No dia 13 de junho de 1971, o The New York Times publicava os estudos de Robert McNamara, ex-secretário de defesa norte-americano. Foi a primeira de muitas matérias envolvendo os chamados “Papéis do Pentágono“. Assim como o Times, o The Post seguiu o exemplo e divulgou seu material. A descoberta dos documentos marcou o início de uma série de investigações sobre o envolvimento dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã. Os papéis comprovavam que a Casa Branca vinha escondendo informações do povo norte-americano durante muito tempo.

Após anos de falsas notícias sobre os objetivos da guerra, a realidade veio à tona nas mãos de Daniel Ellsberg. O funcionário do Departamento de Defesa pregava o fim da guerra, e encontrou nos documentos uma chance. Primeiro ele tentou entregá-los ao Senado, não conseguiu. Buscando divulgá-los da forma mais rápida possível, Ellsberg os ofereceu ao Times. O movimento anti-guerra, que estava em ascensão, ganhou o combustível que precisava.

O surgimento do nome de presidentes anteriores a Nixon, como John Kennedy, Lindon Johnson e Eisenhower, criou um furor em meio à população. Ao tentar proibir a publicação, o atual presidente deu início a queda de sua popularidade. A guerra já havia contribuído para o desgaste da credibilidade do governo, que só aumentou com a publicação. Não era de se espantar, que em 9 de agosto de 1974, seguindo uma cadeia de acontecimentos, Nixon renunciasse a presidência do país.

Após tal contextualização história – acredite, não são spoilers – vamos ao filme.

(Divulgação)

O Filme

Em tempos de ficção, valorizemos cada vez mais histórias reais. E é justamente em uma que se baseia a nova produção de Steven Spielberg, The Post: A Guerra Secreta. O filme aborda a liberdade de imprensa nos anos 70, onde o governo ainda exercia total influência no conteúdo de jornais. Retratando um episódio específico na história, Spielberg buscou mostrar o poder que uma simples matéria pode ter na sociedade. O evento em questão se passou durante o governo do presidente Nixon, que todos sabemos ter renunciado anos depois. Sua participação se dá por uma janela, de costas ao telefone, enquanto as gravações originais são reproduzidas.

Kay Graham (Meryl Streep) e Bren Bradlee (Tom Hanks) encontram nos documentos seu pote de ouro. Quando o New York Times é proibido por Nixon de divulgar as informações, a equipe do The Washington Post teme pela mesma reação. Decidido a ir em frente com a notícia, Bradlee tenta convencer Kay a autorizar a matéria. Apesar de todas as possíveis consequências, ela resolve arcar com a responsabilidade e publica o conteúdo. Sua atitude serve de exemplo para outros jornais, que assim como ela, divulgam tudo o que tinham sobre o estudo.

O Elenco

Dona de 20 indicações ao Oscar e vencedora de 3, Streep nos brinda com uma de suas melhores atuações. O papel da líder do jornal parece ter sido feito para ela, assim como aconteceu com outra personagem. Quem não se lembra da brilhante interpretação de Miranda Priestly em O Diabo Veste Prada? A atriz desenvolveu Kay Graham com intensidade e maturidade, além de toda imponência exigida pela personagem. Em diversos momentos era, inclusive, difícil discernir entre a figura da atriz e de Kay. E é isso que torna Meryl Streep diferente de muitas. Ela entra em seu papel de tal maneira, que nos dá a impressão de estarmos realmente vendo a quem ela interpreta.

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Se existe alguém que consiga dividir nossa atenção em um filme com Meryl Streep, esse é Tom Hanks. Na pele do editor-chefe do The Post, o ator está magnífico. Os dois protagonizam diálogos épicos no longa, responsáveis por construir a narrativa e direcionar o ambiente do filme. Hanks transmite tamanha segurança em sua interpretação, e assim como Streep, parece ter sido feito para o papel. A atuação dos atores é boa, mas não há como negar que Streep e Hanks roubam a cena. Sarah Paulson e Bob Odenkirk são alguns dos nomes que compõe o elenco. Paulson vive Tony Bradlee e Bob interpreta o jornalista Ben Bagdikian, essencial para a aquisição dos documentos. Entretanto, ambos não tem tanta chance de destaque diante dos protagonistas.

O Que Achamos?

O filme foi escrito por Josh SingerElizabeth Hannah, com trilha sonora de John Williams. Apesar de se passar na década de 70, não há como negar a atualidade nas informações. Ainda hoje temos inúmeros veículos de imprensa “pró-governos“, provendo notícias sensacionalistas e/ou politizadas. O diretor diz, inclusive, ter se inspirado na situação atual nos Estados Unidos para construir sua trama. Diferente de Spotlight: Segredos Revelados, outro trabalho de Singer, The Post procura inspirar a independência dos jornais.

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The Post pode parecer confuso no começo, mas Spielberg logo desenvolve o roteiro. Somando isso ao elenco soberbo, bela fotografia e uma última cena que fecha com chave de ouro, temos diante de nós uma excelente produção. Até quem não se interessa pelo assunto tem a chance de ter uma grande aula de história sobre Vietnã, Watergate e outros momentos épicos da história. Após a eleição do atual presidente norte-americano, o diretor teve de correr com a produção, mas valeu a pena. O filme não poderia ter chegado em melhor época!

O filme nos possibilitou a chance de ver Hanks e Streep juntos pela primeira vez. Inacreditavelmente, tal encontro nas telas não havia ocorrido anteriormente. A química entre os atores é incrível, parecendo grandes amigos de longa data. Espero que a produção de Spielberg sirva de exemplo para futuros trabalhos dos dois, o que só aumentaria a qualidade do cardápio cinematográfico.

Por fim, The Post: A Guerra Secreta nos deixa com uma reflexão, citada por Meryl Streep. Assim como diz a Primeira Emenda da Constituição norte-americana, a imprensa deve servir aos governados, não aos governantes.

  • Excelente
5

Resumo

The Post: A Guerra Secreta é simplesmente excelente. Por meio de uma atuação magnífica de seu elenco, ótimas direção e fotografia, a produção nos proporciona uma bela aula de história.

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