Review | Nunca Vou Te Deixar é um misto de risos e lágrimas que vale a pena

Título: Nunca Vou Te Deixar10380316_1025346197538127_6705068718108269740_n

Autor(a): Rody Cáceres

Editora: Multifoco

Páginas: 246

Ano de Lançamento: 2016

Onde Comprar: Editora Multifoco

Sinopse: “Inicio dos anos dois mil. Músicas de amor ainda estavam na moda e alguns casais se embalavam em promessas românticas. Jovens e adultos namoravam nas esquinas, nas praças, em todos os lugares. O amor acontecia para todos. Todo mundo amava no inicio do milênio. Menos Renato. Na verdade, Renato era um tremendo fracasso. Passa os dias com um violão de quatro cordas, sonhando com o sucesso de sua banda. Até o telefone tocar e, do outro lado, alguém determinado a bagunçar a rotina de Renato e brincar com suas emoções. Quem estava do outro lado da linha? Por que escolhera Renato? O que Bruce Lee, Kiss e Alexandre Pires tem a ver com tudo isso? Prepara-se. É só mais uma história de amor”

 

Às vezes o dia a dia é corrido e a rotina pode ser bem estressante. Nestes momentos precisamos olhar para o passado, refletir nossa vida e agarrar um livro romântico, mais leve e estilo comédia. É nesses momentos que “Nunca Vou Te Deixar”, do autor independente Rody Cáceres, é uma adição bem vinda a própria literatura independente.

O romance segue Renato, um típico adolescente brasileiro cuja vida é praticamente um desastre ambulante. Se veste de preto, ouve rock pauleira e culpa o Alexandre Pires por seus desgostos. Amargurado, Renato conhece Isis (na verdade a reencontra de uma forma demasiadamente hilariante com um joguinho por telefone) e se envolve com a garota, vivendo um amor proibido e delirante.

A grande jogada de “Nunca Vou Te Deixar” é a experiência do primeiro amor que praticamente já abalou qualquer ser vivo nesta terra, especialmente os meninos mais tímidos que sofriam de delírios por aquelas garotas populares (ou não) na escola. O livro representa o que é verdadeiramente estar apaixonado da forma mais brutal possível sem aquele clichê clássico Shakesperiano em que ambos os personagens estão destinados a viver juntos para sempre. Aqui não. Os anos passam e, com um amor proibido, Renato e Isis partem para suas vidas apesar da promessa que estampa a capa do livro.

Entre dias e noites sofrendo, Rody destrincha o personagem Renato como se fosse a si próprio, conhecendo cada pensamento e dor do rapaz por uma menina tão distante e tão perto. “Nunca Vou Te Deixar” é uma viagem alucinante aos anos 2000, época em que o pagode começava a se alastrar no Brasil e ainda não tínhamos boa internet. Com esse jeito comédia e drama perfeito do autor, nos apaixonamos por Renato e sofremos com ele, lembrando o que é realmente amar e rejeitar, sofrer e seguir vivendo para que em um dia mais próspero venhamos a conseguir sentir paixão de novo. Apenas paixão porque primeiro amor só há um, mas essa é outra história.

Review | Estranhamento, da autora Adriane Dias Bueno

Sigmund Freud certa vez disse que os poetas são aliados poderosos por conhecerem uma vasta gama de coisas entre o céu e a terra que outros desconhecem. E sabemos, ao ler uma poesia perdida em um canto qualquer, quão poderoso é esse conhecimento. Tão poderoso que gera um Estranhamento. De fato, contos e poesias dependem de uma vasta interpretação por parte de diversas pessoas. Exigem também que o leitor esteja com a mente aberta para todas as possibilidades que se apresentarem diante dele e todas as filosofias de uma poesia, carregadas de moralidade ou não.

Em seu livro de contos e poesias, a acadêmica, advogada e escritora Adriane Dias Bueno destrincha o que é ser humano de verdade. Na maioria dos momentos realizamos essa mesma inquietação – na verdade, trazemos este sentimento angustiante desde os tempos mais remotos em que o homem pisou nesta terra – e, em certos momentos, consegue responder do jeito que ninguém mais faria. O livro, uma publicação independente, adota um estilo rústico, retratando a cidade natal da autora como realmente é. Cheia de mistérios já resolvidos (o jogo de cintura de Adriane com as pessoas torna o livro mágico), pessoas tão estranhas que acham ser normais e uma baratinha tentando manter a ordem natural do mundo.

É de conhecimento comum que não existe ordem natural. Às vezes, estamos tão focados em um dia a dia cheio de rotinas, que mal percebemos como tudo é tão estranho e tão alheio à nossa própria natureza. Não estamos aqui porque deveríamos estar, mas porque somos estranhos. Claramente é necessário o uso de uma literatura poderosa para nos fazer refletir algo como isso. Seja através do verso Caminhar, um dos mais simples e mais poderosos de todo livro, ou o conto Marginal, qual acompanha um jovem indignado com a vida pacata e que acaba metralhando versos em uma multidão alheia. Com essas e outras tiradas sarcásticas, Adriane consegue dar vida a um mundo sombrio e ao mesmo tempo colorido, pacato e ao mesmo vivo, tentando sobressair-se nestas coisas tão mundanas que damos valor e tentando destruí-las. A autora é como um bisturi: corta a carne de toda a sociedade e a reconstitui para que ninguém fique zangado.

Sabe-se muito bem que é uma arte perigosa criticar o sistema e não são todos os autores que conseguem fazer com maestria (e sabedoria, um destes dons perdidos), contudo, Adriane eleva este patamar em seus contos, retratando o urbano com a fidelidade de clássicos como Kerouac ou até os sentimentos tão confusos que temos dentro de nosso peito, algo que Dostoievski dominava.

Certamente, apesar de poesias serem curtas e encherem seu peito com aquele sentimento de “quero mais” e os contos com seus personagens imortais, Estranhamento não é para os fracos. É literatura engajada e um prato cheio para “aquele” momento do seu dia em que você precisa subir mais um degrau e está sem fé na vida. Aquele momento em que você se sente… Estranho.

Estranhamento está disponível na Livraria Vanguarda (clique aqui). Acesse também o blog e a página que a autora mantém atualizada para seus fãs.