A Terra Do Meu Pai
Divulgação
A Terra Do Meu Pai
Divulgação

A Terra do Meu Pai retrata belamente as ruínas da pátria e do afeto

Com direção e roteiro do cineasta polonês Paweł Pawlikowski (Guerra Fria), A Terra do Meu Pai, vagamente inspirado em acontecimentos reais, tem como figura central o escritor alemão Thomas Mann, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura. O filme aborda o exílio, a impossibilidade de retornar verdadeiramente ao lar e o desafio enfrentado pelos filhos de um grande artista, condenados a ocupar um lugar secundário na vida de um pai cuja relação com o mundo parece ter precedência sobre os vínculos familiares.

A trama se passa em 1949, poucos anos após o fim da Segunda Guerra Mundial. Thomas Mann (Hanns Zischler), que deixou a Alemanha antes da guerra para escapar do nazismo e acabou se exilando na Califórnia, onde obteve a cidadania americana, retorna à terra natal para receber homenagens. Ao percorrer um país devastado e dividido, o escritor precisa confrontar as contradições de um regresso a um lugar que, embora ainda reconhecível, já não corresponde àquele que guardava na memória.

Sua primeira parada é Frankfurt, na Alemanha Ocidental, onde recebe um prêmio que leva o nome de Goethe, o célebre escritor nascido na cidade. Mann evoca deliberadamente a sabedoria humanista e a cultura cosmopolita de Goethe, assim como sua concepção da arte como espaço de transcendência, procurando afirmar a permanência dos valores culturais alemães para além das catástrofes políticas que destruíram o país.

Sua recepção, porém, está longe de ser consensual. Na Alemanha, é celebrado por sua grandeza literária, mas também censurado por aqueles que interpretam sua emigração como uma forma de abandono da pátria. Nos Estados Unidos, por outro lado, é observado com desconfiança em razão de suas supostas simpatias comunistas. Preso entre dois mundos ideologicamente antagônicos, Mann tenta preservar uma posição independente, embora essa neutralidade se torne cada vez mais difícil de sustentar.

Ele viaja acompanhado da filha Erika (Sandra Hüller), cuja trajetória pessoal e política é marcada por conflitos e frustrações. Erika carrega as cicatrizes de uma vida difícil ao lado do pai e sofre profundamente com a ausência do irmão, Klaus (August Diehl), também escritor e exilado, que enfrenta a depressão e a dependência química. Ex-correspondente de guerra, ela teve sua cidadania americana negada três vezes, em parte devido às suas posições políticas anticapitalistas, tornando-se uma figura incômoda para o país em que vive.

Klaus, por sua vez, conquistou notoriedade com Mephisto, romance sobre um ator ambicioso que se alia aos nazistas para preservar a carreira. Mais incisivo do que o pai em seu engajamento político, Klaus expôs, por meio da ficção, as concessões morais feitas por aqueles que preferiram acomodar-se ao poder. O livro foi inspirado em Gustaf Gründgens (Joachim Meyerhoff), ex-marido de Erika e ator que prosperou durante o regime nazista. Na recepção oferecida a Mann em Frankfurt, Gründgens reaparece em cena com um relato autocentrado e autopiedoso sobre sua breve passagem por uma prisão soviética, num episódio que sintetiza a facilidade com que alguns tentam reescrever o próprio passado.

O entusiasmo com que Thomas Mann é recebido em Frankfurt contrasta com o desconforto provocado por sua decisão de aceitar uma segunda homenagem em Weimar, situada na zona de ocupação soviética, na Alemanha Oriental. A escolha é politicamente delicada: em plena Guerra Fria, atravessar a fronteira significa desafiar as expectativas de um Ocidente cada vez mais empenhado em demarcar suas diferenças em relação ao bloco comunista. A própria cidade, associada à herança de Goethe e Schiller, carrega também a memória da República de Weimar, cujo fracasso antecedeu a ascensão do nazismo.

Durante a viagem, pai e filha recebem uma notícia devastadora envolvendo Klaus. Erika fica profundamente abalada, mas Thomas mantém a postura austera e parece incapaz de interromper a agenda de compromissos. Sua insistência em prosseguir com a viagem revela não apenas o rigor de um homem habituado a subordinar a vida privada às obrigações públicas, mas também uma dolorosa dificuldade de reconhecer e acolher o sofrimento da filha.

