Em A Noiva!, a diretora e roteirista Maggie Gyllenhaal costura uma colcha de retalhos de referências cinematográfica para que nasça sua criação, entre elas Frankenstein, A Noiva de Frankenstein, Jovem Frankenstein, Bonnie e Clyde, Assassinos por Natureza, Coringa: Delírio a Dois, Sid e Nancy e Nascida em Chamas. É uma mistura caótica, selvagem e desordenada, mas ao mesmo tempo empolgante. O filme começa com uma ofegante Mary Shelley (Jesse Buckley), capturada em um sufocante close-up em preto e branco, introduzindo esta história como aquela que ela ainda desejava contar, mesmo do túmulo. Sua fúria contra o silenciamento histórico atravessa os séculos e encontra morada em Ida (também vivida por Buckley), uma acompanhante na Chicago dos anos 1930.
O destino de Ida muda drasticamente quando ela é possuída pelo espírito revoltado de Shelley enquanto trabalhava com um gangster grosseiro (Matthew Maher). Ida abandona seus sorrisos conciliadores e começa a vomitar verdades, quando seu sotaque americano dá lugar a uma voz britânica feroz que uiva sobre os crimes de um chefão local. Ida não consegue impedir que a autora fale através dela e por isso paga um preço fatal.
Em outra parte desta cidade, o monstro de Frankenstein (Christian Bale), que prefere ser chamado de Frank, chega à porta da Dra. Euphronious (Annette Bening), uma cientista maluca com interesse em ressuscitar os mortos. Apontando para seus trabalhos publicados sobre o assunto, o monstro centenário implora que ela tenha piedade dele e construa uma noiva para ele, ou seja, uma garota morta ressuscitada que poderia pôr fim à sua solidão. Relutantemente, Euphronious concorda e, após um pouco de profanação de túmulos, Ida é revigorada, sem memória de quem era antes e com um visual alternativo e radiante.

Este experimento radical deixa o cabelo curto de Ida completamente branco e para cima, um visual que remete ao do filme original. A bile que ela cospe mancha não só seu rosto, mas deixa marcas que descem do pescoço até os seios, do braço até os dedos. Ela está manchada ou tatuada, um lembrete constante da escuridão dentro dela. Dentro de Ida reside um fogo que a impulsiona a arrastar Frank para uma boate clandestina em busca de dança e devassidão. Mas quando dois estranhos rejeitam a recusa de Ida às suas investidas, Frank intervém e assassina os homens. Agora, esses monstros precisam fugir da lei.
Como em Bonnie e Clyde, eles perseguem sua felicidade, distribuindo porrada e tiros pelo caminho, enquanto parecem fadados a um fim violento. Atrás deles, segue o detetive Jake Wiles (Peter Sarsgaard), um sujeito distante e perspicaz, e sua assistente (que na verdade é quem faz o trabalho), Myrna Mallow (Penélope Cruz). O detetive e Ida compartilham um passado conturbado que remonta aos tempos em que ela estava envolvida com a máfia – uma subtrama que arrasta a narrativa.
As façanhas da Noiva vão ganhando notoriedade e começam a inspirar mulheres por todo o país a pegar em armas e se tornarem revolucionárias contra uma sociedade misógina que as trata com desprezo e violência, elas passam a emular o visual com a boca manchada de preto e dedo nervoso no gatilho de Ida. Desde o início, Shelley reflete sobre como a sociedade patriarcal oprime a fala das mulheres como algo natural. Ida é uma ameaça para os gângsteres por causa do que ela poderia dizer aos policiais. Ela é uma personagem que personifica a dualidade estressante de ser mulher em um mundo governado por homens violentos. O problema é que essa ideia de revolução não é desenvolvida o suficiente, e ela parece tão superficial que o filme provavelmente funcionaria melhor sem ela.
Jesse Buckey entrega uma atuação maníaca, muitas vezes exagerada, tão carregada de tiques e gritos que leva um tempo para se acostumar. Mas isso faz sentido na maior parte do tempo, já que Ida é uma mulher possuída pelos mortos enlouquecidos. A atriz é conhecida por seus papéis de mulheres ferozes, rebeldes que se recusam a se encaixar em um molde. Num instante, Ida é uma moça alegre, feliz dançando ou assistindo a um filme com o astro de cinema favorito de Frank, o cantor e sapateador Ronnie Reed (Jake Gyllenhaal), no instante seguinte, ela está furiosa e vociferando. E Frank nunca se deixa abalar por suas mudanças de humor, pelo contrário, se encanta com sua inteligência, mesmo que não consiga compreender sua turbulência. Aí reside o romance: ele não a ama apesar de seu comportamento extravagante, mas por ela por completo. Christian Bale traz muita vulnerabilidade ao papel.
A Noiva! mistura ousadamente elementos de terror com humor, romance com repulsa, criando uma aventura descaradamente selvagem e extravagante. Os resultados nem sempre são satisfatórios, mas não dá para negar que Maggie Gyllenhaal ousou, foi muito criativa e fez um filme punk rock que é mais para sentir do que qualquer outra coisa. Algumas cenas farão você sentir vergonha alheia, enquanto outras farão você rir. É uma pena que a diretora e roteirista não tenha amenizado o excesso de palavras no roteiro para deixar que a fúria da Noiva e o novo status de Frank como uma espécie de marido falassem por si mesmos. Quando os temas são explicados em excesso e à exaustão pelos personagens, seu impacto é diminuído.
A Noiva! chega aos cinemas brasileiros em 5 de março de 2026, com distribuição da Warner Bros. Pictures.
Bom
O filme de Maggie Gyllenhaal é um delírio punk que funde o mito de Mary Shelley ao espírito de Bonnie e Clyde, transformando o terror gótico em um manifesto feminista visceral. Embora a atuação maníaca de Jessie Buckley e a vulnerabilidade de Christian Bale tragam força à obra, o excesso de didatismo no roteiro acaba por diluir o impacto de sua fúria visual. No fim, é uma experiência caótica e criativa que prioriza a sensação e a rebeldia em detrimento da coesão narrativa.