Crítica | Guardiões da Galáxia Vol. 2 é a prova de que menos é mais

Guardiões da Galáxia foi uma enorme surpresa para os fãs do Universo Cinematográfico da Marvel e, além disso, para os amantes de cinema. James Gunn conseguiu apresentar um novo grupo de heróis em um roteiro bem elaborado que mescla humor, ação e um ótimo desenvolvimento de seus personagens. O diretor conseguiu perpetrar um trabalho que conquistou os fãs e que angariou em um contrato para mais dois filmes dos heróis espaciais. A sequência, titulada de Volume 2, tem a missão de superar (ou igualar) as expectativas dos fãs e de trazer novidades a mais nova franquia da Marvel Studios.

A história mostra a equipe atuando em missões em torno da galáxia após seis meses dos acontecimentos do primeiro filme. Em meio a viagens em torno do universo, Peter Quill (Chris Pratt) encontra seu pai, Ego (Kurt Russel) e começa a aprender sobre o seu passado, como também sobre seus genes alienígenas. Gamora (Zoe Saldana), Drax (Dave Bautista), Baby Groot (Vin Diesel) e Rocket Raccoon (Bradley Cooper) acompanham o Senhor das Estrelas em sua jornada pessoal, além de contarem também com a ajuda de Yondu Udonta (Michael Rooker), Nebulosa (Karen Gillian) e Mantis (Pom Klementieff).

James Gunn não só mantém a base do primeiro filme, como também a exagera. Algumas decisões do diretor para sua sequência desagradam, sendo que duas delas foram as que mais agradaram no seu filme de 2014: o humor e a trilha sonora. O filme perde a sutileza e originalidade, embora consiga trazer boas risadas pelo ótimo timing do elenco. O diretor encaixa piadas e sátiras em praticamente todas as cenas de sua trama; umas são realmente engraçadas e outras não chegam perto disso. Drax, outrora engraçado por não entender metáforas e manter-se sempre com uma postura séria, agora virou o principal alívio cômico. As músicas eram encaixadas de forma sutil e acompanhavam perfeitamente o que determinada sequência nos mostrava, mas em sua continuação elas são extremamente forçadas. Os personagens do filme pedem a todo o momento alguma música, mesmo que ela de nada sirva para a ocasião (na maioria das vezes). Em outros pontos da trama existem explicações da letra de uma determinada canção para a história, subestimando o espectador a interpretar e encaixá-la dentro do contexto do enredo, como no primeiro filme.

Apesar desses erros específicos, o contexto da história acerta em fechar arcos importantes que envolvem Peter Quil e seu parentesco desconhecido; Gamora e a relação com sua irmã, Nebulosa; Yondu e seus motivos obscuros para não ter entregado Peter ao seu pai. Todos esses pontos são bem desenvolvidos e alcançam a sensação de continuidade e de que os personagens estão em evolução. Outro elogio que a produção merece é quanto à fotografia e a coreografia das cenas de ação. É indubitável que Thor: Ragnarok pegou como inspiração o visual colorido e vivo de Guardiões da Galáxia, sem contar no enorme trabalho visual que Steve Dikto e Jack Kirby deixaram nos arquivos da Marvel. Alguns momentos do filme parecem ter sido retirados do visual psicodélico de Doutor Estranho (2016, Scott Derrickson), trazendo à tona que James Gunn não tem medo de fazer filmes que sejam baseados em quadrinhos. Pelo contrário, o diretor (também roteirista do filme) homenageia e faz referências a eles sempre que possível.

Guardiões da Galáxia Vol. 2 não tem a mesma urgência do seu antecessor, tampouco o mesmo peso. James Gunn nos conta uma história que não tem a devida grandiosidade para o momento em que o Universo Cinematográfico da Marvel está, sem contar a terrível sensação episódica, que ao contrário do recente Star Trek: Sem Fronteiras (2016, Justin Lin), não é nada boa. O diretor repete a estrutura narrativa do primeiro e exagera onde acertou, trazendo um bom filme de comédia ao público, mas que não leva a lugar algum; prova de que menos sempre é mais.

Observação: o filme possui mais de duas cenas pós-créditos, sendo que algumas estão entre os créditos e outras depois. Permaneça até o final.

Crítica | Paixão Obsessiva não sustenta o clima tenso que prometeu

Assistir o trailer de um filme pode muitas vezes prejudicar a obra como um todo após o seu lançamento. Seja por revelar de mais ou por oferecer uma imagem irreal, aqueles singelos dois minutos conseguem se sobrepor aos restantes em alguns casos – como aconteceu em Paixão Obsessiva. O longa estreia em uma época onde o público feminino está em alta, liderando séries e filmes e assumindo papéis de destaque no mercado, e promete um enredo centralizado no medo, na tensão e no suspense entre duas mulheres. A pretensão existiu, mas provavelmente ficou apenas no papel.

Katherine Heigl (de Grey’s Anatomy) assume o papel da vilã Tessa, e é um dos poucos pontos positivos do filme com uma atuação excelente. A ex-esposa de David (Geoff Stults) embora não demonstre a paixão presente no título – por culpa dos produtores -, transmite o lado psicopata e possessivo necessário. Do outro lado temos Julia (Rosario Dawson de Demolidor), que apesar de não precisar de grandes atuações como Heigl, satisfaz a figura romântica em busca de uma nova aventura ao lado do homem que ama. David por sua vez está mais perdido do que o espectador e se torna até dispensável, visto que não se comporta da maneira esperada em situações como as presentes na história. A fraqueza de Paixão Obsessiva não está no elenco, pois seus intérpretes não têm a oportunidade de exercer tudo aquilo que são capazes com um enredo tão fraco.

A vida de Julia vira de cabeça para baixo quando ela se muda para uma pequena cidade na costa oeste para morar com o futuro marido. Como em todo casamento, a família vem de brinde e em alguns casos isso pode ser pior do que parece. Enquanto Julia tenta esquecer o passado traumático de seu ex-namorado violento e abusivo, Tessa não consegue parar de pensar nos tempos em que era feliz com David. Além dela, a jovem Lily – filha do casal – passa a conviver diariamente com Julia, o que perturba ainda mais a cabeça da mãe da criança. Tendo seu “reino” ameaçado, a loira usa tudo em seu poder para destruir a imagem da rival para o ex-marido, mesmo que tenha que revirar o lado mais obscuro da internet e usar ações inescrupulosas contra Julia.

Paixão Obsessiva tinha todos os elementos necessários para fazer um ótimo thriller com tanto sucesso quanto produções semelhantes anteriores, como A Garota no Trem e Garota Exemplar. A obviedade é algo presente desde o início, mas sempre há a esperança de que algo realmente surpreendente está por vir – e não vem. O filme lida com assuntos realmente complexos, polêmicos e atuais e nem ao menos da-se ao trabalho de abordar mais ampla e detalhadamente cada um, apenas joga na tela e deixa para o espectador aceitar como foi apresentado. Os fatos acontecem muito rápido e não há um ritmo característico no decorrer trama, apenas cenas repetitivas com diferentes cenários e trilha sonora – que também não ajuda.

