Crítica | O direito de amar é o foco no ótimo drama Loving

A segregação racial e os direitos civis da população negra são temas bastante pertinentes, que já renderam ótimas histórias nos cinemas. Muitos desse filmes como o recente Selma – Uma Luta pela Igualdade traziam a bandeira política e destacavam os vários conflitos.

Jeff Nichols, dos excelentes O Abrigo, Amor Bandido, mostra uma luta diferente em Loving, drama inspirado em fatos. Nesse longa, o diretor mostra um casal lutando pelo direito de amar, de constituir uma família.

A trama ambientada na década de 60 acompanha Richard Loving (Joel Edgerton) e Mildred (Ruth Negga), um homem branco e uma mulher negra que estão apaixonados e decidem se casar na Virginia, nos Estados Unidos, mas são presos por infringirem as leis contra a miscigenação. Forçados perante o júri a se declararem culpados para evitar uma pena maior, o casal é forçado a abandonar o estado no qual suas famílias residem, vivendo como exilados em Washington.

Parece difícil de acreditar um casal impedido de se unir matrimonialmente. Mas, era exatamente assim que funcionava no período de extremo conservadorismo. E o mais difícil de acreditar é que essa atrocidade histórica completou apenas 50 anos. E se trazermos para os dias de hoje, o preconceito racial continua evidente. Basta recordar casos recentes como do ator Bruno Gagliasso que mostrou com orgulho a sua filha adotada ao lado da esposa, mas que sofreu ataques raciais por ela ser negra.

Não buscando arrancar lágrimas e apostar no melodramático, Jeff Nichols aposta de forma eficaz no tom sóbrio e abordar com simplicidade o drama dos Loving. Talvez, isso possa incomodar para aqueles que esperam mais dramaticidade.

As atuações de Joel Edgerton e Ruth Negga são admiráveis e dignas de premiações. Interessante perceber que a persona de Edgerton com o cabelo oxigenado que destacam seus olhos azuis, mais parece um supremacista branco. Mas, na primeira cena percebe-se a gentileza e a humildade do rapaz, que demonstra uma “ignorância” em não saber o que é segregação racial. Richard Loving é apenas um homem que revela imenso amor pela esposa e só isso importa pra ele. Já Ruth Negga interpreta Mildred de forma fascinante, começando o longa como uma mulher amedrontada e passiva, mas revela ser a grande voz do casal pelos seus direitos.

Loving é um drama tocante que nos leva a refletir: Será que avançamos como sociedade? Se há um tempo atrás um casal interracial era impedido de casar, o que dizer de hoje em relação aos direitos LGBT? Ao ver o filme a resposta que fica no consciente é: Ainda estamos engatinhando.

 

Crítica | A Lei da Noite é um trabalho incompleto de Ben Affleck

Sempre subestimado, Ben Affleck mostrou ser muito mais que um típico galã de Hollywood. Desde que passou a assumir a função de diretor com Medo da Verdade (2007), o ator mostrou uma excelência por trás das câmeras comprovadas com Atração Perigosa (2009) e Argo (2012), o último proporcionando-lhe o Oscar de Melhor Filme.

Com bons filmes, mais desafios surgem. E o projeto dos sonhos de Affleck sempre foi adaptar A Lei da Noite, romance de 2012 de Dennis Lehane, autor de Medo da Verdade. Com esse projeto, a Warner Bros. (parceira de todos os filmes do ator) esperava mais um filme vistoso aclamado pela crítica e que estaria entre os favoritos do Oscar 2017. Acabou que foi tudo por água abaixo e a produção resultou em um prejuízo de U$75 milhões para o estúdio. A Lei da Noite pode ser resumido em um filme com boas intenções, um visual noir incrível, mas que soa incompleto. Um longa que caminha sem um desfecho.

Estrelado e dirigido por Ben Affleck, o filme bebe da fonte do gênero gângster, que gerou grandes obras marcadas por cineastas como Martin Scorsese, entre outros. Affleck tenta resgatar essa atmosfera e consegue. O início do filme situado em seu personagem é um dos pontos fortes do filme.

Situado entre as décadas de 1920 e 1930, a história segue Joe Coughlin (Affleck), o filho prodígio do capitão de polícia de Boston (Brendan Gleeson). Depois de se mudar para Ybor City, Tampa, Flórida, ele se torna um contrabandista de bebidas alcoólicas e, mais tarde, um notório gângster.

O filme constrói com eficiência o cenário da época fazendo o parâmetro entre o crescimento da cidade com o surgimento do crime organizado, a força oculta do Ku Klux Klan, jogos de azar e o comércio ilegal de bebidas alcoólicas. Com tudo vindo fácil, Joe Coughlin se vê seduzido a entrar nesse mundo, onde percebe um caminho mais fácil para uma vingança pessoal. Há interessantes discussões no primeiro ato sobre caráter entre Joe e seu pai. Os diálogos entre os dois são executados de forma sublime.

A grande falha do filme é não aceitar o lado obscuro do protagonista. Affleck tenta fazer de Joe um herói incompreendido, que se sente forçado a combater seus rivais, pois eles que são os bandidos. Enquanto A Lei da Noite poderia seguir os passos de Boardwalk Empire em que os fins justificam os meios, o filme se apresenta apenas como um conto moral com o bandido começando a se dar conta de seu papel violento na sociedade, e, assim, busca ser o mocinho da vez.

Ao final, A Lei da Noite é um filme ambicioso, que soava ser o grande trabalho da carreira de Ben Affleck. Contudo, a pretensão do ator e diretor se tornou um filme que introduz com eficiência várias temáticas interessantes, mas que não são concluídas da mesma forma. Uma produção marcada por erros e acertos.

Crítica | Logan é visceral, brilhante e revolucionário

Os filmes dos X-Men nunca foram unânimes. A maioria sempre dividiu opiniões de críticas e do público ao longo dos anos, e Logan veio para quebrar esse parâmetro com a mesma facilidade com que se rasga papel molhado. O novo filme do carcaju é um respiro para o gênero de heróis, trazendo um enredo louvável, recheado de drama e ação visceral. Os fãs, tais como Hugh Jackman, podem se sentir representados – e aliviados – com a despedida do personagem interpretado pelo australiano. Como o próprio ator disse na coletiva de imprensa: “Este é o filme que imaginei e tornou-se realidade, mesmo após tantos anos”.  A discrepante tonalidade com os predecessores é notada na cena inicial, onde vemos Wolverine tendo seu sono perturbado por arruaceiros que tentam furtar peças de sua limusine. A prossecução mostra a decorrência dos anos no corpo de adamantium, que o tornou lento e reduziu seus poderes regenerativos, ou seja, a luta corpo-a-corpo é próxima, brutal e dura de assistir. Membros decepados e crânios perfurados são um mero atrativo para uma história bem desenvolvida que soube discutir de forma sutil a dualidade do Wolverine.

