de vidro. A menina torna-se uma fonte constante de preocupação e angústia para a família.
Enquanto isso, William está em Londres perseguindo seu sonho de se tornar uma estrela dos teatros londrinos. As crianças desfrutam de uma infância feliz, apesar das longas ausências do pai. Porém, um dia a peste atinge a família que ficou em Stratford-upon-Avon. Um dos maiores de pesadelos de Agnes se torna real quando é a frágil Judith é acometida pela peste bubônica, uma doença que dizimava aldeias inteiras. Mas, numa cruel ironia do destino, não é Judith quem morre de peste, mas Hamnet. Quando William retorna para casa, está tão devastado pela dor que não consegue consolar Agnes, nem mesmo falar. A morte da criança cria um abismo entre o casal. Então, Will parte novamente e se refugia em sua arte.
O roteiro de Chloé Zhao e Maggie O’Farrell sugere que Shakespeare transformou e deslocou seu luto para cada linha de Hamlet e que toda a agonia, a dificuldade de seguir em frente e a incapacidade atordoada de decidir o sentido de qualquer coisa presentes na peça são frutos do que o autor passou em sua vida pessoal. Aqui, o próprio Shakespeare assume o papel de fantasma, um espectro condenado a vagar pelo mundo enquanto Hamnet, de certa forma, permanece vivo através da obra. O filme se estabelece, assim, como um estudo sensível sobre como artistas transformam o sofrimento em criação. O que torna os filmes de Chloé Zhao tão especiais é a maneira como transmitem a qualidade transcendente da natureza. Em The Rider, Nomadland, e até mesmo ao seu pouco aclamado blockbuster da Marvel, Eternos, a diretora faz com que o prosaico pareça profundo.
Embora ocasionalmente flerte com o sentimentalismo, Hamnet: A Vida Antes de Hamlet funciona na maior parte do tempo, em grande parte graças às suas estrelas, especialmente a magnífica Jessie Buckley, que interpreta Agnes. Ela é feroz e impressionante, mais honesta do que qualquer outra pessoa ao seu redor. Mesmo já começando forte, de alguma forma, ela ainda ganha força ao longo do filme. Agnes é, em muitos aspectos, uma personagem clássica de Zhao, uma mulher profundamente e excentricamente conectada com o mundo natural.
Paul Mescal também impressiona profundamente, principalmente quando interpreta as falas do próprio Shakespeare com a emoção que essa versão de Will sentia. A escolha de Noah Jupe (irmão mais velho de Jacobi Jupe) para interpretar Hamlet é um toque inteligente que se conecta à temática espiritual do filme. Ambos os irmãos causam forte impacto, mesmo com o pouco tempo de tela. O clímax é inegavelmente eficaz justamente por conta do elenco e é capaz de emocionar profundamente o público e consolidar Hamnet: A Vida Antes de Hamlet como uma das apostas mais fortes da temporada de premiações.
Com distribuição da Universal Pictures, Hamnet: A Vida Antes de Hamlet chega aos cinemas em 15 de janeiro de 2026, também em versões acessíveis. O filme também contará com exibições nos dias 9 e 10 de janeiro (sexta e sábado) em cinemas de todo o Brasil.
Ótimo
Sustentado por atuações intensas de Jessie Buckley, Paul Mescal e dos irmãos Jupe, Hamnet: A Vida Antes de Hamlet se afirma como um delicado estudo sobre como a arte pode nascer do trauma.