 Nem mesmo a atuação dos personagens consegue salvar a história, afinal estão seguindo um roteiro. Diálogos e brigas dignos de novelas mexicanas, onde um atiçador nem ao menos encosta na cabeça do homem e ele já cai no chão ensanguentado -, permeiam pelos longos 100 minutos de duração do filme e quando achamos que não poderia piorar, chega o final. Da mesma maneira rápida que a obra começa, como um passe de mágica tudo se resolve e se transforma em um conto de fadas. Por fim, a quase participação especial de Cheryl Ladd nos momentos finais apenas agrega a outros momentos dispensáveis em Paixão Obsessiva. Os créditos surgem e temos a sensação de perder 100 minutos de nossa vida.

Crítica | Vida: com um toque de Alien, suspense traz uma caçada espacial frenética

Imagine só que uma equipe de cientistas da Estação Espacial Internacional consegue uma amostra de vida obtida diretamente de Marte. A primeira prova concreta que há vida extraterrestre pode ser o sonho de qualquer astronauta, mas para a missão de Jake Gyllenhaal, Rebecca Ferguson e Ryan Reynolds, ficou mais parecido com um pesadelo sem fim.

O suspense de ficção científica prende o espectador em uma caçada sufocante dentro de um pequeno espaço, em que a cada momento, um de seus personagens está em perigo evidente. Calvin, como é nomeada a amostra, é muito mais inteligente do que se pensava, mas precisa de um hospedeiro para se alimentar e, como podemos perceber, está faminto.

Gyllenhaal é o discreto e introspectivo Dr. David Jordan, Ryan Reynolds interpreta o temperamental membro da tripulação Roy Adams, que é um bom amigo do cientista-chefe Dr. Hugh Derry, vivido por Ariyon Bakare. Rebecca Ferguson interpreta a médica supervisora Miranda Norte, Hiroyuki Sanada é o responsável pela comunicação Sho Murakami e Olga Dihovnichnaya é outra cientista, Ekaterina Golovkina.

Pode-se dizer que os roteiristas de Vida, Rhett Reese e Paul Wernick (conhecidos por Deadpool), parecem ter ficado fascinados pelo drama de ficção científica Gravidade de Alfonso Cuarón, com suas cenas de astronautas solitários balançando fora da nave espacial. Cenas de silenciosa tensão que em nada aliviam a corrida frenética dentro da estação.

Calvin cresce a um ritmo alarmante em sua placa de Petri, como uma pequena medusa de dois braços, inicialmente do tamanho de uma moeda. Em seguida, já maior e mais forte, agarra a pequena espátula com a qual o cientista Hugh Derry a está cutucando, com surpreendente hostilidade. E ele continua crescendo. E é claro, muitas coisas começam a dar errado.

Um dos problemas de Vida é que ao longo de todo o processo de crescimento da amostra, não se explica nada. Só vemos Calvin ganhar força, inteligência e tamanho sem saber como tudo isso aconteceu e à medida em quese torna cada vez maior e mais engenhoso, o filme parece estar sempre ecoando ao som de portas e escotilhas sendo fechadas, bem em tempo – ou tarde demais. E aí, torna-se aquele tipo de filme agitado, no qual se torce para que ao menos um personagem sobreviva e mesmo sabendo que Calvin é uma mistura de alien com anaconda, você mantém a esperança de que ao menos a Terra ficará segura.

Se durante toda a trama você não se sentiu desconfortável e ansioso pela tensão, a sequência final definitivamente vai te fazer pular da cadeira com uma surpresa que pode até sugerir que outro filme está por vir, afinal, a vida se renova e se adapta sempre. Estreia dia 20 de abril nos cinemas brasileiros.

Crítica | Apesar da mesma fórmula, Velozes e Furiosos 8 surpreende e supera os anteriores

Você provavelmente se perguntou: “Nossa, mais um Velozes e Furiosos? Eles não cansam não?”
Com 8 filmes, a franquia se mostra longe de encerrar as produções, tendo ainda mais dois confirmados pelo próprio Vin Diesel. Mesmo após a morte de um de seus protagonistas em novembro de 2013, a “nova família” consegue suprir a ausência de Paul Walker – apesar da falta de um parceiro para Toretto -, sempre fazendo questão de homenagear o ator em algum momento.

Velozes e Furiosos já deixou de ser sobre mulheres seminuas e rachas de carros faz tempo, mas escolhe sempre ter uma passagem do tipo para manter suas origens. Depois de conquistar um público fiel, o novo filme chega a nos lembrar de filmes de super heróis, com situações recheadas de ação e cenas absurdas de explosões, tiroteios e até mesmo acidentes glaciais envolvendo um submarino de guerra. Outra semelhança é o fato de todos os personagens possuírem o dom da imortalidade. É sério, ninguém morre nos filmes da franquia – mesmo quando morre na vida real. A produção tem até mesmo sua própria versão havaiana do Hulk, vivido pelo policial Luke Hobbs (Dwayne “The Rock” Johnson).

No oitavo filme da série, Domic Toretto (Diesel) e Letty (Michelle Rodriguez) estão finalmente descansando e passando sua lua de mel em Cuba, tentando viver uma vida pacata e fora de grandes emoções. A adrenalina, entretanto, parece perseguir Dom e qualquer desentendimento vira motivo para se disputar um carro e formar uma aliança para mais tarde. E o mexicano sempre ganha, mesmo que tenha que saltar de um carro em chamas, correndo em alta velocidade e sair sem ao menos rasgar a camisa branca apertada. E claro, não podiam faltar os bonitos cenários paradisíacos clássicos, com suas ruas prontas para abrigar rachas de velocidade insana e obstáculos desleais, sem uma só sirene de polícia ser disparada.

Os problemas do casal começam quando uma misteriosa mulher, a Cipher (interpretada pela vencedora do Oscar, Charlize Theron) aparece em Cuba e faz com que o chefe da família abandone as músicas e noites calientes, e retorne ao mundo da velocidade e do crime. O diretor F. Gary Gray (Código de Conduta) optou por revelar ao público muito cedo o motivo de Dom resolver trabalhar para a hacker, o que teria despertado mais a curiosidade e emoção do público caso fosse mostrado minutos mais tarde. Até agora parece o mesmo molde de todos os filmes anteriores, certo? Acontece que, de repente, Toretto torna-se o inimigo a ser combatido.

Outro elemento presente no filme que irá saciar a nostalgia daqueles que acompanham a franquia é o típico retorno de toda a família, dessa vez sem o patriarca. Trabalhando em prol de seu país, mas sem o consentimento do mesmo, a turma se reúne sob a liderança de Hobbs – que só queria poder treinar o time de futebol da filha (ótima cena, por sinal) -, para enfrentar seu líder em uma caçada nuclear, envolvendo Nova York, Berlim, Rússia, um submarino de guerra, armas dos mais diversos tipos, mísseis e claro, os melhores e mais rápidos carros do mundo (e um tanque).

