Uma das melhores experiências ao entrar em uma sala de cinema sem saber nada sobre um filme é estar aberto ao inesperado. Em A História do Som, de Oliver Hermaunus, eu sabia apenas do romance entre os personagens de Paul Mescal e Josh O’Connor, mas desconhecia o contexto e os caminhos que a narrativa seguiria. Apesar de ambos entregarem boas atuações, o filme desperdiça oportunidades valiosas ao apostar em um romance dolorosamente pragmático e pouco carismático.
Em diversos momentos, o longa parece indeciso sobre qual trajetória deseja seguir: o romance entre seus protagonistas ou a música. Essa falta de definição impede que qualquer um dos dois eixos seja devidamente aprofundado, resultando em uma história superficial que exigia mais atenção e sensibilidade na construção de seus personagens.
A trama acompanha Lionel (Paul Mescal) e David (Josh O’Connor), dois jovens estudantes de música no início do século XX que se aproximam pelo amor à música folclórica americana. Anos depois, eles se reencontram e embarcam em uma viagem pelo interior do Maine para coletar canções, conhecendo moradores locais e as histórias por trás de cada melodia registrada. Durante essa jornada, nasce uma história de amor em um mundo que se recusa a aceitá-los juntos.
Apesar de compartilharem a mesma paixão pela música, Lionel e David enxergam o mundo de formas distintas. Aqui, o som ganha forma, cheiro, textura e sentimento, tornando-se o principal meio pelo qual os protagonistas expressam suas dores — sejam elas explícitas ou internalizadas. Embora esse conceito seja interessante e bem explorado em alguns momentos, o filme acaba se perdendo ao deixar de lado justamente o elemento que conecta toda a narrativa: a música. É por meio dela — desde o primeiro encontro até a viagem — que a história se distancia do comum e encontra sua identidade, especialmente quando se dedica às canções folclóricas e aos seus contextos históricos.
No entanto, ao priorizar o romance trágico entre Lionel e David, o filme perde força pela forma excessivamente contida com que desenvolve essa relação. Não se trata de um problema nas atuações de Mescal ou O’Connor, mas é perceptível uma falta de brilho se comparada a outros trabalhos marcantes de suas carreiras. As cenas de intimidade surgem de maneira abrupta, revelando uma ausência de delicadeza e tempo em momentos que pediam mais nuance. Amor e música — os dois pilares do filme — precisavam dialogar de forma mais orgânica, criando uma coesão narrativa mais autoral, sem recorrer a saltos temporais para explicar sentimentos e frustrações.
Apesar de não convencer como romance, A História do Som encontra força ao retratar, com sensibilidade, como a arte atravessa gerações e se transforma em um poderoso refúgio em tempos difíceis. É no silêncio que o filme nos faz compreender o verdadeiro valor do som: sua capacidade de conectar pessoas, preservar memórias, expressar o luto e registrar a história de um Estados Unidos em guerra — um país que, muitas vezes, falha em olhar para o próprio povo e história.
A História do Som já está em cartaz nos cinemas, com distribuição da Imagem Filmes.
Bom
Apesar de não convencer como romance, A História do Som encontra força ao retratar, com sensibilidade, como a arte atravessa gerações e se transforma em um poderoso refúgio em tempos difíceis.