O personagem Pantera Negra foi concebido pelas mãos de Stan Lee e Jack Kirby no ano de 1966, tendo sua primeira aparição nos quadrinhos do Quarteto Fantástico, nas edições #52 e #53. Na história, ele convida o grupo para conhecer Wakanda, uma nação completamente isolada do resto do mundo, localizada no continente africano.

A cidade é extremamente superior aos outros países no que diz respeito à tecnologia, mas mantém toda cultura da região com suas tribos e rituais. Além disso, Wakanda possui o mineral chamado vibranium, o mesmo material que compôs o escudo do Capitão América, tornando o Rei de Wakanda um dos homens mais ricos do mundo por possuí-lo. Nos cinemas, o Pantera Negra teve sua primeira aparição no filme Capitão América: Guerra Civil, dirigido por Joe e Anthony Russo. No longa, o herói destoa de todos os outros por sua postura e tradições, ganhando fãs interessados em saber mais de sua história.

Em 2018, a Marvel Studios traz às grandes telas uma das suas maiores apostas: um blockbuster de um super-herói negro. Pantera Negra foi dirigido por Ryan Coogler, conhecido pelo recente Creed (sequência dos filmes do Rocky Balboa). O elenco principal é composto por Chadwick Boseman (T’Challa, o Pantera Negra), Michael B. Jordan (Erik Killmonger), Lupita Nyong’o (Nakia), Danai Gurira (Okoey), Martin Freeman (Everett Ross), Andy Serkis (Ulysses Klau), Letitia Wright (Shuri), John Kani (T’Chaka) e Forest Whitaker (Zuri). Nomes de extrema relevância para um filme que desempenha um papel fundamental para os dias contemporâneos; Pantera Negra não é só mais um episódio da Marvel Studios, é um filme que carrega uma mensagem e essa é sua principal beleza.

O longa se passa após os eventos de Capitão América: Guerra Civil, onde T’Challa retorna a Wakanda para assumir o manto de rei e lidar com todo o peso de liderar uma nação. O herói tem que enfrentar as adversidades de ser um bom líder e proteger a sua terra, como também não postergar seus ideais altruístas. O próprio material de divulgação do filme diz “Você é um bom homem, e é difícil para um bom homem ser rei”. Essa é a premissa do filme, mas não é nem de longe um dos principais temas abordados pelo inteligente roteiro escrito por Ryan Coogler e Joe Robert Cole. A história de Pantera Negra se aprofunda na cultura negra; suas origens, seus costumes, o racismo e a política entorno dele. É fácil esquecer durante a progressão do filme que é uma obra da Marvel Studios, justamente por se ausentar de alívios cômicos e mergulhar (de forma autoral) em uma crítica fundamental para os dias de hoje.

Ryan consegue deixar sua assinatura e sua marca, desenvolvendo personagens fortes e entregando uma história que honra o personagem e tudo que o representa. O elenco perfoma brilhantemente e ajuda o diretor a entregar essa brilhante história. É válido ressaltar que o diretor respeita as personagens femininas, trazendo-lhes suas próprias características e representando-as com a força e presença que merecem. Normalmente (e infelizmente), elas são retratadas como personagens reativas no roteiro, porém nesse caso elas são o contrário: são ativas. Okoey, Shuri e Nakia não reagem aos acontecimentos da trama; elas agem e influenciam na história do começo ao fim. Além de toda representatividade racial, Coogler consegue dar relevância às mulheres da forma que merecem – e elas com certeza brilham ao lado do protagonista e seu antagonista.

A Marvel Studios é conhecida por seus vilões que são adaptados de forma vazia para o cinema, mas definitivamente não é o caso em Pantera Negra. Michael B. Jordan entrega uma de suas melhores performances na carreira ao interpretar Erik Killmonger, personagem que é o fruto principal de toda crítica social e racial que o filme carrega. O ator disse em uma entrevista que se inspirou no premiado Coringa de Heath Ledger, entretanto, Erik vai muito além da insanidade do palhaço do crime; é possível simpatizar com sua causa e os motivos que o levaram a esse caminho.

Um bom filme de herói precisa também de um bom vilão, e esse é um desses casos. O embate entre os dois não se restringe ao físico; o ideológico é decerto o mais importante a ser debatido. É nesse aspecto que Pantera Negra ganha brilho e um posto alto entre os melhores filmes do gênero de super-heróis.

A fotografia do filme coordenada por Rachel Morrison é outro destaque. Wakanda ganha vida numa paleta de cores completamente oposta ao que vimos em outras obras do estúdio. A direção de figurino feita por Ruth Carter também é primorosa, uma vez que ela entende a cultura africana e a retrata nos cidadãos de Wakanda e em cada uma das tribos que a formam. A trilha sonora também incorpora a África e é igualmente marcante. Tecnicamente, Pantera Negra é acima da média, pecando somente em alguns momentos em que os efeitos visuais e a ação deixam a desejar.

É nítida a diferença de quando o ator está em seu traje e quando não passa de um boneco digital, podendo atrapalhar a experiência para os mais observadores. As sequências de ação são pouco marcantes, com exceção de um plano sequência que tem a marca de Coogler. Apesar disso, o filme se sobressai e seu foco é outro: entregar uma mensagem.

Pantera Negra é indubitavelmente um marco nos filmes de super-heróis e, quiçá, em blockbusters em geral. Trata-se de uma obra autoral, que mesmo fazendo parte de um universo maior e fantasioso, explora as diferenças raciais e sociais que acontecem no mundo de hoje. São nítidas as inspirações em 007 Skyfall (2012, Sam Mendes) e Poderoso Chefão (1972, Francis Ford Copolla), que dão um tom único e inovador ao gênero. Pantera Negra não é só sobre um rei e suas dificuldades em assumir esse papel, mas sobre ser humano e lidar com todas as diferenças que possuímos; é sobre aprender a respeitá-las, valorizá-las e nos tratarmos como somos: iguais.

  • Ótimo
4

Resumo

Pantera Negra é indubitavelmente um marco nos filmes de super-heróis e, quiçá, em blockbusters em geral. Trata-se de uma obra autoral, que mesmo fazendo parte de um universo maior e fantasioso, explora as diferenças raciais e sociais que acontecem no mundo de hoje.

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