Estão todos lá, o sempre engraçado e extravagante Roman Pearce (Tyrese Gibson), os hackers Tej (Ludacris) e Ramsey (Nathalie Emmanuel) e a esposa sempre fiel Letty. Alguns outros membros foram “contratados” de última hora, como os irmãos ex-presidiários Deckard e Owen Shaw (vividos por Jason Statham e Luke Evans, respectivamente), sua mãe Magdalene Shaw (Helen Mirren) o representante do governo Frank Petty (Kurt Russell) e o jovem Eric Reisner (Scott Eastwood). A doída ausência de Mia (Jordana Brewster) e Brian (Paul Walker) é justificada como uma aposentadoria do casal, já que foi decidido que o personagem de Walker não teria o mesmo destino de seu intérprete.

Apesar de manter a mesma fórmula, o oitavo filme supera seus anteriores. Feito para divertir o público e agradar os já fãs da franquia, a produção é feita de forma limpa e sem muita enrolação, entregando uma peça melhor do que esperávamos ver. A família continua unida, os carros continuam evoluindo e a ação só aumenta, então por que não continuar? Os elementos de sempre estão todos presentes, com um toque a mais de emoção e um ritmo frenético do início ao fim.

Colaboração: Paula Ramos

ALERTA DE SPOILER APÓS A IMAGEM ALERTA DE SPOILER APÓS A IMAGEM

 

É claro que a homenagem a Paul Walker não podia faltar e Dom resolve fazer o que Vin Diesel fez na vida real: deu o nome do amigo a seu filho (no caso Pauline, pois Diesel teve uma menina). Uma vez que Brian ainda está vivo na trama, teria sido mais bonito e tocante nomeá-lo Paul, que infelizmente não está mais presente.

Crítica | 13 Reasons Why é uma das melhores adaptações já feitas pela Netflix

Muito se esperou desde o lançamento do livro Os 13 Porquês de Jay Asher – em 2007 -, até o dia em que a história seria adaptada para uma série na Netflix. O fatídico dia chegou na última sexta-feira (31/03) e desde então, a internet não sabe falar de outra coisa. Caso você seja daqueles – como eu – que sempre prefere ler antes de ver nas telas, já fiz uma matéria falando sobre o livro aqui .

Apenas lendo a sinopse pode-se perceber que 13 Reasons Why não é mais um seriado adolescente que se passa em uma escola norte-americana. Não, é algo muito mais denso e sério do que isso. O assunto principal é o suicídio de uma jovem adolescente, que após ser alvo de boatos, fofocas e outras maneiras de bullying, resolveu acabar com a própria vida dentro de uma banheira. Hannah Baker (Katherine Lengford) não era diferente de muitos que circulam em nosso ciclo escolar – ou na faculdade, trabalho, etc… -, e o que aconteceu com ela, acontece com diversos jovens em todo o mundo. É por isso que a trama de Jay Asher é tão maravilhosa, pois ao mesmo tempo que nos entretem, nos abre os olhos para coisas que até então não percebíamos.

A trama se passa em uma pequena cidade norte-americana, onde praticamente todos se conhecem – principalmente os adolescentes. Como não podia faltar, temos uma escola (Liberty High) tradicional dos filmes de Hollywood, com aqueles armários que sempre sonhamos, refeitórios com grandes mesas e um ginásio. Como também não podia faltar, essa escola apresenta sua hierarquia entre os alunos, desde os ‘valentões’ ricos jogadores de basquete, até os nerds silenciosos que passam no corredor sem ser notados. Um desses nerds é Clay Jensen (Dylan Minnette), que apesar de sua posição baixa na “cadeia alimentar”, tem um bom relacionamento com boa parte de seus colegas. Clay segue a rotina de um garoto normal de 17 anos: acorda, vai para a escola de bicicleta, volta para casa,  faz seus deveres de casa e vai dormir. O ritual de Clay acaba quando ele recebe 13 fitas em uma caixa de sapato.

 Há quem vá dizer que a série deve ter uma segunda temporada, pois alguns pontos ficaram em aberto. Sinceramente, espero que não tenha. 13 Reasons Why não é o tipo clássico de série com diversas temporadas e história a serem contadas. O programa tem uma mensagem a ser passada e cumpriu seu objetivo. Muitas mudanças foram adicionadas a trama original, visando provavelmente adicionar mais emoção e intensidade a determinados momentos. No livro temos apenas os pontos de vista de Clay e Hannah, deixando de fora cenas como os encontros entre os outros personagens das fitas ou os diálogos entre os pais da menina. Vale mencionar o excelente trabalho de Brian d’Arcy James e Kate Walsh como Sr e Sra Baker, expressando intensamente o sentimento de pais nesse tipo de situação.

A série mal estreou e uma campanha já surgiu na internet, intitulada Não Seja Um Porquê, com o objetivo de abrir nossos olhos para possíveis brincadeiras que façamos, sem perceber que estamos machucando alguém. Estamos rodeados de Justins (Brandon Flynn), Courtneys (Michele Selene Ang) e até mesmo Bryces (Justin Prentice), escondidos sob máscaras de boas pessoas e muitas vezes nunca revelados. Em treze episódios – cada um contando uma fita -, Hannah vai delatando cada um responsável por sua decisão, desde um motivo simples como esconder elogios, até um estupro. Sim, estupro e depressão são alguns dos assuntos abordados em 13 Reasons Why, e ainda há quem pense ser uma simples série adolescente?

Diferentemente do que acontece com os seriados com os quais estamos acostumados, não adianta torcer para o casal principal dar certo, pois Hannah está mesmo morta e temos de lidar com nossa desilusão. A história do livro acabou, então não sei se sou favorável a uma renovação para segunda temporada. A mensagem já foi passada, não há mais o que inventar. 13 Reasons Why é uma série intensa, triste e real, mostrando o quão humano um show pode ser. A produtora Selena Gomez está de parabéns por seu trabalho, tendo participado de uma das melhores produções já feitas pela Netflix. Mesmo que não seja sua temática preferida, dê uma chance de aprender mais um pouco sobre a vida. E principalmente: Não Seja Um Porquê.

Crítica | Grimm conclui seus mistérios e foi um adeus tocante para os fãs

Ao longo de seis temporadas acompanhamos a jornada de Nick Burkhardt (David Giuntoli) em Grimm, série da NBC inspirada nos contos dos irmãos Grimm. O último episódio da série, “The End”, foi exibido no último dia 31 de março e foi o finale com todos os elementos para agradar os fãs do show.

                                                                      CUIDADO COM OS POSSÍVEIS SPOILERS A SEGUIR!

Os criadores David Greenwalt e Jim Koufenviou transportaram Nick para uma viagem de pesadelo. O detetive se encontra inútil ao ver todos as pessoas que ama morrerem já no impactante penúltimo episódio da série. E a matança continua em “The End”.

Greenwalt e Kouf fizeram do episódio final um conto de fadas clássico e obscuro dos irmãos Grimm com um toque contemporâneo sobre o duelo derradeiro de Nick contra o Zerstorer. O plot twist que os showrunners prepararam foi surpreendente e um dos pontos altos do episódio.

