Crítica | Fragmentado é a volta por cima de M. Night Shyamalan

M. Night Shyamalan surgiu sob a alcunha do diretor da nova geração depois dos formidáveis O Sexto Sentido (1999) e Corpo Fechado (2000). Contudo, Hollywood é traiçoeira. Da mesma forma que te coloca no topo, te derruba feio. Shyamalan sofreu com isso com as produções seguintes, que foram até boas como Sinais (2002) e A Vila (2004). Com o passar dos anos, ele ficou marcado apenas como o cineasta dos plot twists (as viradas de cena que surpreendem nos atos finais).

Depois do ótimo A Visita (2015), que reafirma o diretor com um dos melhores do gênero thriller, Fragmentado é a sua volta por cima. Um filme surpreendente que trabalha com eficiência drama, comédia e terror e, com um twist para deixar os espectadores de queixo caído.

A trama é centrada em Kevin (James McAvoy ), um portador de 23 personalidades distintas que tem capacidade de alterar sua química corporal por meio do pensamento e passa a agir de maneira incontrolável. Mas conforme aprendemos ao longo do filme, existe uma 24ª identidade que ameaça emergir. Essa identidade é “a besta”, e ela tem fome por carne humana que o define como “alimento sagrado”. Um dia, ele sequestra três adolescentes que encontra em um estacionamento. Vivendo em cativeiro, elas passam a conhecer as diferentes facetas de Kevin e precisam encontrar algum meio de escapar.

O filme possui três narrativas. A primeira, que serve de pano de fundo para o filme, segue o rapto das três adolescentes nas mãos de uma das personalidades atormentadas de Kevin. O segundo segue a relação de Kevin com sua psiquiatra Dr. Fletcher (Betty Buckley), que revela o paciente estar demonstrando sinais preocupantes de instabilidade, apesar de seu progresso de longa data. A terceira, e mais importante, segue a adolescente raptada Casey (Anya Taylor-Joy), em flashbacks de infância onde seu pai a ensinou a ser uma sobrevivente e seu tio a distorceu com a realidade mais cruel e sinistra da vida.

Shyamalan é eficaz em mostrar os dois lados de pessoas que sofreram abuso. Kevin e Casey são faces da mesma moeda. Ambos guardam sequelas, mas seguiram caminhos diferentes. Kevin criou as 24 personalidades, enquanto Casey se tornou uma garota anti-social. Não é a toa, que Kevin por meio de uma das personalidades sente uma conexão com a garota.

Como já de costume em obras do diretor, Fragmentado parece ser um filme de garotas tentando escapar de um homem perigoso. Mas, as viradas sutis logo mostram que a história tem muito mais para entregar. O filme também consegue trabalhar o humor de maneira eficiente. Cenas divertidas distraem, deixam o público relaxado. Com isso, as cenas assustadoras causarão maior impacto no espectador. M. Night Shyamalan repete a mesma fórmula de A Visita com humor e terror, mais uma vez se saindo bem.

Fragmentado não funcionaria sem um ator do calibre de McAvoy, que dá um show. O ator consegue apresentar com eficiência cada personalidade alternando do divertido para assustador apenas com nuances sutis. O britânico com cara de bom moço está irreconhecível e realiza um dos grandes trabalhos da carreira.

Apesar dos excessos em seu ato final que pode se resumir em uma mistura de Dragão Vermelho, Identidade e, estranhamente, Jurassic Park, M. Night Shyamalan incorpora esses momentos de forma orgânica, reverente e visceral. Ao final, Fragmentado é um dos filmes mais pensativos e o melhor do cineasta em anos. Aquele filme que te deixará reflexivo após o surpreendente final.

Ps.: O filme continua durante os créditos finais. Fiquem atentos. 

Crítica | Marvel esquece o misticismo e as artes marciais em Punho de Ferro

Punho de Ferro marca a quarta e última série que faltava para fechar o quarteto Os Defensores, que chega no segundo semestre na Netflix. Depois de conhecer as histórias de Demolidor, Jessica Jones e Luke Cage, chega a vez de Danny Rand mostrar ao que veio.

