Extermínio: O Templo Dos Ossos
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Extermínio: O Templo Dos Ossos
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Extermínio: O Templo Dos Ossos segue inovando os filmes de zumbis

Em 2002, o cineasta britânico Danny Boyle e o roteirista Alex Garland reinventaram o gênero zumbi com um projeto de baixo orçamento estrelado pelo jovem (e ainda pouco conhecido) Cillian MurphyExtermínio rapidamente se tornou uma das principais referências do cinema pós-apocalíptico ao apresentar um novo tipo de infectados e um nível de violência até então incomum. Mesmo com uma sequência pouco inspirada lançada em 2006, desta vez sem o envolvimento dos criadores ou do elenco do original, a franquia se consolidou como uma obra muito à frente de seu tempo.

Em meados de 2025, Extermínio: A Evolução chegou para mostrar como estava uma Grã-Bretanha em declínio quase três décadas após o início do surto que transformou a população em zumbis, mostrando novas e aterrorizantes mutações do vírus. Acompanhamos uma família composta por Jamie (Aaron Taylor-Johnson), sua esposa Isla (Jodie Comer) e o filho de 12 anos, Spike (Alfie Williams), que realiza sua primeira expedição até o continente, após passar a vida toda em uma comunidade isolada em uma ilha. Durante sua jornada, Spike conhece o Dr. Kelson (Ralph Fiennes), um médico que dedicou seus últimos anos a construir um ossário para homenagear os mortos e que ensina algumas lições de vida para o garoto.

É no filme anterior que também conhecemos Jimmy Crystal (Jack O’Connell), um garoto que sobrevive ao ataque dos infectados e posteriormente cria sua própria gangue com ares de seita. Os Jimmy (ou dedos) aparecem no final de Extermínio: A Evolução, mostrando suas perucas ridículas e belos movimentos de luta. Agora, Extermínio: O Templo Dos Ossos chega para aprofundar a história do complexo Dr. Kelson e seu relacionamento com o infectado alfa, Sansão (Chi Lewis-Parry). Também nos faz mergulhar no reino de terror de Jimmy Crystal e seus dedos, grupo do qual Spike foi forçado a fazer parte. O final de Extermínio: A Evolução prometia um futuro horrível para Spike e ele se cumpre agora ao forçar o garoto a lutar por sua vida contra um dos Jimmy.

Durante boa parte do novo longa da franquia, descobrimos como funciona o bizarro sistema de crenças que Sir Lord Jimmy Crystal construiu para si mesmo, um culto satânico erguido com base nas memórias da cultura pop de sua infância, como Teletubbies, Power Rangers e o criminoso sexual inglês Jimmy Savile. Sir Jimmy se considera o próprio filho de Satanás, a quem chama de “Velho Nick”. E é dever espiritual de sua gangue desorganizada espalhar o horror pela terra em nome do pai profano e seu filho favorito. Em Extermínio: O Templo Dos Ossos, momentos de bondade são apenas detalhes, que ocorrem esporadicamente em lugares improváveis, como Jimmy Ink (Erin Kellyman) permitindo que Spike não participe do massacre de uma família ou o proteja quando ele atrapalha a captura da presa humana do grupo.

A sequência foi filmada simultaneamente com Extermínio: A Evolução, mas houve uma mudança notável: Nia DaCosta (A Lenda de Candyman) assumiu a direção no lugar de Danny Boyle, que esteve envolvido apenas como produtor em Extermínio: O Templo Dos Ossos. A diretora trouxe ângulos mais marcantes, focando na interação entre os atores e buscando aumentar a tensão entre eles nas cenas. Apesar de diferenças no estilo de direção, o enredo não foge tanto do que vimos no anterior, pois também foi escrito por Alex Garland. O roteiro oscila entre a jornada infernal de Spike e a rotina excêntrica de Ian.

O médico vive em um pequeno bunker sob seu memorial feito de ossos, ouvindo Duran Duran em vinil e anotando suas observações sobre o zumbi alfa (com quem interage muito mais neste filme), que ele descobre que na verdade anseia pela sedação induzida pelas drogas proporcionada pelos dardos de Ian. Quando Jimmy Ink avista Ian com Sansão, ela acredita ter encontrado o “Velho Nick” e pede a Jimmy Crystal que conceda ao grupo um encontro com seu senhor das trevas. Isso é o que leva Spike de volta à presença de Ian, o encontro entre o médico e o Jimmy, além de uma das cenas mais memoráveis da carreira de Ralph Fiennes. É simplesmente emocionante ver esse confronto intergeracional entre atores tão magníficos como Fiennes e O’Connell, ambos ótimos em seus papéis. 

A trama, mais uma vez mostra como sistemas comunitários que deveriam ser voltados para o bem podem ser facilmente cooptados para fins perversos. Em uma história repleta de alusões religiosas, o filme reinterpreta de forma enigmática a história do martírio, mostrando como narrativas sobre um grupo escolhido que salva o mundo podem ser usadas de maneira eficaz e inflexível para motivar uma violência gratuita, seja porque os seguidores acreditam profundamente na mensagem de seus líderes ou simplesmente porque temem que essa narrativa seja usada contra eles. O filme acaba se revelando como uma lição de história disfarçada, retratando a humanidade como uma força mais sinistra do que qualquer coisa, incluindo zumbis.

Extermínio: O Templo dos Ossos confirma a maturidade da franquia ao deslocar definitivamente o terror do vírus para a fragilidade moral da humanidade. Ao explorar cultos, lideranças messiânicas e a violência legitimada pela fé, o filme transforma o apocalipse em um espelho histórico e social inquietante. Mesmo com mudanças na direção, a obra mantém a força temática concebida por Alex Garland e reafirma que, neste universo devastado, o verdadeiro horror não está nos infectados, mas nas histórias que os sobreviventes escolhem acreditar.

Extermínio: O Templo dos Ossos estreia dia 15 de janeiro nos cinemas do Brasil, com distribuição da Sony Pictures.

3.5

Muito bom

Extermínio: O Templo dos Ossos aprofunda o universo pós-apocalíptico ao deslocar o foco dos infectados para a brutalidade humana, acompanhando a jornada traumática de Spike entre culto, violência e sobrevivência. Mais do que zumbis, a franquia reafirma a humanidade como sua ameaça mais perturbadora.

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