Baseado nos quadrinhos de Velho Logan (Old Man Logan), a trama do filme se passa no ano de 2029, com os poucos mutantes que restaram no mundo escondidos num cenário pós-apocalíptico. Isso inclui o próprio Logan e Charles Xavier (Patrick Stewart), que se homiziaram na fronteira com o México. O velho carcaju agora trabalha como chofer, divagando pela cidade e servindo humanos, com o intuito de assomar lucro para abandonar a terra firme, e prover medicamentos para conter a mente mais poderosa do mundo em deterioração. Mesmo que o início mostre a dureza cotidiana dos mutantes, o enredo prova que a vida, do dia para a noite, pode piorar o que já estava péssimo. O advento de uma nova mutante, Laura (Dafne Keen), muda para sempre a vida dos dois, forçando-os a postergar a zona de conforto e enfrentar os demônios do passado como forma de aprendizado para lidar com o presente.

O diretor James Mangold, de forma exímia, acerta na forma que conduz o longa-metragem e nas nuances sutis do roteiro. Nota-se que ele entendeu e respeitou o personagem do início ao fim da produção, tanto pelos diálogos bem escritos como na forma que conduziu o veterano Hugh Jackman durante as gravações. É interessante ver a forma em que James utiliza a metalinguagem no perpassar da narrativa, tendo as revistas em quadrinhos como ponto chave dessa ideia. Laura, como qualquer criança, agarra-se na esperança emanada pelas histórias e crê que sua salvação está diretamente ligada a elas. Logan, por outro lado, despreza a fantasia e repete veementemente que o mundo real é o oposto da ficção. O conflito assíduo entre ambos é outro elemento bem explorado. A convivência serve como crescimento natural de suas personalidades; um busca salvação para ter liberdade; outro busca redenção para a alma enclausurada, que sofre pelas vidas ceifadas por suas garras. Além da relação entre os protagonistas e além mesmo da metalinguagem, o diretor coloca Logan contra seu próprio passado, de forma literal e figurativa. O velho integrante dos X-Men passou o decorrer de sua trajetória atormentado pelo propósito de sua criação, mas aprendeu a lidar (ou apenas sentiu-se anestesiado) com o passar do tempo. James traz à tona esse embate, colocando Logan contra seu antigo eu desalmado, mostrando o contraste da evolução do personagem desde sua primeira aparição nos cinemas.

O elenco condecorado acompanha a ambição do roteiro. Todos os intérpretes trabalharam de forma opulenta, mas os destaques ficam por conta de Patrick Stewart, Dafne Keen e, claro, Hugh Jackman. O desempenho da atriz mirim é admirável, fazendo a X-23 roubar o brilho das câmeras sempre que entra em ação. A personalidade taciturna e selvagem é decifrada com suas expressões, pouco necessitando de diálogos. Por outro lado, Patrick traz uma brilhante visão do que seria um Xavier com a mente danificada. Quando não ingere seus remédios, aborda assuntos sem sentido e age de forma exorbitantemente divergente do que estamos acostumados; a postura de homem sábio se esvai nesses momentos e é retomada quando anestesiado pelos medicamentos. Hugh Jackman, acostumado a interpretar o Wolverine, traz uma nova faceta ao mutante imortal: sua velhice na forma de andar e o semblante de dor estão presentes em (quase) todo percurso do filme, sendo substituído quando adota sua particularidade selvagem. Caliban (Stephen Merchant) está irreconhecível debaixo da maquiagem e de uma performance exemplar. Os vilões Pierce (Boyd Holbrook) e Doutor Rice (Richard Grant) não deixam nada a desejar, mesmo que o foco do enredo esteja nas relações e nos conflitos do protagonista.

Logan pode ser considerado uma película stand-alone, tornando-se acessível para as pessoas que não acompanharam a saga desde o início. O público pode entrar na história sem medo de perder-se, pois poucas são as citações ao passado dos mutantes, tanto como sua extinção. O foco, mais uma vez, está nos dramas pessoais de Wolverine e no seu crescimento ao lado de Laura, que se desenvolve como um clássico road movie. Logan torna-se um marco por saber utilizar muito bem sua alta censura na forma de contar uma história madura, deixando o clichê de que filmes de heróis precisam ser divertidos e coloridos de lado. Arcos dramáticos e uma carnificina que receberia elogios de Quentin Tarantino assomam qualidades pontuais ao longa-metragem. A trilha sonora e a paleta de cores utilizada na fotografia acrescem a trama adulta, enchendo os olhos dos aficionados por detalhes. O único pesar ao deixar a sessão é ter em consciência que esta é a despedida de Jackman. Posto isso de lado, é necessário exaltar que James e Hugh dobraram as mangas e trouxeram para os fãs o filme definitivo e primoroso do Wolverine: visceral, brilhante e revolucionário.

Crítica | Elle é um drama brutal com uma performance magnética de Isabelle Huppert

Paul Verhoeven ficou marcado por filmes de violência inabalável, que exploram o sexo e um senso de humor quase cruel. Filmes como RoboCop e O Vingador do Futuro causaram impacto com a violência brutal. O cineasta sempre deixou bem claro para esperar o inesperado em suas produções. Contudo, o diretor fora crucificado com o horrível Showgirls (1996) e incompreendido com o subestimado Tropas Estelares (1997).

O drama Elle, o primeiro em língua francesa do diretor, marca a sua volta em grande estilo. Claro, o filme gerou controvérsia por tratar de um tema delicado: o estupro. A sequência inicial já mostra ser um filme diferente. Sobre uma tela preta, ouvimos sons de um ataque com a chocante cena de estupro de Michele (Isabelle Huppert) por um invasor mascarado. Quando o estupro termina, Michele não liga para a polícia, não entra em desespero, ela recolhe os objetos quebrados em sua residência e começa a pensar no dia seguinte como se nada tivesse acontecido.  Seria Michele uma vítima passiva? Porque ela não reage e busca denunciar o seu agressor?

