Atenção! Spoilers…

De repente a TV desliga sozinha. A luz acende sem que ninguém mexa no interruptor. A geladeira faz estalos estranhos e por alguns segundos você sente… medo. São apenas alguns segundos até você lembrar que havia programado a TV para desligar às 23h38min e quando apagou a luz, sem querer, deixou o interruptor posicionado no meio o que fez com que ela voltasse a acender. A geladeira faz esses barulhos o tempo todo e você se pergunta se os estalos são normais ou defeitos de fabricação. Situações cotidianas, aparentemente normais, que quando bem elaboradas, servem de enredo para aquelas histórias que você evita ler antes de dormir.

Eles estão aqui… Outra vez. Mais uma da série: ganhou remake. Após 33 anos desde o seu lançamento em outubro de 1982, o clássico do terror Poltergeist retornou as telas hoje, 21 de maio. Escrito e produzido pelo veterano Steven Spielberg, com direção do responsável pela obra prima O Massacre da Serra Elétrica, Tobe Hooper, o longa entrou para o hall dos clássicos do horror e sua produção continua inspirando filmes do gênero até hoje. A história, que se passa em um pacato subúrbio americano, destaca os recentes acontecimentos na casa da família Freeling, que começam com o suposto sonambulismo da filha Carol Anne, interpretada pela eterna atriz mirim Heather O’Rourke. Após um prólogo, de aproximadamente 4 minutos, com sequências de imagens compostas apenas por trilha sonora e bons enquadramentos, somos apresentados a normalidade de uma família de classe média, que do dia para a noite passa a conviver e interagir com fenômenos inexplicáveis.

Ao contrário da máxima “O melhor está por vir”, em Poltergeist acontece o contrário. O suspense inicial acaba se sobressaindo sobre o terror previamente anunciado. Sabemos que ele pode surgir a qualquer momento, mas ele não o faz logo e a tensão que se cria torna-se mais envolvente do que o próprio clímax. É o que acontece durante os minutos iniciais, onde acompanhamos uma emissora encerrar sua transmissão, um pai adormecido na poltrona da sala diante de uma TV sem sinal enquanto os outros que ali habitam descansam em seus respectivos quartos e apenas uma alma viva perambula pelo local: o cachorro. A caçula acorda e desce as escadas em direção ao aparelho que solta flashes de luz a medida em que a menina se aproxima e, apesar de não reproduzir nenhum som além do chiado, a comunicação entre a pequena Carol Anne e a TV está implícita. Mais precisamente aos 3min e 40s temos a nossa primeira fala: “Hellooo?“. O pai acorda e o restante da família se reúne na sala enquanto a menina, em um claro estado de transe, solta frases aleatórias para o televisor. Mas essa é apenas a ponto do iceberg.

Passamos a acompanhar situações peculiares como objetos que se movem sozinhos ou mudam de lugar em um piscar de olhos, e até mesmo os próprios personagens interagindo com as atividades, como na sequência em que a matriarca Diane (JoBeth Williams) resolve realizar experimentos e posiciona objetos e até mesmo a própria filha no chão da cozinha e os vê deslizar de uma ponta a outra do local. As manifestações passam a ficar mais violentas e o ponto crucial do filme vem durante uma tempestade que resulta no desaparecimento da caçula da família, detalhe: dentro da própria casa. Através do aparelho de TV a família consegue se comunicar com a menina que parece estar em uma outra dimensão, enquanto as estranhas atividades continuam a acontecer no andar de cima da casa, no quarto em que Carol Anne dividia com o irmão Robbie (Oliver Robins).

Desesperado, o pai Steve, interpretado por Craig T. Nelson, procura um grupo de parapsicólogos que, finalmente, explicam o que está ocorrendo no lugar. Poltergeist diferente do que conhecemos como assombração, que geralmente está ligada a lugares, é uma manifestação associada a indivíduos e suas atividades tendem a durar menos do que as provocadas por assombrações. Em um diálogo perfeito, a parapsicóloga, Drª Martha Lesh (Beatrice Straight) tenta explicar a Robbie o que aconteceu com a irmã “Alguns creem, que quando morremos, nossa alma vai para o céu. Alguns creem, que quando morremos, há uma luz maravilhosa, brilhante como o sol, mas não doi olhar para ela. As respostas para tudo que sempre quis saber estão dentro dessa luz. E quando anda até ela, se torna parte dela para sempre. Mas algumas pessoas morrem e não sabem que se foram. Talvez elas não quisessem morrer. Talvez elas ainda não estivessem prontas. Talvez não tenham feito tudo o que gostariam, ou queiram viver mais. Elas não querem ir para a luz, não importa o quanto sejam bem-vindas.Querem ficar por aí, vendo TV, vendo seus amigos crescerem… Cheios de tristeza e inveja. Esses são sentimentos negativos. Eles machucam. E então, algumas pessoas se perdem no caminho para a luz e algumas precisam ser guiadas até ela…“. Por conta da Industrial Light & Magic, Poltergeist conseguiu arrematar uma indicação ao Oscar por Efeitos Visuais. A Trilha Sonora composta por Jerry Goldsmith também conseguiu uma indicação seguida por Melhor Som. O filme ainda ganhou duas continuações ao longo dos anos 80, Poltergeist II – O Outro Lado (1986) e Poltergeist III – O Capítulo Final (1988), entretanto, nenhuma conseguiu alcançar o mesmo impacto que o primeiro filme. Agora, 30 anos depois uma nova adaptação ressurge nas telas do cinema através da direção do britânico Gil Kenan.

Poltergeist envelheceu. Três décadas depois, o clássico, para muitos desta geração, tornou-se obsoleto. Isso de modo algum apaga o prestígio e o valor que a obra tem na cultura popular e nas tantas outras obras que a sucederam e nela buscaram inspiração. Há três décadas, éramos capazes de acreditar nas realidades que os filmes de terror nos vendiam. Não é à toa que os grandes clássicos são datados entre as décadas de 70 e 80. Muitas produções de boa qualidade surgiram com o passar dos anos, mas em um mundo dominado pela “bolha” internet, onde todos os dias, somos bombardeados por dezenas de creepypastas sobre assassinos em série, que vão desde psicopatas reais ou inventados aos mais macabros casos de violência e terror já registrados no mundo, histórias como a de Poltergeist precisam de muito mais do que bons efeitos especiais para provocar calafrios. Remakes são sempre produções arriscadas. Muitos dirão que não chega aos pés da versão original e outros gritarão aos quatro ventos que os tempos mudam e a nova versão renova clássico e história. Mas isso, nós só saberemos assistindo.

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