Ana, en passant é uma colagem de elementos de diferentes estilos visuais e formas de mídia, tendo na experimentação estética um de seus maiores trunfos. O estilo de animação é particularmente fascinante, sobretudo pela maneira como combina técnicas distintas para construir uma linguagem visual própria. A obra demonstra uma preocupação constante com a forma, explorando imagens, movimentos e transições que ampliam as possibilidades de sua narrativa. Embora apresente uma profundidade temática interessante, seu impacto emocional nem sempre alcança a intensidade que poderia ter.
A história acompanha Ana (Jéssica Pierina), uma mulher que vive em Paris e foi criada pela avó após a morte de sua mãe durante o parto. Depois do falecimento da avó, Ana viaja ao Brasil para visitar a casa onde ela viveu e buscar respostas sobre suas origens. Essa jornada, inicialmente motivada pela necessidade de compreender o próprio passado, transforma-se em uma investigação íntima sobre identidade, pertencimento e as marcas deixadas por aqueles que já não estão presentes.
No Brasil, Ana conhece Alice (também dublada por Jéssica Pierina), uma mulher grávida que vive no apartamento que era da avó de Ana. Curiosamente, a nova conhecida compartilha o nome de sua avó. Alice permite que Ana permaneça no apartamento enquanto ela atravessa o luto e tenta reconstruir as memórias. A convivência entre as duas dá origem a um vínculo que se desenvolve de maneira gradual, criando um espaço de troca entre mulheres que, apesar de estarem em momentos diferentes da vida, compartilham experiências de transformação, vulnerabilidade e descoberta.
A memória ocupa um lugar central na narrativa. O filme utiliza a metáfora dos mapas para representar os caminhos que percorremos na tentativa de compreender nossas próprias histórias. Fotografias, objetos e vestígios materiais funcionam como pontos de referência, conectando pessoas, lugares e acontecimentos que, à primeira vista, parecem dispersos. Nesse sentido, a busca de Ana não consiste apenas em descobrir fatos sobre sua família, mas também em encontrar maneiras de organizar as lembranças e atribuir significado às ausências que moldaram sua existência.
Entretanto, o luto raramente segue um percurso linear. É um processo complexo, marcado por avanços, recuos e momentos de incerteza. Os objetos que guardamos e as conexões que estabelecemos podem oferecer algum conforto, ajudando-nos a compreender a dimensão da perda, mas nem sempre conduzem a respostas definitivas. Ana, en passant parece reconhecer essa ambiguidade ao evitar uma resolução inteiramente objetiva para as questões que apresenta. Ainda assim, a abordagem contemplativa, por vezes, distancia o espectador da experiência emocional das personagens, fazendo com que algumas ideias sejam mais interessantes em sua concepção do que em sua execução.

A narrativa transita entre presente e passado, realidade e devaneio, construindo uma atmosfera em que as fronteiras entre lembrança e imaginação se tornam fluidas. Essa estrutura favorece a dimensão poética do filme, permitindo que sensações e imagens expressem aquilo que as palavras não conseguem traduzir completamente. Ana é escritora, mas sua relação com o movimento revela outra herança: a inclinação para dançar, hábito que remete à avó, que era dançarina. O corpo torna-se, assim, uma forma de memória, capaz de preservar vínculos que não dependem exclusivamente da linguagem verbal.
A liberdade de movimentar-se assume um caráter catártico, funcionando também como uma ligação simbólica com as gerações anteriores. Por meio dessa expressão corporal, o filme explora a relação entre identidade individual e herança ancestral. Ao acompanhar Ana e Alice em fases distintas da vida, a obra também sugere uma reflexão sobre a experiência feminina, a passagem do tempo e as transformações físicas e emocionais que acompanham diferentes ciclos da existência.
No entanto, apesar da riqueza dessas ideias, a conexão entre os elementos simbólicos nem sempre se traduz em uma experiência narrativa igualmente envolvente. A atmosfera, os recursos visuais e as metáforas despertam interesse, mas o desenvolvimento dramático poderia aprofundar melhor as relações entre as personagens, tornando suas jornadas mais comoventes e significativas.
Ana, en passant é uma obra tecnicamente impressionante, cuja principal força reside na experimentação estética e na capacidade de transformar memória, corpo e ancestralidade em imagens poéticas. Seu olhar sensível para o luto e para os vínculos entre mulheres oferece momentos de beleza e reflexão, ainda que a narrativa não consiga explorar plenamente o potencial emocional de suas próprias ideias. O resultado é um filme que se destaca mais pela maneira como conta sua história do que pela história em si: uma experiência visual instigante, marcada por boas intuições artísticas, mas que deixa a sensação de que poderia ter ido mais longe na construção de seu impacto emocional.
Ana, en passant estreia em 5 de novembro, com distribuição da Embaúba Filmes.
Bom
Ana, en passant destaca-se pela experimentação estética, combinando diferentes técnicas de animação para explorar poeticamente a memória, o luto e a ancestralidade. Embora apresente reflexões sensíveis sobre identidade, pertencimento e vínculos femininos, a narrativa nem sempre desenvolve seu potencial emocional. O resultado é um filme visualmente fascinante, mas que privilegia a força das imagens em detrimento de um envolvimento dramático mais profundo.