É aí que Elle busca fugir do mais do mesmo. Não é um longa sobre vingança ou sobre alguém sofrendo por um ato tão horripilante. Compreendemos (ou não) Michele quando acompanhamos o seu cotidiano: uma relação complicada com a mãe e uma tentativa de alertar o filho sobre sua companheira interesseira. De cara, Michele não faz perfil de vítima ou coitadinha quando no trabalho como chefe executiva de uma empresa de videogames, ela sabe o quão difícil é chegar ao topo de sua profissão com a maioria dominada por homens. Quando um empregado a desrespeita no trabalho ela não demonstra fraqueza, vai atrás de investigar o funcionário para se aproximar ainda mais dele com as informações que consegue.

O longa busca responder a personalidade difícil de Michele quando é revelado que em sua infância sofrera violência e abusos do pai, que deixou uma marca permanente. A partir daí, ela criou um escudo protetor. Diante disso, ela  não aceita ser controlada, não aceita compromissos com alguém. Depois do divórcio, mantém uma relação próxima do ex-marido, que ainda sente algo por ela. Mas ela se recusa a ser controlada. Seu caso de meses é apenas por algo sexual, abrupto, um prazer que some minutos depois do coito. Ao buscar compreender o porque dela não denunciar seu estuprador, que volta a violenta-la e envia SMS’s, fica evidente que ninguém é capaz de machucá-la depois de tudo que enfrentou, nem mesmo seu estuprador. Ceder seria um reconhecimento de que essas pessoas têm algum controle sobre ela.

Nada disso seria compreensível se não fosse Isabelle Huppert, que entrega uma performance magnética, impactante e devastadoramente emocional.  É percebido em seu olhar uma tremenda força para segurar todo o ódio e a raiva nos ombros. Quando a ferida é cutucada, vemos sua real face. Huppert consegue trabalhar esses dois lados de Michele com extrema maestria. Uma atuação que não se compara com suas candidatas ao Oscar de Melhor Atriz.

Elle é um filme áspero e não convencional, pois ele força a compreender o mais sombrio comportamento humano: a luxúria, a violência. Ele ousa em mostrar que o estupro pode não ser a origem de um trauma, mas resposta para superar um trauma ainda maior. Instigante, poderoso e brutal, um grande retorno para o esquecido Paul Verhoeven.

Crítica | Com excelentes atuações, A Qualquer Custo é um clássico faroeste moderno

Filmes western renderam ótimas produções em Hollywood ao longos dos anos. Mas, há muito tempo que não se via um ótimo faroeste, talvez o último tenha sido Bravura Indômita dos irmãos Coen, que foi um remake do filme da década de 60. A Qualquer Custo, longa que recebeu 04 indicações ao Oscar, atualiza o gênero e entrega um clássico faroeste moderno.

Ambientada no Texas nos dias atuais, o filme mostra que muita coisa não mudou na cidade natal do ex-presidente Bush. Lá, parece que as pessoas não avançaram. São rudes, ignorantes, andam armadas livremente e não aceitam quaisquer tipo de diferenças.  A montagem do filme faz um interessante balanço que Texas consegue ser bela com incríveis paisagens, mas ao mesmo tempo desértica e assustadora pela hostilidade presente, muito se devendo a pobreza pós-crise financeira que assolou em 2008.

A pobreza acaba sendo motim dos irmãos Toby Howard (Chris Pine) e Tanner Howard (Ben Foster). Toby é um pai divorciado e Tanner um ex-presidiário que perderam a fazenda da família em West Texas e decidem assaltar um banco como uma chance de se restabelecerem financeiramente. Porém, eles acabam cruzando o caminho de Marcus Hamilton (Jeff Bridges), um Texas Ranger que está para se aposentar e decide cumprir seu dever para a cidade uma última vez.

O cineasta David Mackenzie explora com eficiência a sociedade texana. Através de diálogos preconceituosos e humor negro, Marcus Hamilton representa alguém preso no tempo, que não aceita o “admirável mundo novo”. Ele continua com um pensamento arcaico e não pensa duas vezes em soltar piadas de mau gosto contra Alberto Parker (Gil Birmingham) por ser de origem indígena. Não deixa de ser uma crítica para moradores da cidade que continuam com um linha de raciocínio estreita. Pessoas essas que exaltam Donald Trump por trazer em sua campanha o slogan “make America great again”, que significa nada menos do que nós primeiros e depois os outros.

As atuações de Bridges e Foster são ótimas, mas que não surpreendem por apresentar semelhanças com os respectivos papeis em Bravura Indômita e Os Indomáveis. Entretanto, é Chris Pine que entrega uma performance que foge da zona de conforto. Aqui ele demonstra alguém endurecido pelo ambiente que vive e que se vê forçado a abraçar o lado negro. Toby representa o homem pacato que está cansado de ver injustiças ao redor. Suas motivações são levadas pelo desespero, enquanto seu irmão Tanner é motivado apenas pela adrenalina.

Com uma incrível trilha sonora de Nick Cave e Warren Ellis, A Qualquer Custo é um faroeste contundente e ágil sobre uma cidade melancólica, desolada, onde não existe mocinhos e bandidos. Uma obra ficcional, mas nem por isso menos verídica.

Crítica | John Wick: Um Novo Dia Para Matar supera o primeiro filme, mas não surpreende

A continuação de De Volta ao Jogo (2014) veio para aumentar não apenas a qualidade de seu antecessor, como também o número de tiros, lutas e corpos. O filme cumpre aquilo a que veio oferecer, sem surpresas, mas consegue superar sua produção anterior e divertir o espectador. John Wick: Um Novo Dia para Matar transborda ação do início ao fim, com cenas meticulosas e bem trabalhadas, além de comprovar o sucesso da nova franquia de Keanu Reeves, após dois fracassos em filmes do gênero.

Logo de cara nos vemos envolvidos em uma cena de ação, onde Wick persegue enlouquecidamente um motociclista pelas ruas de Nova York. No melhor estilo Velozes e Furiosos, a perseguição acontece em ruas movimentadas e em meio ao trânsito, com manobras calculadas por parte do espião. O objetivo de tudo isso? Recuperar seu carro, roubado no primeiro filme da franquia. A grande sacada do diretor Chad Stahelski foi saber o momento certo de introduzir a comédia em meio a cenas de tensão, não tornando a obra pesada e maçante, mas sim captando a atenção de quem a assiste.

