A Única Saída (2025).
Divulgação.
A Única Saída (2025).
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A Única Saída traz uma sátira afiada sobre a crueldade do capitalismo moderno

O diretor Park Chan-wook sabe muito bem como arquitetar pautas sociais em histórias que flertam com a fantasia. Em seu clássico contemporâneo Oldboy, o cineasta mesclou essas duas características de forma hipnotizante, criando uma narrativa daquelas às quais é impossível não se entregar. Em A Única Saída, Park se utiliza das inúmeras injustiças do capitalismo moderno para abordar temas como fragilidade masculina, desemprego e disfunção familiar.

Na história, acompanhamos You Man-su (Lee Byung-hun), um pai de família trabalhador que vê sua vida mudar drasticamente ao receber a notícia de que, após 25 anos de dedicação à empresa onde trabalha, será demitido. Desesperado para voltar ao mercado de trabalho, recuperar sua imagem como chefe da família e sustentar a esposa, Miri (Son Ye-jin), e seus dois filhos, ele encontra uma solução extrema para o problema: eliminar — literalmente — a concorrência.

A frase “momentos de desespero exigem medidas extremas” representa com precisão toda a trama de A Única Saída, que explora a crise do capitalismo com humor ácido e suspense em torno das ações de You Man-su, um homem aparentemente correto que se transforma em um assassino em série.

É impossível assistir a uma obra de Park Chan-wook e não lembrar de Parasita, de Bong Joon-ho. Além de criticarem o capitalismo moderno e a desigualdade econômica na Coreia do Sul, ambos os filmes se apoiam em estruturas quase fabulares, permitindo contar histórias “absurdas” sem perder o senso de realismo. As ações de Man-su, apesar de extremas, representam com clareza um mercado que age como um predador: implacável e sem misericórdia. Estar desempregado, dentro dessa lógica, é como ouvir do próprio sistema que sua vida e função social já não têm valor. Até onde você estaria disposto a ir para recuperá-lo?

Além das questões socioeconômicas, A Única Saída também explora a desordem familiar quando a figura do provedor perde seu valor simbólico. Miri é peça fundamental nesse aspecto, pois, a partir dela, Man-su vê sua situação se agravar ainda mais, revelando sua fragilidade masculina e inseguranças em relação ao casamento — que, em sua visão distorcida, parece sustentado apenas por interesses materiais. Para Park, sentimentos são bens raros; quem consegue preservá-los é o mais rico de todos.

Esses temas sustentam uma narrativa que prende do início ao fim, mas é impossível não destacar a direção criativa e singular de Park Chan-wook. Desde a icônica cena do corredor em Oldboy, já era evidente que sua visão fugia do senso comum — e, mais de 20 anos depois, ele continua surpreendendo. Seja pelo posicionamento inusitado da câmera, pelo uso de dupla exposição, pela edição precisa, pelo desenho de som ou pela escalada de tensão narrativa, todos os elementos técnicos elevam o filme a outro patamar.

A sensação é a de uma grande orquestra em perfeita sintonia entre maestro e músicos. Um exemplo claro disso é o elenco extraordinário, com destaque absoluto para Lee Byung-hun, que, apenas com olhares carregados de desespero, consegue ditar o tom cômico e angustiante da obra.

Em A Única Saída, Park Chan-wook reforça a ideia de que, para o mercado de trabalho, somos como folhas de papel: úteis por um período limitado e facilmente substituíveis. A partir dessa provocação, o cineasta entrega uma obra desconfortável, tensa e, surpreendentemente, engraçada — que termina deixando uma pergunta inevitável: você é aquilo que produz ou aquilo que vive?

A Única Saída chega aos cinemas em 22 de janeiro de 2026, com distribuição da Mares Filmes.

4.5

Ótimo

A Única Saída usa o absurdo como lente para escancarar a crueldade do capitalismo moderno. Park Chan-wook constrói uma sátira amarga sobre desemprego, fragilidade masculina e a ilusão de valor que o mercado impõe aos indivíduos.

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