Guintoli fez um trabalho notável aqui, mostrando com eficiência o desespero, raiva e dor que parecia esmaga-lo morte após morte dos seus entes queridos. Mas Nick suportou. Nick tenta usar a vara mágica, o antigo tesouro que seus antepassados enterraram na Floresta Negra há séculos. Mas nada parece trazer seus amigos de volta à vida. Porém, tudo era uma experiência de Nick no “outro lugar” – ainda há esperança.

Com o retorno de queridos personagens e reviravoltas inesperadas, Nick supera seus próprios limites com a ajuda essencial de Trubel (Jacqueline Toboni), que se mostrou uma parceira importante desde a sua introdução na série.

Grimm foi inexplicavelmente subestimada. Talvez a forma prematura da NBC cancelar suas séries tenha sido um aviso para não assisti-la. Mas, por seis anos, foi uma das produções que mais souberam aproveitar o gênero procedural/sobrenatural. Além disso, entregou um final conclusivo sobre os mistérios e foi um adeus tocante para os fãs.

A NBC, que não é boba, deixa um potencial spin-off a ser desenvolvido no futuro. Mas, por ora, fica registrado ‘um obrigado’ para todos os envolvidos desse show.

 

Crítica | A Cabana estende e aprimora as emoções presentes no livro

Recentemente escrevi uma matéria falando sobre o livro A Cabana (aqui), de William P. Young, e recentemente tive o prazer de ver sua obra exposta em uma tela de cinema 10 anos depois. Felizmente, a história de Young se manteve intacta a medida que as cenas decorriam, modificando apenas alguns detalhes e/ou omitindo outros, sem que o roteiro como um todo fosse prejudicado. Além disso, um dos pontos negativos do trabalho de Young é a lentidão como os fatos acontecem, tornando o livro monótono e difícil de capturar a atenção de seu leitor durante algumas passagens; entretanto no filme, uma vez que ao invés de palavras temos cores, pessoas – ótimas, por sinal – e um cenário maravilhoso, é fácil a maneira como tudo flui, e antes que possamos perceber, acabou.

Mackenzie é vivido por Sam Worthington (de “Avatar” e “Fúria de Titãs“), que apesar de representar bem o estilo “lenhador bruto e solitário”, não atinge o nível de emoção necessário para se igualar ao personagem do livro. O Mack que Young nos apresenta derrama lágrimas do início ao fim, principalmente a medida que vê suas amarguras expostas por Deus, Jesus e Sarayu. O lado frio é deixado de lado e um novo homem surge na Cabana, mas Worthington nos mostrou apenas a primeira versão. O objetivo geral de seu personagem não foi comprometido, apenas deixou um pouco a desejar para os leitores que já imaginavam a transformação de Mack acontecendo gradualmente.


A Santíssima Trindade é interpretada por Octavia Spencer (de “Estrelas Além do Tempo“), como Deus, Aviv Alush (Jesus) e Sumire (Sarayu), e o destaque óbvio é para a vencedora do Oscar. Octavia interpreta com maestria um papel de tamanha importância – não apenas na trama -, adicionando um lado engraçado, simples e materno a Deus. Como a própria atriz citou na coletiva de imprensa, ela transmite a imagem de mãe para Mackenzie, e não o Deus de histórias e crenças. Outra surpresa é o “desconhecido” Alush, que encarna o lado humano das divindades, a quem Mack mais se identifica. É ao dele um dos momentos chave do filme: o andar sobre a água, e ter a figura de um rapaz jovem de cabelos encaracolados no papel de Jesus Cristo, facilita a quebra da barreira que o homem construiu após a morte da filha. Finalmente temos Sarayu, desconhecida por muitos que não entendem de religião, mas que conhecem a existência de um Criador. A beleza e o colorido do jardim da moça trazem paz até mesmo para o espectador que assiste pela tela, representando muito bem o que foi descrito pelas palavras de Young.

Muitos podem pensar que A Cabana é um livro sobre religião e por isso aqueles que não acreditam em Deus não irão gostar. Melhor parar por aí e dar uma chance ao filme de te provar o contrário. A naturalidade e fluidez com que a história vai passando e abordando temas como crer, perdão, vingança e saudade, é cativante e curioso ao mesmo tempo, e é exatamente sobre isso que a trama de Young tenta nos mostrar. O filme é cheio de frases de efeito – assim como o livro – ditas por Jesus, Sarayu e Deus, e nos identificamos com a maioria delas, seja você da religião que for. Os personagens típicos e simples do interior vividos pelos protagonistas e pelos atores secundários (Tim McGraw, Radha Mitchell, Graham Greene, Megan Charpentier, Gage Munroe e Amélie Eve) não necessitam de muito esforço para trabalhar seu papel, visto que o filme todo decorre de maneira orgânica e emocionante.

Apesar de ser uma adaptação, A Cabana é muito fiel a sua história original e traz para fora das páginas tudo aquilo que imaginamos. É um daqueles raros exemplos em que a versão do cinema se iguala a da livraria, principalmente com a fotografia e trilha sonora acrescentadas. O diretor Stuart Hazeldine soube interpretar muito bem os detalhes abstratos descritos por Young, como as luzes coloridas representando os filhos de Deus. A cena em que Mack reencontra seu pai poderia ter sido melhor trabalhada, porém, dando a ideia de ter sido encaixada de última hora na trama. Fora isso, o filme é ótimo! Um destaque que deve ser mencionado é a participação de Alice Braga como a Sabedoria, protagonizando uma das cenas mais bonitas. Octavia mencionou inclusive, ter sido essa sua cena favorita.

Não há muito o que reclamar a respeito da adaptação cinematográfica de A Cabana. Salvo alguns detalhes e cenas que poderiam ter sido mais bem desenvolvidas, a produção retrata muito bem as palavras do autor William P. Young. Octavia Spencer não poderia ter executado melhor seu papel como Deus, adicionando graça, comédia e leveza a um personagem tão imponente e pesado. A trama é feita para os dois tipos de público: os que leram o livro e os que mesmo dez anos após sua publicação não o fizeram. Com um cenário colorido, lugares paradisíacos e uma forte presença de elementos da natureza, o filme estende e adiciona emoção as passagens extensas e lentas da obra original, nos proporcionando algo orgânico e prazeroso de assistir. Hazeldine acertou em cheio no elenco, na trilha sonora e na maneira como detalhou a história, não a tornando monótona como no livro.

Crítica | O Espaço Entre Nós: uma aventura interplanetária sobre gratidão e amor

“Do que você mais gosta na Terra”? Após assistir ao cativante O Espaço Entre Nós, é impossível não ficar pensando na resposta da pergunta recorrente de Gardner Elliot (Asa Butterfield). Na história, Gardner, um adolescente de 16 anos, foi  o primeiro ser humano a nascer em Marte, mas o que ele deseja mesmo é conhecer a Terra e viver nela.

