Aaron Sorkin é um baita roteirista. E disso não há dúvidas. Seus textos dinâmicos são marcantes e lhe renderam prêmios como Oscar por A Rede Social. Há outros trabalhos brilhantes como a série The Newsroom, entre outros. A Grande Jogada (Molly’s Game) não é apenas mais um ótimo roteiro de Sorkin (indicado ao Oscar deste ano), mas sua estreia como diretor. A primeira vez atrás das câmeras é discreta, mas exalta uma excelente performance de Jessica Chastain, esquecida no Oscar deste ano.

A atriz desempenha um dos grandes papeis femininos da temporada 2017/2018 como Molly Bloom, uma ex-promessa dos esportes de inverno que construiu um império do poker faturando vários milhões de dólares. Contudo, assim como na sua curta vida como atleta, há ascensão e queda. Sua fama no mercado ilegal dos jogos de azar acabou atraindo muita atenção indesejada. Sua trajetória é interessante de se acompanhar porque a narrativa de Sorkin é bem desenvolvida. Contudo, há momentos verborrágicos, com muitos e muitos monólogos de Molly, o que incomoda de início.

Mas há virtudes. Antes acusado de misógino, Sorkin dá total liberdade para Jessica Chastain brilhar. Ela executa seu melhor trabalho em tela. A atriz demonstra uma delicadeza e firmeza na voz, que pode parecer contida, mas é um blefe de poker. O público e os personagens acabam avaliando o que Molly tem a oferecer e, em seguida, ela dá sua cartada final. O primeiro ato é um dos mais brilhantes porque quando conhecemos sua real faceta – uma mulher sempre disposta a alcançar o sucesso.

O deslize de Sorkin como diretor está em sua própria qualidade. Usando e abusando de seus diálogos frenéticos, Molly acaba sem mais nada a oferecer do segundo para o terceiro ato. No mais, o seu vício em drogas e o tempo que ficou atrás das grades não compensam. Parecendo estar ciente do erro, Sorkin introduz o charmoso personagem de Idris Elba e a dobradinha com Chastain está ótima. A sintonia entre os dois é um dos pontos altos da produção, com diálogos fluindo naturalmente,  garantindo boas cenas. Elba vive o renomado e caro advogado que aceita defendê-la, mesmo com Bloom quebrada financeiramente. A entrada do personagem atua como uma espécie de olhos do espectador para compreender com plenitude o que se passa na cabeça de Molly.

Mais do que um filme sobre o mundo ganancioso do Poker, o que Sorki e Chastain conseguem tirar de melhor são as relações interpessoais. Algumas cenas parecem desnecessárias como encontro de Molly e do sisudo pai vivido por Kevin Costner na pista de patinação no gelo no Central Park. Ali é o momento que ela finalmente enfrenta seus demônios internos e supera um trauma. É o momento que Molly baixa sua guarda e mostra seu lado mais humano.

Ao final, A Grande Jogada é um longa, acima de tudo, sobre a reconciliação humana. Não importa sua fortuna ou sua honra. Em instantes você pode ter tudo e logo depois nada. Mesmo com algumas ressalvas, a parceria Chastain e Sorkin foi produtiva e bastou alguns minutos para que conquistasse o público.

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