Apesar de títulos diferentes, o segundo filme começa pouco depois de onde o primeiro terminou. John Wick busca vingança pela morte de seu cachorro e pelo roubo de seu carro, e não desiste da missão até conseguir completá-la. Wick vê seu desejo pela aposentadoria explodir junto com sua casa, e percebe que ainda está longe de conquistar seu tão sonhado descanso. A história se desenrola a partir daí e o personagem cético e fechado “volta ao jogo” para uma última missão, envolvendo a Alta Cúpula italiana e o desejo por poder. Por ser o melhor matador profissional do momento, Wick é requisitado por Santino D’Antonio e obrigado a pagar uma dívida antiga, velada a sangue.

A trama alterna entre Roma e Nova York, onde o famoso hotel Continental está presente em ambos os locais. A influência de Wick é um dos pontos cômicos da produção, onde o espião consegue recuperar em minutos o que foi perdido na explosão de sua casa. Desde um sommelier com um estoque de armas de dar inveja até mesmo a James Bond, a uma rede de mendigos assassinos e altamente armados, o espião conta com a cobrança de favores e ameaças para sobreviver. Os personagens do primeiro filme permanecem, e figuras novas são adicionadas como Riccardo Scamarcio, Ruby Rose, Common ( Lonnie Rashid Lynn Jr ) e Laurence Fishburne, propiciando o aguardado reencontro entre Neo e Morpheus.

Alguns detalhes bizarros deixam a produção um pouco a desejar, como a impressão de que boa parte da população mundial é composta de assassinos, ligados por uma rede de comunicação via SMS. Esses detalhes, porém, são o que mostram ao espectador o tipo de filme a que estão assistindo. Não devemos esperar algo muito divergente do primeiro filme, mas sim algo maior e melhor, com momentos em que parece estarmos em um video game e acreditem, isso é um ponto positivo.

Apesar de ser um ator subestimado, outra pessoa não poderia ter interpretado John Wick, além de Keanu Reeves. O lado sombrio e vingativo do personagem contrasta com a expressão blasé de Reeves, trazendo uma característica singular a todo o enredo. Wick é metódico, organizado e extremamente forte, beirando a imortalidade em alguns momentos, razão pela qual é tão respeitado por outros assassinos. Felizmente, tudo indica que um terceiro filme está a caminho, alcançando um terceiro degrau na ordem crescente de perigo enfrentado pelo espião. Da máfia russa, a todos os assassinos de Nova York, para praticamente todo o planeta. Não é preciso pensar muito para saber quem sairá vitorioso nesse confronto: o cachorro, lógico.

Dito isso, tenho um pedido a fazer a aqueles responsáveis por escalar os atores de filmes: apenas parem de colocar Ruby Rose para fazer papéis aleatórios, em filmes aleatórios. Estamos em fevereiro e já a vimos em três produções cinematográficas distintas, nas quais não oferece nenhum diferencial significativo.

 

Crítica | Lion – Uma Jornada para Casa é uma tocante jornada que inspira coragem e determinação

Mais de 80 mil crianças se perdem por ano na Índia. Algumas tiveram um final feliz, mas muitas sofreram com as mazelas do país, passando pelas piores situações possíveis. Saroo Brierley foi uma dessas crianças com final feliz e, sua história real foi adaptada para as telonas em Lion – Uma Jornada para Casa, produção que inspira coragem e determinação.

Escrito por Luke Davies adaptado do livro de memórias A Long Way Home, a trama acompanha a jornada do indiano Saroo, uma criança de 05 anos que se perdeu do irmão numa estação de trem de Calcutá e enfrentou grandes desafios para sobreviver sozinho, até ser adotado por uma família australiana. Incapaz de superar o que aconteceu, aos 25 anos ele decide buscar uma forma de reencontrar sua família biológica usando a ferramenta Google Earth.

A performance tremendamente maravilhosa de Dev Patel é a alma resiliente do filme tamanha a paixão e emoção entregados em cada cena. É sentido em sua postura o fardo que carrega por desconhecer suas raízes, algo que o consume por dentro, a ponto de mudar a forma de relacionar-se com a família adotiva. As comparações com Quem Quer Ser Um Milionário?, filme que o lançou em Hollywood, serão iminentes. De fato, há muita semelhança na sequência inicial com a abordagem da pobreza das crianças na Índia com o filme de Danny Boyle. Mas enquanto esse filme era carregado de energia e com musicais, Lion – Uma Jornada para Casa é algo bem diferente – uma visão sóbria e profunda sobre a importância da família, das raízes, da identidade e do lar.

Mas, sem dúvidas, a atuação do jovem Sunny Pawar é apaixonante e surpreendente como Saroo na infância. O notável garoto consegue tirar algumas lágrimas tamanho o sofrimento que enfrenta, mas encarando tudo na esperança de reencontrar sua família. Nicole Kidman e David Wenham interpretam de forma soberba Sue e John Brierley, os pais adotivos de Saroo. Os únicos papeis problemáticos são de Rooney Mara como Lucy, o interesse amoroso de Saroo. O romance entre os dois é mal desenvolvido, sendo apenas justificado para que Saroo conheça o Google Earth. O outro ponto pouco explorado é Mantosh, o segundo indiano adotado pela família australiana. O personagem é apresentado apenas como um garoto problemático e durante a narrativa acaba sendo ignorado.

A fotografia de Greig Fraser enquadra as magníficas paisagens em toda a robustez e beleza da Índia e Austrália. Com tomadas aéreas que deixa uma vontade de conhecer esses países, alguns takes passam com eficiência o ponto de vista de Saroo diante da muvuca de pessoas na Índia e na descoberta do novo e belo paraíso australiano.

Mesmo estreante como diretor, Garth Davis demonstra sutileza em abordar um drama real sem exagerar no melodramático. São em cenas simples que sua direção consegue uma emoção espontânea. Desde a habilidade de nos colocar dentro da cabeça de um garoto de cinco anos quando conhece pela primeira vez a Austrália e encontra seus pais adotivos, até o primeiro contato de Saroo com coisas banais como a televisão ou uma geladeira. Tudo é apresentado de forma magistral.

Por fim, Lion – Uma Jornada para Casa é um drama tocante sobre a busca de nossas origens e da importância de enfrentar nossos demônios internos para seguir em frente e nos encontrar como pessoas. A mensagem social durante os créditos finais busca conscientizar sobre o que acontece na Índia e em outros países mais pobres. O caso de Saroo terminou da melhor forma possível. Mas difícil não ficar imaginando que outras crianças por aí não tiveram a mesma sorte que ele.