Dirigido por Peter Chelsom (Hector e a Procura da Felicidade), a aventura interplanetária começa com uma missão a Marte, na qual os primeiros seres humanos são mandados a viver no planeta. Acontece que o bilionário por trás da expedição, Nathaniel Shepherd (Gary Oldman), tem uma surpresa quando se descobre que a astronauta líder está grávida, e assim, Gardner torna-se o primeiro marciano. Não bastando isso, sua mãe morre no parto e os cientistas concordam que seria muito arriscado trazê-lo de volta à Terra, portanto, o menino é criado lá mesmo, por uma equipe de cientistas. Kendra (Carla Gugino) é o mais próximo que o garoto chega a ter de uma mãe.

Mas imagine só, o garoto é criado por mentes brilhantes numa bolha em Marte, é claro que ele seria curioso e inteligente por natureza. E assim, Gardner acha uma forma de se conectar com suas origens, mantendo uma relação virtual com Tulsa (Britt Robertson), uma jovem que vive de lar em lar e que sonha em se libertar e viver suas próprias histórias, longe de tudo que a machucou.

A paixão adolescente e o desejo de encontrar o pai, que ele supõe conhecer em um dos arquivos deixados por sua mãe, movem Gardner. Até que chega o momento de finalmente conhecer suas origens, o menino vem à Terra. Depois de muitos testes e uma longa viagem, pode finalmente pisar em nosso planeta azul. Os momentos cômicos do filme estão na interação dele com outras pessoas, no como parece um menino esquisito, vendo tudo pela primeira vez e se espantando com o que consideramos comum.

Mas é claro que nem tudo seria perfeito, a equipe médica percebe, após apontamento de Shepherd que Gardner corre riscos na atmosfera terrestre, e então, sem alternativas, o garoto resolve fugir para encontrar Tulsa. E aí a aventura romântica começa, os dois fugindo das autoridades, vão numa viagem em busca de descobrimento, liberdade e por fim, o amor que floresce entre eles.

Por mais que todo romance adolescente beire ao clichê, o filme chega a surpreender em seu desfecho, em especial com relação à origem de Gardner. Um romance  que aquece o coração ao mesmo tempo que questiona nossa relação com a Terra, a vida e tudo o que nos cerca, vale a pena conferir!

O longa metragem chega aos cinemas brasileiros no dia 30 de março de 2017.

Crítica | Power Rangers é o Clube dos Cinco da nova geração

É hora de morfar! 24 anos após a estreia na TV e 22 anos após o lançamento do primeiro filme, Power Rangers estão de volta ao cinema devidamente remodelados. Visando uma franquia cinematográfica, a Lionsgate em parceria com a Saban Entertainment utilizam com eficiência a “fórmula do sucesso” de Star Wars – O Despertar da Força e Creed – Nascido para Lutar. A produção consegue agradar tanto os fãs nostálgicos, hoje trintões, como deve agradar o público infanto-juvenil de hoje.

Com direção de Dean Israelite (Projeto Almanaque) e roteiro de Ashley Miller e Zack Stentz (X-Men: Primeira Classe), a produção ainda bebe da fonte de um clássico dos anos 80, o filme Clube dos Cinco. Pode-se dizer que esse novo Power Rangers é o Clube dos Cinco dessa geração (com as devidas proporções). Diferente da série de TV em que os rangers eram jovens certinhos e exemplos para os colegas de escola, o longa mostra cinco adolescentes desajustados e perdidos no mundo, precisando lidar com problemas escolares, relacionamento com os pais, algo não muito distante dos jovens de hoje.

Mais que um filme de cinco super-heróis, Power Rangers se trata de uma história de amadurecimento. Jason, Billy, Zack, Kimberly e Trini precisam enfrentar suas respectivas dores e aflições. E isso, eles só podem conseguir juntos. Ao encontrarem cinco pedras brilhantes em uma usina, eles descobrem que fazem parte de algo maior que imaginavam. Mais fortes e ágeis ao estilo Poder Sem Limites, eles acabam encontrando uma nave espacial, onde reside Zordon (Bryan Cranston) e Alpha-5 (Bill Hader), que revelam a missão de enfrentar a temida vilã Rita Repulsa (Elizabeth Banks), que despertou após milhares de anos.

O quinteto formado por Dacre Montgomery, RJ Cyler, Naomi Scott, Becky G e Ludi Lin possuem uma ótima sintonia em cena. O destaque vai para RJ Cyler, que interpreta o Billy diferente do original. Além de servir bem como alívio cômico, a construção do personagem é interessante ao tratar o transtorno de espectro autista. A sequência inicial é bem dura com o bullying, e a seguir vemos Billy sendo tratado por Jason não como deficiente, mas alguém a ser respeitado e amado pelo jeito que é. A relação entre os dois é um dos pontos mais bonitos do filme. Interessante perceber que os melhores momentos não acontecem quando eles estão morfados, mas quando eles estão desprotegidos. A cena em que estão acampados e desabafam um para o outro não apenas cria uma comunicação melhor entre eles, mas com o público que identifica os mesmos anseios e dúvidas de qualquer pessoa daquela idade. Esse é o grande potencial do filme. Não é somente um filme de super-heróis corriqueiro. Há muito mais a se oferecer.

Apesar do pouco tempo em cena, Bryan Cranston faz um trabalho redondo como Zordon, que aqui tem uma motivação diferente da série. Elizabeth Banks repete a mesma performance caricata da Rita Repulsa original, mas apresenta um visual mais assustador. Uma pena que seu braço direito Goldar foi descaracterizado. Aqui o personagem não tem vida, é apenas uma desculpa para se tornar o monstro gigante a aterrorizar Alameda dos Anjos. Qualquer nome poderia se dar para tal criatura e a produção utiliza logo de um personagem marcante.  Já o Alpha-5 vivido por capturas de movimento por Bill Hader é tão divertido como no original.

Sobre o tom do filme, a narrativa fica dividida entre o lado despretensioso e divertido da série original com o aspecto mais sombrio e realista. Essa divisão acaba sendo o problema no segundo ato, quando o filme parece não se decidir se segue para o caminho mais cômico ou o mais sóbrio.

O visual alienígena dos uniformes combinou com a proposta desse novo filme, o mesmo não se pode dizer dos zords que ficaram deveras artificiais com o CGI utilizado. Mesmo com a limitação orçamental, a série de TV que utilizava as cenas do original japonês, tinha zords e o Megazord bem mais bonitos de se ver em cena. Aqui não funcionou tanto como esperava. Mas, os efeitos em outras cenas foram mais eficientes como no plano sequência do início do filme, que está incrível.

Os fãs saudosos queriam fan service e o filme corresponde. Há momentos de reverência como o tema musical da série, uma homenagem de Becky G, a nova ranger amarela, que usa uma camisa  com o escrito ‘1973’, o ano de nascimento de Thuy Trang (a falecida atriz que viveu a Trini na TV). Além disso, tem a participação de dois atores da série clássica, que gerou comoção na sessão de imprensa que estive.

Por fim, Power Rangers supera as expectativas. Uma releitura antes tratada com receio é uma das produções mais divertidas desse início de ano. Equilibrado, nostálgico e que deixa um caminho aberto para muitas aventuras e construir uma nova geração de fãs.

Ps.: Há uma cena durante os créditos finais. Fiquem atentos!

