Histórias sobre amadurecimento talvez sejam as que mais ressoem de maneira individual em cada pessoa. Mesmo que existam semelhanças e experiências compartilhadas, crescer ainda é uma jornada única para todos. Em A Pequena Amélie, o objeto de estudo se torna a beleza, a ternura e as dificuldades de superar a infância, resultando em uma animação poética e digna de figurar entre as melhores do ano.
Adaptação do romance de Amélie Nothomb, os diretores Maïlys Vallade e Liane-Cho Han apresentam as contradições do processo de amadurecimento a partir de um olhar inocente e questionador, incapaz de compreender por completo tudo ao seu redor. Todas as ideias, sentimentos e a honestidade que os diretores buscam transmitir são potencializados pelo estilo de animação do filme, que se torna o pilar fundamental de suas mensagens.
A história acompanha o nascimento de Amélie (Beta Cinalli), uma menina belga que vive em Kobe, no Japão, no final dos anos 1960 ao lado de sua família: mãe, pai, irmão e irmã mais velhos. Vivendo de forma quase vegetativa até os três anos de idade, ela acaba “despertando” para os sentimentos, marcando um momento decisivo que transformará completamente sua compreensão do mundo.
Entre primeiras experiências com emoções como felicidade, raiva, angústia e medo, o filme se transforma em um retrato caloroso sobre como a infância é um período crucial para novas descobertas. Em uma fase da vida em que ainda não possuímos quase nenhum conhecimento, qualquer conclusão parece absolutamente verdadeira. Por isso, ainda que por pouco tempo, toda criança é uma espécie de deusa do próprio mundo.
Somos transportados para o olhar curioso e questionador de Amélie, e com ela atravessamos suas experiências — boas e ruins. O filme não tenta limitar seu crescimento ou trazê-la bruscamente à realidade. Pelo contrário: por meio de uma animação em aquarela, a proposta é explorar ao máximo a criatividade da protagonista. Pequenos momentos, como comer chocolate branco pela primeira vez, visitar o parque para ver os peixes ou aprender a escrever seu nome em japonês, tornam-se eventos grandiosos pela forma como a arte traduz a imaginação infantil.
Apesar de carregar reflexões filosóficas e questionamentos emocionais profundos, A Pequena Amélie não pretende ser uma animação voltada apenas para adultos. Muito da sua beleza está justamente na simplicidade com que a narrativa se constrói e na forma leve com que aborda temas mais complexos. Um exemplo disso é a personagem Nishio-san, que se torna uma espécie de bússola para Amélie em muitas de suas primeiras descobertas.
Em A Pequena Amélie, a preciosidade de viver nossos melhores dias está em não saber que eles são os melhores. Errar, chorar, sorrir e sentir medo fazem parte da jornada de autodescoberta que é a infância — essa incógnita maravilhosa. Uma preciosidade que merece mais atenção e que, sem dúvida, tem minha torcida para conquistar o Oscar de Melhor Animação.
A Pequena Amélie já está em cartaz nos cinemas, com distribuição da Mares Filmes.
Muito bom
A Pequena Amélie transforma a infância em um poema visual sobre descobertas, imaginação e os primeiros encontros com o mundo.