Crítica | A Cura: um bom suspense com final questionável

“Fulano larga tudo para viajar pelo mundo; casal deixa carreiras promissoras e vai se aventurar…”, há um tempo notícias como essas chamam atenção na imprensa, afinal, os corajosos que ousaram abandonar a pressão de um mundo cada vez mais caótico são admirados (invejados). Em A Cura (A Cure For Wellness), foi isso que aconteceu com o chefe de Lockhart (Dane DeHaan), que resolveu se isolar em um refúgio de bem-estar nos Alpes suíços enquanto sua companhia milionária passava por um processo de fusão.

Lockhart, que para conseguir uma promoção, descumpre leis tributárias que poderiam levá-lo à cadeia, foi enviado para buscá-lo, mas logo percebe que o tal Spa, está mais para hospício com tratamentos suspeitos e pessoas que aparentam uma certa dormência. No caminho até lá, ele descobre uma espécie de lenda sobre o terreno onde a instalação foi construída, que gera o ódio do povo local contra o retiro. Se você está esperando um filme de terror, por conta do diretor ser Gore Verbinski (O Chamado), anime-se para um suspense que intriga em boa parte do filme.

A presença de Hannah (Mia Goth), uma jovem introspectiva que difere muito dos demais pacientes, em sua maioria idosos, é mais um impulso que faz Lockhart querer desvendar os segredos do lugar, mas ele encontra muitas barreiras na equipe do Dr. Volmer (Jason Isaacs), que está parecido com o personagem que fez em The OA da Netflix, quem já assistiu vai notar as semelhanças dos cientistas interpretados por Isaacs.

Por mais que não seja um filme de terror, há momentos realmente aterrorizantes, cenas que despertam desconforto e vão testando a sanidade de Lockhart junto com a do espectador. Será mesmo que ele não está enlouquecendo e tudo de absurdo que acontece por ali não passa de alucinações de sua mente? Os detalhes fazem a diferença na hora de amarrar os fios soltos.

O problema é que todo o mistério e o pano de fundo que dão à história, não fazem parte do quebra-cabeça, mas sim são o próprio quebra-cabeça. Me incomoda um pouco que as respostas venham ser mais para o lado fantástico (falando do gênero fantasia mesmo), em um filme com questões tão humanas como o questionamento do modo de vida vigente e a loucura do dia a dia, que leva as pessoas a quererem uma cura. O desfecho tem um toque sobrenatural e deixa um gosto amargo.

Distribuído pela Fox Film do Brasil, a estreia acontece em 16 de fevereiro.

Crítica | Moonlight: Sob a Luz do Luar – um drama profundo sobre a jornada da aceitação pessoal

A escolha de Moonlight: Sob a Luz do Luar como Melhor Drama no Globo de Ouro, me fez querer ver ainda mais o filme com a participação do ator sensação do momento Mahershala Ali, que após as produções da Netflix: House of Cards e Luke Cage, tem sido escalado para papéis em filmes. Mas, eu não esperava que a história de um garoto poderia ser tão perturbadora e tocante.

O filme é uma jornada em torno da vida de Chiron, que na trama, passa por três fases: infância em que faz uma amizade, um tanto paternal, com o traficante Juan (Mahershala Ali), adolescência em que sua sexualidade, já questionada na infância, é explorada com o amigo Kevin, e vida adulta, onde em busca de si mesmo, acaba em uma caminhada muito parecida com a única figura paterna que teve na infância, Juan. O protagonista é vivido por três ótimos atores, que conseguem passar toda a instrospecção e luta interna vivida por ele, Alex R. Hibbert (infância), Ashton Sanders (adolescência) e Trevante Rhodes (adulto).

A mãe de Chiron é viciada em drogas. Paula é muito bem interpretada por Naomi Harris e, é a responsável pela vida do garoto não ter uma rotina ou mesmo qualquer tipo de segurança que um lar deveria oferecer. Com o passar do tempo, percebemos o quanto o vício da mãe interfere na vida de Chiron. E ao descobrir que Juan é o traficante que fornece drogas à mãe, um rompimento importante acontece dentro do menino, mais um. Só Teresa, em mais uma ótima participação de Janelle Monáe nos cinemas, é uma constante, a namorada de Juan, acaba sendo o único refúgio do garoto.

A obra é inspirada em um projeto de faculdade do dramaturgo Tarell Alvin McCraney, “In Moonlight Black Boys Look Blue” e é uma grande crítica social, humanizando clichês tão batidos como o jovem pobre negro, o traficante e a mãe viciada. A violência e preconceito são velhos conhecidos do protagonista, andando junto com sua história. Enquanto lida com seus conflitos internos, a sociedade o expõe de uma maneira maldosa. No caminho de Chiron não há uma redenção ou mesmo definição, as coisas ainda estão por se revelar, aos poucos. Na fase adulta, em que ele se encontra tentando se desvencilhar do passado, mas ao mesmo tempo, fruto dele, é indicado que talvez, o amor e a aceitação, possam fazer com que finalmente sua vida flua.

Um dos favoritos ao Oscar, o filme estreia em 23 de fevereiro no Brasil, exibindo uma figura muito pessoal, mas ao mesmo tempo, universal da eterna caçada pelo descobrimento pessoal, aceitação e a solidão deste caminho. Ao ver  “Moonlight”, não é preciso ser pobre, negro, traficante ou gay para entender a jornada de Chiron, é preciso apenas ser  humano.

Crítica | LEGO Batman: O Filme é maravilhoso, inspirador e um dos melhores do herói já feitos

Como fã de Batman, sempre estarei esperando boas adaptações do Homem-Morcego ao cinema. Nunca imaginei que uma das melhores versões do vigilante de Gotham seria um derivado de Uma Aventura LEGO (2014), animação que surpreendeu sobre os famosos brinquedos de montar. Batman foi a grande surpresa daquele filme porque foi além das piadas com o jeito solitário e egocêntrico do personagem, há uma carga emocional ali que o filme solo consegue explorar com eficiência.