Vai conferir Power Rangers nos cinemas? Se liga no vídeo que preparados sobre as origens dos Power Rangers e algumas curiosidades:

Crítica | Fragmentado é a volta por cima de M. Night Shyamalan

M. Night Shyamalan surgiu sob a alcunha do diretor da nova geração depois dos formidáveis O Sexto Sentido (1999) e Corpo Fechado (2000). Contudo, Hollywood é traiçoeira. Da mesma forma que te coloca no topo, te derruba feio. Shyamalan sofreu com isso com as produções seguintes, que foram até boas como Sinais (2002) e A Vila (2004). Com o passar dos anos, ele ficou marcado apenas como o cineasta dos plot twists (as viradas de cena que surpreendem nos atos finais).

Depois do ótimo A Visita (2015), que reafirma o diretor com um dos melhores do gênero thriller, Fragmentado é a sua volta por cima. Um filme surpreendente que trabalha com eficiência drama, comédia e terror e, com um twist para deixar os espectadores de queixo caído.

A trama é centrada em Kevin (James McAvoy ), um portador de 23 personalidades distintas que tem capacidade de alterar sua química corporal por meio do pensamento e passa a agir de maneira incontrolável. Mas conforme aprendemos ao longo do filme, existe uma 24ª identidade que ameaça emergir. Essa identidade é “a besta”, e ela tem fome por carne humana que o define como “alimento sagrado”. Um dia, ele sequestra três adolescentes que encontra em um estacionamento. Vivendo em cativeiro, elas passam a conhecer as diferentes facetas de Kevin e precisam encontrar algum meio de escapar.

O filme possui três narrativas. A primeira, que serve de pano de fundo para o filme, segue o rapto das três adolescentes nas mãos de uma das personalidades atormentadas de Kevin. O segundo segue a relação de Kevin com sua psiquiatra Dr. Fletcher (Betty Buckley), que revela o paciente estar demonstrando sinais preocupantes de instabilidade, apesar de seu progresso de longa data. A terceira, e mais importante, segue a adolescente raptada Casey (Anya Taylor-Joy), em flashbacks de infância onde seu pai a ensinou a ser uma sobrevivente e seu tio a distorceu com a realidade mais cruel e sinistra da vida.

Shyamalan é eficaz em mostrar os dois lados de pessoas que sofreram abuso. Kevin e Casey são faces da mesma moeda. Ambos guardam sequelas, mas seguiram caminhos diferentes. Kevin criou as 24 personalidades, enquanto Casey se tornou uma garota anti-social. Não é a toa, que Kevin por meio de uma das personalidades sente uma conexão com a garota.

Como já de costume em obras do diretor, Fragmentado parece ser um filme de garotas tentando escapar de um homem perigoso. Mas, as viradas sutis logo mostram que a história tem muito mais para entregar. O filme também consegue trabalhar o humor de maneira eficiente. Cenas divertidas distraem, deixam o público relaxado. Com isso, as cenas assustadoras causarão maior impacto no espectador. M. Night Shyamalan repete a mesma fórmula de A Visita com humor e terror, mais uma vez se saindo bem.

Fragmentado não funcionaria sem um ator do calibre de McAvoy, que dá um show. O ator consegue apresentar com eficiência cada personalidade alternando do divertido para assustador apenas com nuances sutis. O britânico com cara de bom moço está irreconhecível e realiza um dos grandes trabalhos da carreira.

Apesar dos excessos em seu ato final que pode se resumir em uma mistura de Dragão Vermelho, Identidade e, estranhamente, Jurassic Park, M. Night Shyamalan incorpora esses momentos de forma orgânica, reverente e visceral. Ao final, Fragmentado é um dos filmes mais pensativos e o melhor do cineasta em anos. Aquele filme que te deixará reflexivo após o surpreendente final.

Ps.: O filme continua durante os créditos finais. Fiquem atentos. 

Crítica | Marvel esquece o misticismo e as artes marciais em Punho de Ferro

Punho de Ferro marca a quarta e última série que faltava para fechar o quarteto Os Defensores, que chega no segundo semestre na Netflix. Depois de conhecer as histórias de Demolidor, Jessica Jones e Luke Cage, chega a vez de Danny Rand mostrar ao que veio.

Todas as séries da Marvel na Netflix abraçam a sobriedade e realismo com suas peculiaridades, mostrando o lado mais sujo de Nova York. Desde então ficou o sinal de alerta para a chegada de Punho de Ferro. Será que ele é apenas mais um defensor? Produzida por Scott Buck, a adaptação não muda o origem do herói nas HQ’s. Mas, não soube utilizar o universo rico que o personagem tem. Faltou o misticismo e as artes marciais que tanto era esperado.

Punho de Ferro poderia representar uma icônica série de artes marciais revitalizando filmes do gênero dos anos 70/80. Porém, os 13 episódios tem altos e baixos, e nenhum momento consegue engrenar.

O roteiro é preguiçoso indo sempre para o mais óbvio. A série até apresenta com eficiência o universo de seus personagens focando no retorno de Danny Rand (Finn Jones), que foi declarado morto após o acidente de avião há 15 anos que acabou matando seus pais. Metade da série se resume em Danny provar sua identidade para Joy e Ward Meachum, seus amigos de infância vividos respectivamente por Jessica Stroup e Tom Pelphrey, que agora assumem os negócios da empresa. Sua ingenuidade é até compreensível. Mas, ficar quase metade da série falando apenas “Eu sou o Danny Rand”, é quase irritante vindo de alguém preparado fisicamente e psicologicamente para adversidades.

Mas já era algo de se esperar vindo de Scott Buck, aquele que comandou as temporadas finais de Dexter. E bem… todos viram o que aconteceu. Um dos problemas mais visíveis vindo do showrunner foi a ausência de um grande vilão, ao contrário de Demolidor, Jessica Jones e Luke Cage, que apresentaram excelentes antagonistas. A série mostra que tudo está sob o controle do Tentáculo, mas faltou alguém para representar essa ameaça. Ora Madame Gao, Bakuto, Harold e Ward Meachum se mostram como a figura ameaçadora de Danny Rand, mas tudo muda de uma forma confusa. Notem que Gao está ameaçadora em Demolidor, porque estava sob uma direção segura e contundente. Aqui, ela é mais uma figura alegórica, não tendo a mesma autonomia em cena. Todo grande herói depende de um grande vilão, e a ausência grosseira prejudica a motivação de Danny em toda a série. O que fica visível é que nunca está claro qual caminho ele vai seguir. Se é salvar sua empresa, proteger seus amigos ou defender K’un-Lun.

Finn Jones até se esforça, mas não convence total como personagem. Como bilionário, ele faz o esperado. Um ricaço que recupera sua identidade e tenta corrigir os erros da empresa que leva seu nome. Já como Punho de Ferro (ou parte dele) ele jamais passa a imagem de alguém que foi treinado em outra dimensão e leva consigo o poder de um lendário guerreiro. Mesmo nas cenas em que seu punho brilha, não ficamos convencidos de que ele seja uma arma viva.

