Apenas Uma Ilusão é comédia agridoce sobre família e amadurecimento

Apenas Uma Ilusão é uma comédia sobre amadurecimento, que aborda a perda da inocência, as primeiras rebeldias e os primeiros amores do jovem Vincent (Simon Boublil). A obra é assinada pela dupla Olivier Nakache e Éric Toledano, cineastas responsáveis ​​por alguns dos maiores sucessos recentes do cinema francês, incluindo Intocáveis, de 2011.

Trata-se de uma obra absolutamente encantadora, com um tom leve e juvenil que combina perfeitamente com a época retratada: a segunda metade dos anos 1980. Acompanhamos Vincent, um garoto judeu que está prestes a completar 13 anos e, em tese, deveria estar se preparando para o seu bar mitzvah, cerimônia que marca, segundo a tradição judaica, sua entrada na vida adulta religiosa. Mas essa não parece ser uma de suas maiores preocupações. O rabino aparece de vez em quando em sua casa para lhe dar algumas aulas, e é basicamente nisso que se resume sua preparação.

O que realmente incomoda Vincent é ter de dividir o quarto com o irmão Arnaud (Alexis Rosenstiehl), de 17 anos, que passa boa parte do tempo ouvindo rock. Os dois vivem às turras, ora por brincadeira, ora por motivos mais sérios. O mais novo sonha em ter um espaço só seu, onde possa colocar pôsteres de bandas de funk nas paredes e desfrutar de alguma privacidade. Mas a casa da família, localizada nos subúrbios de Paris, é pequena, e ninguém está em condições de fazer muitas exigências.

Vincent enfrenta uma sucessão de situações que fazem parte desse delicado processo de crescimento. Seus pais, Yves (Louis Garrel) e Sandrine (Camille Cottin), atravessam dificuldades profissionais e não param de discutir. O país enfrenta uma recessão, o dinheiro está curto e a tensão dentro de casa aumenta. O pai foi demitido, mas, durante algum tempo, esconde a situação da família. Já a mãe deseja conquistar um cargo de chefia e, para isso, precisa ser aprovada em um teste de informática. Como se não bastasse, ela ainda tem de lidar com as investidas de Etienne (Pierre Lottin), o síndico do prédio, um sujeito de conversa fácil e intenções bastante evidentes.

Enquanto isso, Arnaud tenta ganhar um dinheiro extra gravando e comercializando fitas cassete piratas. Vincent e seus amigos, por sua vez, estão empenhados em uma missão que, aos olhos deles, parece muito mais urgente: descobrir uma maneira de alugar um filme erótico na locadora. São pequenas aventuras e preocupações que ajudam a compor um retrato divertido e bastante reconhecível da adolescência naquela época.

Tudo isso, porém, acaba ficando em segundo plano quando Vincent conhece Anne-Karine (Jeanne Lamartine), uma colega de escola com quem precisa formar dupla para um trabalho. Inicialmente, ela mal percebe sua existência, mas, aos poucos, o garoto consegue conquistá-la com algumas mentirinhas inofensivas e um admirável senso de humor. O romance que começa a florescer provoca reações curiosas nos pais de ambos, especialmente nos dela, que não sabem muito bem como lidar com a situação.

Anne-Karine despreza o próprio pai, um homem racista, e Vincent, em um gesto que mistura ingenuidade, ousadia e espírito cavalheiresco, propõe irritá-lo tornando-se o primeiro namorado árabe-judeu da garota. A situação, além de divertida, revela como o protagonista começa a compreender as diferenças, os preconceitos e as contradições do mundo adulto.

Apenas Uma Ilusão é um retrato nostálgico de uma família dos anos 1980 e das experiências da adolescência e da pré-adolescência naquele período. O filme recupera uma época em que as relações familiares, os hábitos e as formas de comunicação eram bastante diferentes dos atuais. Há uma certa inocência na maneira como os personagens descobrem o mundo, enfrentam seus conflitos e experimentam os primeiros sentimentos amorosos. Os detalhes de época são apresentados com carinho, e a atmosfera retrô ganha ainda mais força com uma trilha sonora repleta de sucessos daquele período, com músicas de Toto, Simply Red, The Cure e Joy Division.

O encanto do filme está justamente na soma de seus pequenos momentos: as cenas leves e divertidas, os números de dança contagiantes, os desencontros amorosos, as rivalidades entre irmãos e as situações embaraçosas que fazem parte de qualquer processo de amadurecimento. Merece destaque, sobretudo, o excelente trabalho de Louis Garrel e Camille Cottin, que dão vida a um casal aparentemente incapaz de conviver em harmonia, mas cuja relação revela, por trás das discussões e implicâncias, um afeto profundo.

O filme também encontra espaço para reflexões interessantes sobre as transformações culturais e sociais daquele período, especialmente no que diz respeito às relações familiares e à construção de uma educação menos autoritária e mais igualitária. Aos poucos, os pais percebem que impor regras e tentar controlar cada passo dos filhos nem sempre é o melhor caminho. Às vezes, ouvir é muito mais eficiente do que repreender.

Apenas Uma Ilusão fala menos sobre os grandes acontecimentos da vida do que sobre aqueles pequenos episódios que, sem percebermos, acabam nos transformando. O primeiro amor, as brigas com os irmãos, as descobertas, os constrangimentos, os sonhos aparentemente impossíveis e até as mentiras contadas para impressionar alguém compõem a memória afetiva de uma fase que todos, de alguma maneira, precisam atravessar. Com delicadeza, humor e uma generosa dose de nostalgia, Nakache e Toledano nos lembram que crescer significa também aprender a lidar com as imperfeições dos outros e com as nossas próprias. É um filme sobre um tempo que já passou, mas cujas emoções permanecem surpreendentemente atuais. Um convite agradável a revisitar a própria adolescência e a perceber que, embora muita coisa tenha mudado, as inquietações de quem está descobrindo o mundo continuam essencialmente as mesmas.

Apenas Uma Ilusão chega exclusivamente nos cinemas brasileiros no dia 12 de novembro, com distribuição da Mares Filmes.

3.5

Muito bom

Apenas Uma Ilusão é uma comédia delicada e nostálgica sobre as descobertas, os conflitos e os primeiros amores da adolescência, ambientada nos anos 1980. Um filme encantador, que encontra na simplicidade dos pequenos acontecimentos sua maior força e nos lembra que crescer é também aprender a compreender o outro.

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