Dirigido por Chris McKay, LEGO Batman: O Filme tem uma pegada mais leve que os live-action, o que já era de se esperar. Porém, mesmo destinado ao público infantil, o filme jamais desrespeita o legado do herói como fizera Joel Schumacher (Batman Forever, Batman & Robin) e agora, Zack Snyder com Batman vs Superman. Por sinal, essas duas versões rendem divertidas piadas (alfinetadas).

Toda a mitologia que fez de Batman um dos heróis mais populares está presente na animação. O trauma da morte dos pais, a solidão e a tristeza de não ter uma família é vista no filme. Nesta versão, Bruce Wayne acaba sendo uma figura egocêntrica, que acredita que não precisa de ninguém. Daí que Alfred surge como uma figura paternal para aconselha-lo.

Na trama, Batman leva uma vida solitária capturando bandidos e salvando Gotham City. Ele acaba assumindo o posto de celebridade, pois sempre é o centro das atenções. Contudo, esse posto fica ameaçado quando o comissário Gordon se aposenta e a filha Barbara Gordon assume o lugar. A jovem e destemida implementa métodos para que a polícia não seja mais dependente do Batman, já que a onda de crimes continua a aumentar diante das intervenções do Homem-Morcego. Além disso, o vilão Coringa elabora um plano motivado pela decepção de não ser reconhecido pelo Batman como seu grande arquinimigo.

LEGO Batman: O Filme está repleto de piadas, algumas delas podendo passar desapercebidas. Os mais atentos perceberão o prato cheio de fan services, pois muitos personagens da marca Warner Bros. surgem ou são mencionados. Sobrou até para o Michael Jackson. O mais bacana é que o humor usado não é apelativo ou grosseiro.

No plano estético, o visual maravilhoso de Uma Aventura LEGO é transportado para o LEGO Batman: O Filme, com incríveis paisagens urbanas de Gotham City, utilizando muito bem as cores. Contudo, o 3D é desnecessário porque não carrega a profundidade das cenas de ação. Aquela velha história da conversão que, por muitas vezes, estraga a experiência cinematográfica.

O longa presta tributo aos 77 anos do Homem-Morcego, fazendo reverência às diversas fases do herói. A narrativa faz menção de destacar algo que o mais recente Batman de Zack Snyder desrespeitou.  Enquanto o Batman de Snyder não pensa duas vezes em matar os capangas, esse LEGO Batman é movido por ideais e moralidade. Pode parecer algo pesado para um filme do gênero adaptar, mas o LEGO: Batman consegue explorar com eficiência. A relação com Robin tem piadas divertidas, mas o pano de fundo é a imagem de heroísmo que Bruce Wayne/Batman passa para um jovem órfão, que o enxerga como uma figura paternal, tal como nas HQ’s.

Ao final, LEGO Batman: O Filme é maravilhoso, inspirador, divertido e para assistir com toda a família. Uma prova que a Warner Bros. é capaz de realizar bons filmes dos heróis da DC. Basta querer e fazer o simples: respeitar o que fizeram desses heróis símbolos de várias gerações. Este é, sem dúvida, um dos melhores filmes do Batman já realizados.

Crítica | Fãs da trilogia irão se surpreender com Cinquenta Tons Mais Escuros

Desde o lançamento de seus livros, a Trilogia Cinquenta Tons provocou extremos das opiniões: enquanto uns se apaixonaram, outros os julgaram ridículos e toscos (sem mesmo lê-los). Logo foi anunciado que a trilogia seria adaptada para os cinemas, e os comentários negativos só aumentaram, enquanto os já  fãs ficaram receosos e ansiosos ao mesmo tempo. Antes mesmo de lançar o primeiro filme, o preconceito de muitos já fala mais alto, o que apenas continuou na sequência. As adaptações para o cinema foram produzidas para os fãs, que se apaixonaram pela história original e gostariam de vê-la retratada nas telas. O objetivo foi cumprido.

Cinquenta Tons Mais Escuros veio para continuar a história iniciada em 2015, mantendo seus protagonistas e adicionando novas figuras importantes ao elenco. Além de Christian Grey (Jamie Dornan) e Anastasia Steele (Dakota Johnson), Jack Hyde(Eric Johnson), Elena Lincoln (Kim Basinger) e Leila (Bella Heathcote) assumem papéis de destaque na trama, interpretando os “vilões” da história. Hyde é, inclusive, o grande destaque do terceiro e último filme, Cinquenta Tons de Liberdade. 

Nessa nova história, o público conhece junto com Anastasia um novo lado de Christian, surpreendente para quem só assistiu o primeiro filme. A transformação do personagem dominador em um homem desesperado e apaixonado é o que atraiu muitos nos livros, não apenas o sexo presente nas páginas. A trilogia de E.L. James ainda é estigmatizada como “livros ou filme sobre sexo”, porém, não é isso que deve ser considerado. O principal enfoque da trama é o romance, desenvolvido entre uma mulher e um homem completamente diferentes, mas que encontram no outro aquilo que estavam precisando.

Um destaque muito positivo desse novo filme é a atuação de Dakota Johnson. Sua personagem nos livros é apática, se moldando a medida que a personalidade de Christian vai se transformando. Johnson conseguiu trazer para Anastasia todo um charme, elegância e diversão que os leitores ainda não conheciam, visto que o destaque sempre está em Grey. Jamie Dornan, entretanto, é o oposto, e prova mais uma vez que não deveria ter sido o escolhido para o papel. Christian é o protagonista da trilogia, aquele que tem sua vida bagunçada pela presença de Ana e que vai, com o tempo, prendendo a atenção do público por sua submissão à mulher que ama. Dornan não demonstra em momento algum uma mudança em sua expressão, mantendo a mesma postura do homem frio do filme anterior e deixando a desejar em sua atuação.

A trilha sonora de Cinquenta Tons Mais Escuros é ainda melhor do que a do primeiro filme, com músicas frenéticas, românticas e tensas nos momentos certos. Não há como negar a química entre Jamie e Dakota, principalmente nas cenas de intimidade. Ela demonstra estar a vontade na situação, principalmente pelo fato de Anastasia ter muito mais momentos de nudez do que Christian. Mais um ponto para Johnson. Além do casal principal, os personagens de Elena e Jack têm seu valor e transmitem aquilo que foi idealizado nos livros de E.L. James. 