Nos quadrinhos, Punho de Ferro pode ser classificado como uma mistura de Bruce Lee, Jackie Chan e Jet Li. A série opta de forma errônea pelo lado realista com Danny Rand mais parecendo um sujeito com habilidades semelhantes a Matt Murdock. Por falar em Bruce Lee, o mestre das artes marciais foi a grande inspiração para a criação do defensor e não há nenhuma referência dele na série.

Em relação ao elenco, a bela Colleen Wing, interpretada pela ótima Jessica Henwick, é o destaque. A personagem possui uma força interior e carisma que conquistam com rapidez. Sempre quando ela sai de cena fica a expectativa pelo seu retorno.

Sobre a ação da série… bem, não empolga. As cenas não possuem intensidade. Parece que repetiram tudo de Demolidor, até a cena clássica do corredor está lá. Quem espera boas performances de Kung Fu, vai se decepcionar. Demolidor empregou sequências de luta que estão na memória até hoje pela criatividade. Aqui, foi tudo no piloto automático e não sobra nenhum momento emblemático.

Os episódios finais de Punho de Ferro até deixam um frescor para o aguardado Os Defensores. Os easter eggs e conhecidos personagens desse universo estão ali. Mas, a Marvel e Netflix perderam uma grande oportunidade com um personagem (a priori) mais fácil para se adaptar. Quem sabe a união com Demolidor, Jessica Jones e Luke Cage possam trazer dias melhores e tirar o sabor ruim que ficou.

Crítica | A Bela e a Fera é mágico e retrata de forma esplêndida o clássico de Walt Disney

Sabe aqueles filmes que queremos dar mais do que a nota máxima? A nova versão de A Bela e a Fera é, sem sombra de dúvida, um desses casos.

De uns tempos para cá, alguns clássicos contos de fada vêm sendo produzidos e relançados no formato Live-Action, adicionando um toque de realidade aos desenhos de nossas infâncias. Histórias como Alice no País das Maravilhas, Malévola e Cinderela, ganharam atores reais para interpretar seus personagens, além de todo um cenário ao redor, representando os reinos encantados. A última fábula escolhida para ganhar vida nos cinemas foi A Bela e a Fera, revivendo a magia da produção do Walt Disney Animation Studios, de 1991, baseado no filme francês de 1946.

Logo nos deparamos com um rosto conhecido no papel da protagonista Bela, vivida por Emma Watson, que finalmente se desvencilha de Hermione Granger. Criticada por muitos desde o momento de sua escolha, Watson honra a emblemática personagem não apenas por sua ótima atuação, mas pela bela voz ainda desconhecida pelo público, que certamente é um show a parte. Do outro lado temos Dan Stevens, atualmente em Legion, vivendo o príncipe transformado na monstruosa Fera, que através de efeitos visuais surpreendentes, transmite realidade e emoção em suas feições.

Um dos principais problemas presentes nos últimos Live-Actions lançados, foram as mudanças feitas em relação a história original. Em A Bela e a Fera isso não acontece faz com que a produção seja a melhor já feita. Os fãs com mais de 20 anos irão se emocionar ao ouvir as músicas de sua infância e ver as inesquecíveis cenas retratadas de maneira tão excepcional e real, enquanto os mais novos terão a chance de conhecer uma das clássicas princesas de Walt Disney.

Ao lado dos protagonistas, um elenco de peso ajuda a moldar o enredo e transformar o drama em algo gostoso e prazeroso de assistir, mesmo boa parte dele tendo sido revelada após a quebra da maldição. Ewan McGregor interpreta o candelabro Lumière, Ian Mckellen ,o relógio Cogsworth (Horloge), Emma Thompson, a chaleira Senhora Potts (madame Samovar), Nathan Mack, a pequena xícara quebrada Chip, Gugu Mbatha-Raw, o espanador Plumette, Audra McDonald, o guarda-roupa Garderobe, Stanley Tucci, o piano Maestro Cadenza, Kevin Kline, o pai de Bela, Maurice, e Hattie Morahan, a feiticeira Agathe.

O vilão Gaston é interpretado por Luke Evans, que atua de forma deslumbrante e incrivelmente semelhante ao original da Disney, além de adicionar uma bela e potente voz as músicas alegres dos camponeses. Finalmente, Josh Gad vive o “polêmico” personagem Le Fou, escudeiro que nutre uma paixão homossexual por Gaston e é o responsável por boa parte das gargalhadas e momentos engraçados da história. Certamente um elenco fenomenal, para um filme de igual característica.

Outra grande jogada do diretor Bill Condon foi a inclusão da maior parte, senão todas, das canções de Alan Menken e Howard Ashman do musical da Broadway, ornamentando o enredo com as emblemáticas músicas de A Bela e a Fera. Apesar de não cantar a versão original  de “Beauty and the Beast” ,de sua autoria, Céline Dion interpreta uma nova balada, “How Does a Moment Last Forever“, inserida no começo dos créditos, seguida da tão divulgada versão de Ariana Grande e John Legend da música principal. Você com certeza irá sair do cinema querendo ouvir toda a trilha sonora novamente, além de cantarolá-la incessantemente o resto do dia.

Por fim, a produção Live-Action de A Bela e a Fera é daqueles filmes que assistimos com um sorriso no rosto do início ao fim, além de lágrimas nos olhos de emoção e felicidade ao relembrar momentos da infância. Emma Watson encara um papel de grande responsabilidade e e com tamanha maestria se transforma na princesa de um dos principais contos de fada. A realidade com que a Fera é retratada e interpretada por Dan Stevens se encaixa no personagem assustador e solitário das histórias e ao lado de Watson, vivem o icônico casal de Walt Disney. Sem muitas mudanças no roteiro, o filme não poderia ter sido melhor, embalado por ótimas músicas e um elenco excepcional. Indubitavelmente dá vontade nunca mais sair da sala de cinema e revê-lo inúmeras vezes. Obrigada Bill Condon!

Crítica | Kong: A Ilha da Caveira surpreende por excelente fotografia e efeitos especiais

As expectativas para Kong: A Ilha da Caveira eram as mais baixas possíveis. Logo de cara, o filme pode parecer mais uma daquelas novas produções baseadas em histórias antigas (como o clássico King Kong de 1933, 1976 e 2005), apenas com efeitos e fotografias mais modernos. Sim, no começo percebemos que as semelhanças são inúmeras e como é possível ver no trailer, temos um gorila colossal atacando seres humanos em uma ilha desconhecida. As conformidades, porém, acabam por aí e trama desenvolve sua própria narrativa e características.

Um dos principais objetivos dessa nova franquia é trazer os mais jovens para o universo dos monstros gigantescos, trazendo um pouco dos clássicos e adicionando adrenalina, efeitos monstruosos e ação do início ao fim. O filme se passa em 1970, pós Guerra do Vietnã, onde soldados contam os segundos para retornarem a suas famílias e casas. Entretanto, uma última missão aparece quando o cientista Bill Randa (John Goodman) decide procurar um inimigo do passado em uma ilha ainda não explorada. Toda uma expedição é planejada e uma equipe de soldados é enviada para acompanhar, além do geólogo Houston (Corey Hawkins), da bióloga San (Jing Tian), do explorador James Conrad (Tom Hiddleston) e da fotógrafa antiguerra Mason Weaver (Brie Larson).

