“Os humanos estão tão perdidos e estragados que para vocês é quase incompreensível que as pessoas possam trabalhar ou viver juntas sem que alguém esteja no comando.”

Há muito tempo não ouvíamos falar de A Cabana, livro de William P. Young. Publicado em 2007 nos Estados Unidos e em 2008 no Brasil, a obra já vendeu mais de 18 milhões de cópias no mundo, e voltou a ser assunto em redes sociais esse ano. O motivo? Simples, Young terá sua história transmitida nas telas de cinema, 10 anos depois, contando com um elenco de peso na pele de seus personagens ( Sam Worthington, Octavia Spencer, Alice Braga e muitos outros).

Muitos irão questionar os motivos de Young ter publicado seu livro e do mesmo ter feito tanto sucesso. A Cabana é basicamente um livro – polêmico – sobre religião, fé e principalmente, até que ponto um homem está disposto a ir para atingir o fundo do poço. Não pense, porém, que caso você não acredite em Deus – como eu – esse livro não é para você. Existe algo muito maior nas palavras do autor que irá captar sua atenção e surpreendê-lo a medida que a trama se desenvolve. Entretanto, nem tudo são flores. A leitura desse livro é monótona e carregada de discursos longos, que me fez chegar muito próximo de largá-lo de lado e procurar uma história de ficção. Os momentos de resolução do crime principal são curtos, rodeados de momentos de reflexão que poderiam ter durado muito menos.

A Cabana conta a história de Mackenzie Allen Phillips (Worthington), um pai que vive em uma espécie de “bolha de tristeza” após a morte de sua filha mais nova, Missy. A maneira como a menina foi levada de sua vida e do mundo acabou com a vida de Mack e de sua família, além de devastar o resquício de fé que ele tinha em Deus. Quatro anos depois da tragédia, um singelo bilhete surge na caixa de correio da família endereçado a Mack, e o que parecia ser apenas uma brincadeira se transforma na corda que irá tirá-lo do fundo de sua Grande Tristeza. Disposto até mesmo a aceitar o fim da própria vida, ele retorna a fatídica Cabana, local onde seu pior pesadelo começou, esperando encontrar o assassino de sua filha. O que ele encontra, porém, são as últimas pessoas que imaginara ver um dia: Deus, Jesus e o Criador.

“Só porque você acredita firmemente numa coisa não significa que ela seja verdadeira.”

Mack precisa de uma redenção em sua vida, carregada pelo fantasma da morte de Missy, e a encontra nas palavras e ações do trio celestial presente na cabana. Lá, o homem aprende importantes lições como o perdão, a tristeza, a aceitação e a vingança. Para muitos tudo pode não passar de asneiras motivacionais, ou até mesmo um livro de auto ajuda, mas não devemos ser tão céticos assim ao ler A Cabana. O livro de Young carrega termos e cunhos religiosos, mas oferece uma trama simples e densa, onerada pelo desconsolo da perda de alguém tão próximo. Não é preciso acreditar em Deus para entender o sofrimento de Mack e solidarizar-se com as lágrimas derramadas. As lições ensinadas por Papai, Jesus e Sarayu são ao mesmo tempo profundas e rasas, relembrando-nos de circunstâncias banais onde possamos ter julgado errado, interpretado errado e por consequência, reagido errado.

“Deus não precisa castigar as pessoas pelos pecados. O pecado já é o próprio castigo, devora as pessoas por dentro. O objetivo de Deus não é castigar, Sua Alegria é curar.”

A Cabana diverge a opinião de quem o lê. É daqueles livros que ou você ama, ou odeia, visto que é preciso paciência para chegar até o fim. O desfecho da trama é surpreendentemente bonito e feliz, após páginas e páginas de dor e sofrimento. A maneira como Young transcorre o delicado – e polêmico – assunto de religião é diferente de muitas “lavagens cerebrais” que encontramos por aí. Em momento algum o autor te força a acreditar em tudo aquilo que está escrevendo, mas o tema fé está presente em cada acontecimento descrito. Então se você é um ateu radical indisposto a ler qualquer tipo de matéria que carregue o nome Deus, esse livro não é para você. Caso você não seja, apesar dos momentos lentos e extensos, A Cabana é um livro que nos faz abrir a cabeça e pensar muito naquilo que fazemos.

Não estou pedindo que acredite em nada, mas vou lhe dizer que você vai achar este dia muito mais fácil se simplesmente aceitá-lo como é, em vez de tentar encaixá-lo em suas idéias preconcebidas.

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