Infelizmente, nem tudo são flores. Já é cliché falar que os livros foram melhores do que os filmes, mas alguns fatos devem ser destacados. Cinquenta Tons Mais Escuros é um filme com quase duas horas de duração, ou seja, havia tempo suficiente para abordar os pontos chaves da trama de maneira ampla e detalhada. Entretanto, momentos marcantes da história não foram bem explorados e tornaram-se de pouca importância ou ficaram apagados. O segundo livro é onde tudo acontece, onde as mudanças de Christian acarretam consequências positivas e negativas, sendo elas o carro chave da trama. A história é moldada e encaminhada para o desfecho da obra, porém, a maneira que certas questões foram abordadas foi fraca e vaga, ao invés de intensa como na narrativa original.

Por fim, apesar dos pontos negativos destacados, Cinquenta Tons Mais Escuros consegue superar o primeiro filme e irá atender aos fãs que ansiaram por tanto tempo. Salvo alguns instantes, a história permanece fiel ao livro e consegue trazer tudo aquilo que apenas desenvolvemos na imaginação. Dakota Johnson trouxe as atenções para Anastasia, transformando uma personagem quase infantil em uma mulher madura, sexy, engraçada e decidida. A química existente entre ela e Jamie Dornan é inegável, e apesar da atuação fraca do ator, o casal cumpre aquilo a que foi designado. A trilha sonora fecha com chave de ouro, ampliando a intensidade das cenas nos momentos certos. Cinquenta Tons Mais Escuros, assim como seu antecessor, é feito para os fãs da história de E.L.James, e eles ficarão satisfeitos. Afinal, é a esse público que o filme deve agradar, e o faz.

Crítica | Jackie acompanha o sonho e pesadelo da Primeira Dama

A imagem de Jacqueline Kennedy ficou marcada na História como uma mulher desesperada sobre o porta-malas de um carro em alta velocidade segurando seu marido morto após um tiro que esfacelou seu cérebro. Uma tragédia como outras se não fosse por ser John F. Kenndey, o presidente dos EUA. A comoção moveu o mundo, mas o que se passou a seguir pouco foi acompanhado de perto pela mídia.

Jackie, longa do chileno Pablo Larraín e escrito por Noah Oppenheim, acompanha os dias seguintes da trágica morte de JFK, focando na força e fragilidade da viúva e Primeira Dama interpretada por Natalie Portman.

A trama inicia a partir de uma entrevista de Jacqueline ao jornalista Theodore White (Billy Crudup), da revista LIFE. Dotada de personalidade em dizer para White que ele estará editando sua história, pois o mito por trás da realidade é o que vende, faz o próprio jornalista repensar se vale sua própria satisfação pessoal ou a dos leitores para o que vai escrever em sua matéria. A narrativa faz um estudo meticuloso sobre os personagens, explorando com eficiência os horríveis dias que cercaram o assassinato de John F. Kennedy (Caspar Phillipson). Todos os olhos estão em Jackie, que não consegue ter seu luto pessoal, sofrer em paz. Enquanto Jackie é motivada a passar uma imagem de força, Bobby Kennedy (Peter Sarsgaard) é movido a raiva pela morte do irmão e parece o único a compreender a dor da cunhada. Ambos possuem uma sintonia interessante em buscar respostas sobre o que aconteceu.

Diante de flashbacks (e flashbacks dentro de flashbacks), a trama não soa desorientadora; A montagem é eficaz em conseguir prender pelo apelo emocional de Jackie, narrando seus momentos mais difíceis e guiando-se menos pelo passo a passo dos incidentes. Com isso, a atuação de Natalie Portman é surpreendente e de grande imponência. A atriz apresenta com maestria os contrastes de Jackie, ora sorridente mostrando a Casa Branca em uma programa de televisão com a desesperada mulher no chuveiro com seu vestido ensaguentado. O que será mais importante? Seu dever como Primeira Dama ou seu luto como esposa e mãe de seus dois filhos?

Esse conflito interno evidencia uma visão contraditória de Jackie. A vontade de uma procissão funeral grandiosa seria para suprir sua própria tristeza ou uma necessidade de ter sua imagem engrandecida? A tristeza é evidente na jovem mulher, mas seu ego é ferido, e Portman demonstra com habilidade esse lado.

A fotografia de Stéphane Fontaine é elegante e graciosa ao remeter o tom de grão mais grosso em cenas para recriar o caráter documental da época. A câmera gira sobre Jackie destoando as cores como um sonho e às vezes como um pesadelo. A trilha sonora de Mica Levi acompanha a tempestade de emoções, o tumulto interno sobre seus personagens investindo em arranjos de cordas avassaladores, mas ao mesmo tempo calmos como se colocasse um pano quente no momento de tensão.

Jackie apresenta uma história intrigante sobre uma viúva tentando encontrar seu lugar no mundo depois de uma perda devastadora. O filme busca mostrar que Jacqueline Kennedy foi muito mais do que uma mulher de voz frágil e uma Primeira Dama de enfeite. A história é cercada de mitos e sobre esses mitos que o longa se situa sem precisar buscar respostas sobre o que houve de fato.

Crítica | O Chamado 3 volta com tudo, mas peca com o excesso de jump scares

Que a franquia “O Chamado” tornou-se um clássico de terror, isso não temos dúvidas. São poucas as pessoas que não sabem da existência de Samara Morgan, com sua característica vestimenta branca e os cabelos negros que escondem o rosto mortificado.

Após 12 anos presa, Samara escalou o poço e retornou as grandes telas do cinema em uma nova tentativa de resgatar franquias pelos produtores de Hollywood. Neste caso, a direção passou das mãos do habilidoso Hideo Nakata para as de Javier Gutiérrez, com um roteiro escrito a três mãos por: David Loucka, Jacob Estes e Akiva Goldsman.

O longa inicia com uma sensacional e bem produzida cena de pânico dentro de um avião, que vai te deixar aflito com a invasão de Samara, que coloca não só a vida de quem assistiu ao vídeo amaldiçoado em risco mas a de todos que estão a bordo. “Vocês já viram aquela fita? Aquela que te mata em sete dias depois que você a assiste?”, perguntou Carter (Zach Roerig), sentado na poltrona do avião, demonstrando temor. Dessa fala em diante, sabemos que o diretor manteve a entrada clássica, honrando os dois primeiros filmes e, nesse aspecto, superando-os ao elaborar um clima de horror em um meio transporte cheio de passageiros. O Chamado 3 começa com o pé direito, mas peca ao introduzir diversos jump scares, deixando de lado o precioso terror psicológico do primeiro filme.