Logo no início conhecemos Kong, um dos grandes reis desconhecidos do mundo e protetor da Ilha da Caveira, localizada no meio do oceano e rodeada por tempestades monstruosas, mas incapazes de destruir um helicóptero. A partir daí, se inicia um show de fotografia e efeitos visuais por meio da criação de um lugar paradisíaco e isolado, habitado não apenas pelo nosso querido gorila, mas por outras espécies descomunais como lagartos, aranhas e polvos. Não demora muito tempo para a ação começar, e os primeiros seres humanos começarem a cair perante a ira do anfitrião e por consequência, do líder do exército Preston Packard (Samuel L. Jackson). Os soldados que acompanham Packard são vividos por Thomas Mann, Jason Mitchell, Shea Whigham, Eugene Cordero e Toby Kebbell, que interpreta também a versão digital de Kong.

Temos plena consciência de que nada ali é real, mas a veracidade como tudo nos é apresentado é surpreendente. Desde os mais singelos detalhes como pequenos insetos, até as criaturas maiores como Kong e os lagartos, são feitos com tanta maestria que motiva o público a continuar prestando atenção até o fim. A trupe embarca em uma aventura desconhecida, mas acaba por ter a experiência de suas vidas, principalmente quando elas terminam na ilha, afinal, não era de se esperar que o Rei ficasse parado quando bombas são lançadas em sua casa.

Kong: A Ilha da Caveira pode ser descrito como puramente cinema entretenimento, adotando um ritmo frenético do início ao fim. Não será aquele tipo de filme que muitos irão dormir, principalmente se for visto em uma sala equipada com telas panorâmicas, sons de última geração e qualidade 3D, aumentando ainda mais os efeitos impecáveis da parte técnica. Vale a pena investir um pouco mais no ingresso! Além disso, não apenas de ação é formada a trama, visto que o filme ironiza a si mesmo em diversos momentos, principalmente após a adição de John C. Reilly ao grupo. Cenas escalafobéticas levam o público a se divertir de maneira inteligente, não deixando claro se foi proposital ou se é apenas bobo, caracterizando o melhor tipo de ironia.

O que não se pode esperar é um roteiro denso e bem trabalhado. Não será uma produção indicada ao Oscar de Melhor Filme, por meio de um roteiro básico e raso, dependente dos trabalhos anteriores. Nos é oferecido exatamente aquilo que foi prometido no trailer, e nem mesmo a presença de atores como Larson, Jackson e Hiddleston é necessária, já que os mesmos não exercem todo seu potencial e seus personagens poderiam ter sido interpretados por qualquer um. Nos resta saber se eles estarão presentes em outras produções ou se serão substituídos por outros personagens.

Por fim fica uma reflexão: Quem é o vilão da história? O gorila, protetor e rei do lugar, ou os seres humanos que chegam bombardeando e tomando conta de uma terra que não é sua?

E uma dica, por mais que os créditos sejam bem longos, vale a pena esperar terminar.

 

Crítica | De maneira simples e criativa, Um Limite Entre Nós soube explorar a versatilidade de seu elenco

Existe melhor maneira de se adicionar qualidade a uma produção, do que escalando Denzel Washington para o papel principal? Existe, claro! É só colocá-lo ao lado de Viola Davis.

Há pouco menos de dois dias para a premiação mais aguardada para o mundo do cinema, Um Limite Entre Nós vem para nos provar que não é preciso muito para fazer um grande filme. Inspirado na peça da Broadway de mesmo nome, a produção conta com pouco mais de um único cenário para desenvolver sua história. Salvo alguns momentos, as cenas transitam entre o quarto, a sala, a cozinha e o quintal da casa de Rose e Troy, brilhantemente interpretador por Davis e Washington, respectivamente. Ele, um homem frustrado por não ter conseguido sucesso no beisebol, mas grato por ter um emprego que sustente sua família, mesmo que seja como catador de lixo. Ela, uma dona de casa apaixonada pelo marido e pelos filhos, disposta a aguentar de tudo para manter a felicidade entre eles.

Enquanto no teatro a peça levou diversos prêmios, como Pulitzer e Tony Awards, nos cinemas não foi diferente. Além de ter 4 indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme e Melhor Ator, Viola Davis conquistou todos aqueles a que foi indicada.

Troy é o personagem central, presente em quase todos as conversas e cenas mesmo quando a pessoa física não está. Honrando o original teatral, a obra é rica em diálogos extensos e espontâneos, feitos com tanta naturalidade que parecem não terem sido ensaiados. Esses tipos de interações, principalmente entre o casal e entre Troy e Bono (Stephen McKinley Henderson), são as que pouco a pouco vão moldando o roteiro e desenvolvendo a narrativa. Denzel tem seus grandes momentos durante a trama, como enquanto conversa com o filho mais velho, acaba descrevendo o relacionamento que seu personagem tinha com o pai, e tudo que aconteceu por consequência de suas atitudes.

Apesar de todo o lado amargo e desacreditado de Troy, a versatilidade de Washington consegue transformá-lo de um homem raivoso para um brincalhão em questão de segundos, ou seja, conseguimos amá-lo e odiá-lo rapidamente. Troy é frustrado com a vida e desconta suas desilusões na família, a quem ele trata como uma extensão do trabalho. Alimentar os filhos e a esposa, manter um teto sob suas cabeças e lhes prover roupas para vestir, é uma questão de dever e/ou obrigação, e não de sentimento entre um pai e um marido. Palmas e mais palmas para Denzel Washington, que conseguiu com tamanha fluidez interpretar um personagem complexo e instável.

Rose, por outro lado, entra para contrabalancear o lado fervoroso do marido. Por meio de uma atuação estupenda de Viola Davis, a personagem não faz grandes esforços para causar impacto. Risadas fáceis e gostosas, olhares carinhosos e momentos familiares são o que caracterizam a mulher forte, batalhadora e simples que é Rose, mas que ganham vida nos trejeitos de Viola. Mesmo quando achamos que toda essa fortaleza irá se desmanchar na revelação de Troy, o casal dá uma aula de encenação e nos surpreende mais uma vez, com o momento auge do filme. Rose e Troy não são os únicos personagens memoráveis em Um Limite Entre Nós. Mykelti Williamson, que interpreta o irmão de Troy com condições psicológicas debilitadas, faz um incrível trabalho ao interpretar Gabriel e não pode deixar de ser mencionado. Gabe é ingênuo e só quer ver seu irmão feliz, mesmo que recorra a maneiras erradas para deixar isso claro.

O que as cercas representam? Essa é a pergunta que o filme nos deixa no final e nos instiga a pensar em sua resposta. Cada personagem as encara de forma diferente, refletindo claramente suas personalidades. Uma pena que o título em português tenha, mais uma vez, se desvirtuado tanto do título original, que se encaixou perfeitamente. Com uma linda história e um elenco fenomenal, Um Limite Entre Nós é uma produção memorável do diretor e protagonista Denzel Washington.