Sigmund Freud certa vez disse que os poetas são aliados poderosos por conhecerem uma vasta gama de coisas entre o céu e a terra que outros desconhecem. E sabemos, ao ler uma poesia perdida em um canto qualquer, quão poderoso é esse conhecimento. Tão poderoso que gera um Estranhamento. De fato, contos e poesias dependem de uma vasta interpretação por parte de diversas pessoas. Exigem também que o leitor esteja com a mente aberta para todas as possibilidades que se apresentarem diante dele e todas as filosofias de uma poesia, carregadas de moralidade ou não.

Em seu livro de contos e poesias, a acadêmica, advogada e escritora Adriane Dias Bueno destrincha o que é ser humano de verdade. Na maioria dos momentos realizamos essa mesma inquietação – na verdade, trazemos este sentimento angustiante desde os tempos mais remotos em que o homem pisou nesta terra – e, em certos momentos, consegue responder do jeito que ninguém mais faria. O livro, uma publicação independente, adota um estilo rústico, retratando a cidade natal da autora como realmente é. Cheia de mistérios já resolvidos (o jogo de cintura de Adriane com as pessoas torna o livro mágico), pessoas tão estranhas que acham ser normais e uma baratinha tentando manter a ordem natural do mundo.

É de conhecimento comum que não existe ordem natural. Às vezes, estamos tão focados em um dia a dia cheio de rotinas, que mal percebemos como tudo é tão estranho e tão alheio à nossa própria natureza. Não estamos aqui porque deveríamos estar, mas porque somos estranhos. Claramente é necessário o uso de uma literatura poderosa para nos fazer refletir algo como isso. Seja através do verso Caminhar, um dos mais simples e mais poderosos de todo livro, ou o conto Marginal, qual acompanha um jovem indignado com a vida pacata e que acaba metralhando versos em uma multidão alheia. Com essas e outras tiradas sarcásticas, Adriane consegue dar vida a um mundo sombrio e ao mesmo tempo colorido, pacato e ao mesmo vivo, tentando sobressair-se nestas coisas tão mundanas que damos valor e tentando destruí-las. A autora é como um bisturi: corta a carne de toda a sociedade e a reconstitui para que ninguém fique zangado.

Sabe-se muito bem que é uma arte perigosa criticar o sistema e não são todos os autores que conseguem fazer com maestria (e sabedoria, um destes dons perdidos), contudo, Adriane eleva este patamar em seus contos, retratando o urbano com a fidelidade de clássicos como Kerouac ou até os sentimentos tão confusos que temos dentro de nosso peito, algo que Dostoievski dominava.

Certamente, apesar de poesias serem curtas e encherem seu peito com aquele sentimento de “quero mais” e os contos com seus personagens imortais, Estranhamento não é para os fracos. É literatura engajada e um prato cheio para “aquele” momento do seu dia em que você precisa subir mais um degrau e está sem fé na vida. Aquele momento em que você se sente… Estranho.

Estranhamento está disponível na Livraria Vanguarda (clique aqui). Acesse também o blog e a página que a autora mantém atualizada para seus fãs.

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