A trama principal da obra gira em torno da personagem Julia (Matilda Lutz), que começou a preocupar-se com a ausência de seu namorado Holt (Alex Roe), após ver o aterrorizante vídeo e receber uma ligação dizendo que lhe faltam sete dias de vida. A garota faz a escolha de se sacrificar para salvar seu par amoroso e faz descobertas sobre a estranha e dolorosa vida de Samara, com a ajuda de Gabriel (Johnny Galecki), professor universitário de Holt.

A ideia de trazer um clássico para os dias atuais é ótima, principalmente pela curiosidade de descobrir como o diretor e os roteiristas lidaram com a inclusão digital. O principal problema dessa expectativa é que o filme acaba por explorá-la de forma rasa, trazendo cenas desnecessárias de um fã clube geek, onde diversos cronômetros marcam o tempo de morte de cada um. O vídeo renderizado do tape é copiado e colado na área de trabalho do computador, e só (ao invés da clássica cópia do VHS). Apesar de trazer novas ideias, a maioria delas é rasa e mal explorada.

As novas descobertas sobre a destemida Samara são o ponto forte do filme que, graças ao cientista Gabriel (personagem de Johnny Galecki), são trazidas a tona. Não podemos deixar de notar também a ótima atuação de Galecki, com um personagem totalmente diferente do que estamos acostumados em The Big Bang Theory.

A cena inicial nos deixa intrigado para saber a que ponto a trama será ligada aos eventos do avião e infelizmente isso não acontece. No entanto, tudo fica claro com a reviravolta dos minutos finais que, faz o filme ser finalizado com chave de ouro e deixando um gostinho de quero mais.

Sem dúvidas O Chamado 3 conseguiu trazer aos dias atuais o universo da Samara e novas descobertas dos diversos mistérios que a envolvem. O longa deixa a desejar ao deixar o terror psicológico de lado graças aos diversos jump scares, mas consegue entregar um final de forma honrosa, nos deixando ansiosos por uma continuação.

Crítica | Positivamente, Quatro Vidas de Um Cachorro difere dos clássicos filmes sobre animais de estimação

Antes de começar, gostaríamos de citar que essa crítica não se trata de discorrer ou não a respeito dos fatos polêmicos, apenas de falar a opinião de seus críticos em relação ao que foi assistido.

Há oito anos atrás, Hallström foi responsável por deixar muitas salas de cinema inundadas em lágrimas com o emocionante Sempre ao Seu Lado, um filme simples sobre fidelidade e amizade entre um cão e seu dono. Agora, o sueco volta ao gênero ao adaptar o livro homônimo de Cameron.

Uma trama que apresenta um quê de Marley & Eu, com um romance de Nicholas Sparks e a lealdade de um cachorro de Sempre ao Seu Lado. Percebe-se que definitivamente as lágrimas estarão presentes.

A história acompanha o inquieto Bailey, um cachorro muito esperto e que vive em busca de um propósito para sua vida e para a de seus humanos que tanto ama. É Bailey o narrador da trama, do início ao fim, mesmo que ele morra e reencarne várias vezes, em cachorros das mais distintas raças. Apesar de sermos apresentados a vários donos, Bailey mantém o sonho de reencontrar Ethan, seu maior amigo e primeiro companheiro. Depois de vir ao mundo diversas vezes, nos lugares mais diversificados, ele se pergunta se algum dia reencontrará o menino.

A relação com Ethan é a força que guia o filme, sendo dividida em três partes. A primeira fase apresenta a infância do menino (Bryce Gheisar), e além de ser a mais duradoura na trama, é também a mais tocante e onde você provavelmente vai precisar de um lenço. É nessa fase que a relação de cumplicidade entre humano e cão é formada, sendo ela a base pelos sentimentos de Bailey.

Já na fase adolescente, K.J. Apa revela um Ethan ainda fiel ao melhor amigo, mesmo com tantas mudanças típicas da adolescência, como o primeiro amor, que acabam por render divertidas cenas. Hannah (Britt Robertson) entra na vida do jovem e passa a fazer parte da “matilha”, acompanhando os dois em todas as suas aventuras e é com ela que Ethan consegue relaxar e fugir dos problemas causados pelo pai alcoólatra. Após uma tragédia, o casal é posto a prova e tudo desmorona na vida do menino, que vê seus planos adiados.

A partir daí são contadas novas vidas de Bailey, que passa a se chamar Ellie, Tino e Buddy em diferentes reencarnações. Em cada uma delas, são mostradas as inúmeras qualidades que um cachorro pode ter na vida de um ser humano, desde salvar uma vida a simplesmente fazer companhia nos dias ruins. Pessoas que têm um em casa certamente irão se emocionar em cada segundo da trama e, mesmo que não tem, terá vontade de adotar um.

O principal destaque do filme é a dublagem do cachorro por Josh Gad, transmitindo aos espectadores o que seus donos não conseguem. Sejamos francos, quem nunca interpretou o olhar ou o gesto do animal de estimação com uma voz diferente? Em Quatro Vidas de Um Cachorro é exatamente o que acontece. E curiosamente, parece exatamente com aquilo que criamos na cabeça .

A parte final da trama é o quê de Nicholas Sparks que já havia mencionado antes, e por mais previsível que possa parecer, encerra a história com chave de ouro. A versão adulta de Ethan é interpretada por Dennis Quaid, enquanto Peggy Lipton dá vida a fase adulta de Hannah. Certamente você já deve imaginar o que acontece, mas a maneira como acontece que é o grande diferencial e fará todos se emocionarem mais uma vez. Hallström encaixou todas as histórias em uma, de maneira que não se comprometam e complementem a obra como um todo.

Quatro Vidas de Um Cachorro merece uma atenção positiva, ao invés de apenas comentários acusativos e críticos. A trama é linda, envolvente e emocionante do início ao fim, dando espaço para comédia e drama nas medidas exatas que farão o público sorrir e chorar. A quem ainda não têm seu próprio animal de estimação, duvido que a vontade não tenha aumentado e a quem já tem esse prazer em casa, provavelmente vai chegar e dar um abraço em seu melhor amigo. Faça isso, pois infelizmente, eles têm uma vida curta demais.

“The job of a good dog was ultimately to be with them, remaining by their sides no matter what course their lives might take. All I could do now was offer him comfort, the assurance that as he left this life he was not alone but rather was tended by the dog who loved him more than anything in the whole world.”
― W. Bruce Cameron, A Dog’s Purpose