Em Weimar, eles são recebidos pelo escritor Johannes Becher (Devid Striesow), entusiasta da nova ordem soviética, e por uma plateia solene, na qual a presença de militares reforça o caráter político da cerimônia. Em seu discurso, Mann aborda, entre outros temas, a concepção do amor em Goethe. Diante dos aplausos dos representantes do regime comunista, conserva a mesma compostura diplomática que demonstrara no Ocidente. Seu objetivo parece ser atravessar as duas Alemanhas sem se deixar capturar inteiramente por nenhuma delas, reafirmando a primazia da cultura sobre as fronteiras ideológicas.

Mas a Alemanha à qual Mann retorna já não existe. O país que alimentou sua formação intelectual e deu origem à sua obra está dividido por fronteiras geopolíticas, rivalidades partidárias e ressentimentos históricos. Sobre ele pesa ainda a memória do Holocausto, que compromete qualquer tentativa de recuperar ingenuamente uma identidade nacional. O retorno do escritor torna-se, assim, uma experiência de estranhamento: a língua permanece, a tradição literária sobrevive, mas o vínculo entre cultura, pátria e pertencimento perdeu sua antiga estabilidade.

O roteiro, assinado por Paweł Pawlikowski e Henk Handloegten, criador de Babylon Berlin, é refinado e erudito, repleto de referências literárias, filosóficas e históricas. A densidade intelectual do filme pode restringir seu alcance junto a um público menos familiarizado com a trajetória de Thomas Mann e com as disputas ideológicas do pós-guerra. Ainda assim, a presença de Sandra Hüller, uma das atrizes mais expressivas do cinema contemporâneo, oferece à narrativa um contraponto emocional capaz de ampliar seu alcance. É sobretudo por meio de Erika que as abstrações políticas e culturais ganham uma dimensão íntima e dolorosa.

A fotografia de Lukasz Żal, em um preto e branco luminoso e de notável rigor composicional, recria com sensibilidade a atmosfera das duas Alemanhas de 1949. A trilha sonora, que reúne Bach, Mozart e Messiaen, além de jazz da época e de um sombrio hino socialista composto por Hanns Eisler, colaborador frequente de Bertolt Brecht, amplia a complexidade histórica e emocional do filme. Imagem e música não funcionam apenas como elementos de reconstituição de época, elas contribuem para criar um universo em que a beleza da cultura convive permanentemente com as ruínas da história.

A Terra do Meu Pai é menos um filme sobre o retorno de um escritor célebre à sua terra natal do que sobre a descoberta de que certas formas de pertencimento não podem ser recuperadas. Thomas Mann reencontra a Alemanha, mas já não encontra nela a pátria que preservara em sua memória. Sua grandeza literária lhe permite atravessar fronteiras e ser homenageado por adversários ideológicos, mas não o livra da incapacidade de reparar as distâncias que o separam dos próprios filhos. Enquanto tenta salvar a continuidade de uma cultura ameaçada pela barbárie, parece não perceber inteiramente a fragilidade dos vínculos que se desfazem dentro de sua própria família.

É nessa tensão entre a história pública e a tragédia privada que o filme encontra sua força. A pátria perdida não é apenas um território destruído e dividido, mas também um lugar afetivo ao qual talvez nunca tenha sido possível retornar. E, se a cultura pode sobreviver à ruína de um país, ela não oferece necessariamente consolo àqueles que pagam o preço íntimo da grandeza alheia. Com elegância formal e uma melancolia que evita o sentimentalismo, Pawlikowski constrói um retrato comovente do exílio.

A Terra do Meu Pai chega aos cinemas brasileiros em 29 de outubro, com distribuição da Imovision e da MUBI.

4

Ótimo

Entre as ruínas da Alemanha do pós-guerra, A Terra do Meu Pai examina o exílio, as contradições políticas e a impossibilidade de recuperar uma pátria perdida. Com rigor estético e densidade intelectual, Paweł Pawlikowski contrapõe a permanência da cultura à devastação da história e dos vínculos familiares.

Conteúdo relacionado

Críticas

Mais lidas