A Morte Não Tem Dono, terceiro longa-metragem do diretor e roteirista venezuelano Jorge Thielen Armand, constrói uma atmosfera tropical palpável, capaz de transportar o espectador para o universo da história. No entanto, apesar da tensão promissora que se acumula nos momentos iniciais, o filme acaba não conduzindo a lugar algum.
A narrativa começa com uma sequência inquietante. Não sabemos se estamos diante de um sonho ou de um flashback, uma cena que nunca chega a ser inteiramente esclarecida. Nela, Caro (Asia Argento) aparece em uma ravina, onde um homem mascarado e coberto de sangue (Roberto Conde) a incita a matar outro homem (David Tiburcio). Nada é explicitado, mas o filme sugere que Caro é uma mulher marcada pelo passado, que carrega as cicatrizes tanto dos anos vividos naquela casa quanto do trauma de ter sido obrigada a deixá-la.
Em seguida, temos um corte para a protagonista, recém-chegada à Venezuela. Ela retorna ao país para vender a fazenda de cacau herdada do pai, já falecido. Depois de se encontrar com o advogado, Roque (Jorge Thielen Hedderich), e obter a escritura do imóvel onde cresceu, Caro chega à mansão em ruínas. A essa altura, a construção mal se distingue da floresta tropical que avança ao seu redor, embora ainda seja possível vislumbrar os vestígios do luxo de outrora. Não surpreende, portanto, que Roque a tenha advertido de que a propriedade e as terras ao redor não valem o milhão de dólares que ela esperava receber. Se conseguir metade desse valor, já terá motivos para comemorar.
O estado de conservação da casa, porém, logo se revela a menor das preocupações de Caro. Ela descobre que várias pessoas vivem na propriedade, aparentemente sob a liderança de Sonia (Dogreika Tovar), que se lembra de Caro dos tempos em que trabalhava para seu pai. Sonia mora ali há anos e agora divide o espaço com o filho, Maiko (Yermain Sequera), um menino em idade escolar que, ao que tudo indica, não frequenta a escola.
Um inquilino (José Aponte) aluga um quarto de Sonia e, ocasionalmente, divide a cama com ela. Já Yoni (Arturo Rodríguez), antigo funcionário da fazenda, também circula livremente pela propriedade, sobretudo pela plantação. Felizmente para Caro, sua lealdade parece pender mais para o lado da antiga patroa, uma circunstância providencial, já que a relação entre as duas mulheres se deteriora rapidamente quando Caro anuncia que Sonia terá de sair para que a propriedade possa ser vendida.
Depois de algumas ameaças, Caro decide se mudar temporariamente para a cidade. Hospedada em um hotel decadente, ela tenta encontrar uma maneira de se livrar dos ocupantes da fazenda. A polícia, porém, não demonstra interesse em ajudá-la: segundo os agentes, Sonia tem direito a permanecer no local, uma vez que vive ali há mais de cinco anos. Além disso, ela dispõe de outros argumentos legais para reivindicar a posse da propriedade. A reação dos moradores deixa claro que ninguém parece simpatizar com aquela gringa arrogante e invasiva. Menos ainda com uma mulher que desfila de botas de couro e chapéu, como uma coronel, reivindicando o que considera seu por direito. Caro é, de fato, a proprietária e herdeira legal, mas sua postura encontra pouca receptividade em uma região onde as feridas do domínio colonial permanecem abertas e suas consequências continuam presentes.
Quando os meios legais se mostram incapazes de resolver o impasse, Caro recorre a métodos menos convencionais e pede ajuda a Roque. Ele afirma conhecer pessoas capazes de dar um susto em Sonia e nos demais ocupantes. Diante das inúmeras pistas de que um derramamento de sangue se aproxima, no entanto, é difícil imaginar que esse plano possa terminar bem.
Asia Argento, que aprendeu espanhol para interpretar a personagem, demonstra uma ferocidade instintiva que lhe permite contracenar com desenvoltura com intérpretes menos experientes. Ainda assim, esta está longe de ser uma de suas atuações mais convincentes. Caro parece tão emocionalmente devastada quanto a mansão em ruínas à qual retorna, mas o roteiro pouco faz para desenvolver sua personalidade, suas motivações ou as marcas deixadas por seu passado. A personagem permanece opaca, e aquilo que poderia ser um retrato complexo de uma mulher assombrada por suas origens acaba reduzido a traços superficiais.
Com suas ameaças latentes de violência, suas divisões sociais e suas disputas acirradas por terras e recursos, A Morte Não Tem Dono pode ser interpretado como uma alegoria da Venezuela contemporânea. A questão da propriedade da terra e dos imóveis parece fascinar o diretor, que já explorou temas semelhantes em trabalhos anteriores. Em certo sentido, são histórias de fantasmas nas quais a própria construção assume o papel de entidade assombrada, carregando em suas paredes os vestígios de um passado que insiste em permanecer.
Há, sem dúvida, uma presença opressiva da história na casa para a qual Caro retorna. A vegetação que toma conta da propriedade, a decadência da mansão e os conflitos entre seus ocupantes compõem um cenário carregado de tensão e simbolismo. O problema é que essa atmosfera, por mais envolvente que seja, não encontra correspondência na construção dramática. A caracterização superficial, a fragilidade das motivações e a falta de profundidade dos personagens impedem que o filme alcance a força de suas próprias premissas. Ao final, resta a impressão de uma obra visualmente sugestiva, mas incapaz de transformar sua inquietação em um drama verdadeiramente contundente.
A Morte Não Tem Dono terá 4 sessões na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo:
22 de outubro, 17h40 | Instituto Moreira Salles – Paulista
23 de outubro, 16h30 | Reserva Cultural – Sala 1
24 de outubro, 16h | Cinesystem Belas Artes Frei Caneca – Sala 5
28 de outubro, 16h | Cinesystem Belas Artes Frei Caneca – Sala 4
Regular
A Morte Não Tem Dono constrói uma atmosfera tropical opressiva e envolvente para abordar conflitos de terra, desigualdade social e heranças coloniais na Venezuela. Apesar das boas premissas e da tensão crescente, o filme tropeça no desenvolvimento superficial dos personagens e na fragilidade do roteiro. O resultado é uma obra visualmente sugestiva, mas dramaticamente pouco convincente.