Crítica | Fuller House é muito mais do que um mero retorno nostálgico

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Exibido de 1987 a 1995, as oito temporadas de Três é Demais (Full House) apresentavam um humor para todas as idades com piadas bem construídas, lições de aprendizagem e que o amor familiar é o grande alicerce para todos. 21 anos depois, a Netflix lança o derivado Fuller House, que pode ser encarado com uma certa estranheza.

Primeiramente, vivemos uma época diferente em que cada um segue uma vida individualista. Notem uma cena do primeiro episódio em que os filhos de D.J. e Kimmy não conseguem sequer interagir socialmente. Hoje estamos mais online nas redes sociais do que em roda de amigos conversando ou em uma mesa de jantar em família. No terceiro episódio, Joey deixa uma lição para as crianças de que é possível se divertir entre eles, ao contrário de ficar cada um em seu quarto com o laptop, celular ou tablet. 

Fuller House resgata uma época não apenas nostálgica para os fãs da série original, como também traz de volta elementos sociais que deixamos de lado há bastante tempo. Nos 13 episódios, acompanhamos uma família se reestruturando novamente em meio as dificuldades, mas sempre de queixo erguido e sem medo de tropeçar.

Na série original, o viúvo Danny (Bob Saget) precisa da ajuda do cunhado Jesse (John Stamos) e do amigo Joey (Dave Coulier) para cuidar das filhas pequenas. Agora é a vez de sua filha mais velha D.J. (Candace Cameron Bure) sentir o mesmo baque quando seu marido bombeiro morre em serviço e, agora se encontra sozinha para cuidar dos filhos Jackson (Michael Campion), Max (Elias Harger) e o recém-nascido Tommy Jr. (Messitt Twins). Quando o reencontro familiar está perto de acabar e todos seguirão seus rumos, a dificuldade e o sofrimento de D.J. em cuidar dos filhos sozinha mexe com o coração de todos. Desta vez, Stephanie (Jodie Sweetin) e a amiga intrusa Kimmy Gibbler (Andrea Barber) junto com a filha adolescente Ramona (Soni Nicole Bringas) decidem morar com D.J. para ajuda-la nas funções domésticas.

O primeiro episódio apresenta com eficiência a transição da geração antiga para a geração atual. Danny, Jesse e Joey são coadjuvantes de luxo e suas participações são pontuais, seguindo bem a proposta da série ser um derivado e não uma continuação direta. Temos bons momentos de nostalgia com os três, mas os condutores de Fuller House são D.J., Stephanie, Kimmy e as crianças, que nos conquistam de imediato com seu carisma e apresentam uma ótima sintonia em cena.

Outros rostos conhecidos também estão de volta como Lori Loughlin (Becky Katsopolis) e Scott Weinger (Steve Hale). Porém, os novos personagens são o destaque como o pequeno Elias Harger, que vive o neurótico e inteligente Max, uma criança que qualquer um gostaria de ter como filho. Também merecem menção as participações divertidas de Juan Pablo Di Pace, o latino Fernando, ex-marido de Kimmy; e John Brotherton, que interpreta Matt, o interesse amoroso e colega de trabalho de D.J.

Em relação ao humor ultrapassado criticado pelos americanos, é compreensível em virtude da série seguir uma linha inofensiva, diferente das sitcoms atuais que apelam para um humor mais pesado, de cunho sexual e pejorativo. A produção acerta em manter o mesmo padrão, afinal de contas, já dizia o mestre Roberto Bolaños que o verdadeiro humorista não precisa atacar ninguém ou falar palavrão para ser engraçado. O único palavrão dito na série é “Donald Trump” (se explicar o porque perde totalmente a graça) e o “ataque” ficou para as piadas e indiretas bem executadas sobre a ausência das gêmeas Mary Kate e Ashley Olsen, que se recusaram em reprisar o papel de Michelle.

Desde o início, Fuller House foi realizado com carinho e amor por toda a equipe de produção. Todos comprometidos em resgatar personagens que continuamos amando depois de duas décadas. Se você se entregou e cantou o tema dos Flintstones na nostálgica cena do primeiro episódio, seja bem-vindo para mais uma jornada na casa dos Tanner.

Todos os episódios de Fuller House estão disponíveis na Netflix desde o dia 26 de fevereiro.