Backrooms
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Backrooms: Um Não-Lugar expande o pesadelo saído da Internet

Dirigido por Kane Parsons e com roteiro de Will Soodik (Westworld), Backrooms: Um Não-Lugar é um terror ambientado na década de 1990 e inspirado na websérie criada pelo próprio diretor. A ideia de Backrooms surgiu a partir de um post anônimo no 4chan com a imagem de um escritório vazio acompanhada de uma legenda que falava sobre atravessar a realidade por engano e parar em um lugar que não deveria existir.

A narrativa colaborativa se espalhou por diferentes plataformas e fóruns online, como o Reddit e o 4Chan, consolidando o universo dos Backrooms como um dos maiores fenômenos das creepypastas e do horror nascido na internet. Em janeiro de 2022, o jovem diretor britânico, que na época tinha apenas 16 anos, publicou no YouTube um curta-metragem que transformou a lenda dos Backrooms em uma história coesa, criando uma mitologia própria para aquele espaço infinito e perturbador. O impacto foi imediato, e no ano seguinte, ele foi contratado pela A24 para adaptar a creepypasta para os cinemas.

O filme se inicia através de imagens captadas por uma câmera portátil. Um cientista conduz o espectador até o quartel-general improvisado de sua equipe, onde mesas cobertas por disquetes, fios e enormes computadores sugerem uma investigação clandestina e desesperada. Enquanto a gravação avança, uma entidade hostil passa a perseguir o cinegrafista. Vemos apenas fragmentos da criatura antes que a filmagem seja abruptamente interrompida. O reflexo na tela de uma televisão revela então outra equipe de pesquisadores assistindo ao material, ampliando ainda mais o mistério.

De volta ao “mundo real”, acompanhamos Clark,  interpretado por Chiwetel Ejiofor (12 Anos de Escravidão), um vendedor de móveis frustrado por ter abandonado o sonho de se tornar arquiteto, que agora administra o showroom Cap’n Clark’s Ottoman Empire no Vale de Santa Clara, no norte da Califórnia. Após o término traumático de seu relacionamento, ele passa a se consultar com a terapeuta Dra. Mary Kline, interpretada por Renate Reinsve (Valor Sentimental), uma mulher que também tem seus próprios traumas, cuja fragilidade emocional é revelada em delicados flashbacks.

Tudo muda quando Clark descobre, no porão da loja, um portal para um labirinto de salas intermináveis com a aparência banal de escritórios comerciais, mas construídos em proporções impossíveis. Fascinado pela descoberta, ele convence sua funcionária Kat, interpretada por Lukita Maxwell, e o namorado dela, Bobby, vivido por Finn Bennett, a ajudá-lo a mapear aquele espaço surreal. Porém, o que começa como exploração rapidamente se transforma em pesadelo. O filme entrega então uma sequência angustiante de perseguições por corredores mutantes e ambientes que parecem se reorganizar constantemente, como se o próprio labirinto estivesse vivo.

Mais do que um terror convencional, Backrooms: Um Não-Lugar aposta na atmosfera e na construção psicológica. O ritmo lento e contemplativo certamente dividirá opiniões, mas é justamente essa abordagem que torna a experiência tão inquietante. A narrativa funciona como um sonho febril: começa de maneira quase banal e gradualmente mergulha em um pesadelo sem lógica aparente, onde o medo nasce da desorientação e da sensação de aprisionamento.

Os personagens vêm de realidades completamente distintas, mas o filme sugere que isso pouco importa diante da força daquele lugar impossível. O labirinto parece absorver medos existenciais, traumas e frustrações, transformando memórias e inseguranças em espaços físicos. Cada corredor vazio transmite a sensação de que os personagens estão presos não apenas em um local sem saída, mas também em versões distorcidas de si mesmos. A ambientação nos anos 1990 intensifica ainda mais a angústia. Sem smartphones, internet ou qualquer forma imediata de comunicação, os personagens se encontram completamente isolados. Não há como registrar provas facilmente, pesquisar respostas ou pedir ajuda. Essa limitação tecnológica reforça o sentimento de impotência e faz com que o terror pareça ainda mais claustrofóbico.

Kane Parsons demonstra um controle impressionante da linguagem visual, evitando sustos fáceis e apostando em uma sensação constante de desconforto. O design de produção de Danny Vermette é extraordinário ao combinar cenários físicos e manipulação digital de forma orgânica. Ao lado do diretor de fotografia Jeremy Cox, o filme constrói uma estética opressiva marcada por luzes fluorescentes amareladas que parecem contaminar cada ambiente. A iluminação cria uma atmosfera sufocante, como se o próprio espaço estivesse lentamente apodrecendo diante dos olhos do espectador.

Backrooms: Um Não-Lugar não entrega respostas fáceis. O filme transforma o vazio, a repetição e a solidão em horror puro, criando uma experiência sensorial profundamente perturbadora. Pode não agradar quem procura um terror tradicional repleto de sustos e explicações, mas certamente encontrará força entre os espectadores que apreciam narrativas mais abstratas, psicológicas e existenciais. Mais do que contar uma história sobre monstros escondidos em corredores infinitos, o filme fala sobre pessoas aprisionadas em seus próprios medos, memórias e fracassos. E talvez o aspecto mais assustador seja justamente a possibilidade de que os Backrooms não sejam apenas um lugar impossível, mas uma extensão silenciosa da própria mente humana.

Backrooms: Um Não-Lugar chega aos cinemas brasileiros no dia 28 de maio com distribuição da Imagem Filmes tem recomendação etária de 16 anos.

3

Bom

Backrooms: Um Não-Lugar transforma a mitologia viral dos Backrooms em um terror psicológico sufocante, usando a estética dos anos 1990 e corredores infinitos para explorar trauma, solidão e medo existencial. Com direção segura de Kane Parsons, o filme aposta mais na atmosfera e no desconforto crescente do que em sustos fáceis, criando uma experiência sensorial inquietante e abstrata. Embora o ritmo lento e a falta de respostas possam afastar parte do público, a obra se destaca como uma adaptação inteligente das creepypastas da internet para um horror mais autoral e psicológico.

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