Todas as séries da Marvel na Netflix abraçam a sobriedade e realismo com suas peculiaridades, mostrando o lado mais sujo de Nova York. Desde então ficou o sinal de alerta para a chegada de Punho de Ferro. Será que ele é apenas mais um defensor? Produzida por Scott Buck, a adaptação não muda o origem do herói nas HQ’s. Mas, não soube utilizar o universo rico que o personagem tem. Faltou o misticismo e as artes marciais que tanto era esperado.

Punho de Ferro poderia representar uma icônica série de artes marciais revitalizando filmes do gênero dos anos 70/80. Porém, os 13 episódios tem altos e baixos, e nenhum momento consegue engrenar.

O roteiro é preguiçoso indo sempre para o mais óbvio. A série até apresenta com eficiência o universo de seus personagens focando no retorno de Danny Rand (Finn Jones), que foi declarado morto após o acidente de avião há 15 anos que acabou matando seus pais. Metade da série se resume em Danny provar sua identidade para Joy e Ward Meachum, seus amigos de infância vividos respectivamente por Jessica Stroup e Tom Pelphrey, que agora assumem os negócios da empresa. Sua ingenuidade é até compreensível. Mas, ficar quase metade da série falando apenas “Eu sou o Danny Rand”, é quase irritante vindo de alguém preparado fisicamente e psicologicamente para adversidades.

Mas já era algo de se esperar vindo de Scott Buck, aquele que comandou as temporadas finais de Dexter. E bem… todos viram o que aconteceu. Um dos problemas mais visíveis vindo do showrunner foi a ausência de um grande vilão, ao contrário de Demolidor, Jessica Jones e Luke Cage, que apresentaram excelentes antagonistas. A série mostra que tudo está sob o controle do Tentáculo, mas faltou alguém para representar essa ameaça. Ora Madame Gao, Bakuto, Harold e Ward Meachum se mostram como a figura ameaçadora de Danny Rand, mas tudo muda de uma forma confusa. Notem que Gao está ameaçadora em Demolidor, porque estava sob uma direção segura e contundente. Aqui, ela é mais uma figura alegórica, não tendo a mesma autonomia em cena. Todo grande herói depende de um grande vilão, e a ausência grosseira prejudica a motivação de Danny em toda a série. O que fica visível é que nunca está claro qual caminho ele vai seguir. Se é salvar sua empresa, proteger seus amigos ou defender K’un-Lun.

Finn Jones até se esforça, mas não convence total como personagem. Como bilionário, ele faz o esperado. Um ricaço que recupera sua identidade e tenta corrigir os erros da empresa que leva seu nome. Já como Punho de Ferro (ou parte dele) ele jamais passa a imagem de alguém que foi treinado em outra dimensão e leva consigo o poder de um lendário guerreiro. Mesmo nas cenas em que seu punho brilha, não ficamos convencidos de que ele seja uma arma viva.

Nos quadrinhos, Punho de Ferro pode ser classificado como uma mistura de Bruce Lee, Jackie Chan e Jet Li. A série opta de forma errônea pelo lado realista com Danny Rand mais parecendo um sujeito com habilidades semelhantes a Matt Murdock. Por falar em Bruce Lee, o mestre das artes marciais foi a grande inspiração para a criação do defensor e não há nenhuma referência dele na série.

Em relação ao elenco, a bela Colleen Wing, interpretada pela ótima Jessica Henwick, é o destaque. A personagem possui uma força interior e carisma que conquistam com rapidez. Sempre quando ela sai de cena fica a expectativa pelo seu retorno.

Sobre a ação da série… bem, não empolga. As cenas não possuem intensidade. Parece que repetiram tudo de Demolidor, até a cena clássica do corredor está lá. Quem espera boas performances de Kung Fu, vai se decepcionar. Demolidor empregou sequências de luta que estão na memória até hoje pela criatividade. Aqui, foi tudo no piloto automático e não sobra nenhum momento emblemático.

Os episódios finais de Punho de Ferro até deixam um frescor para o aguardado Os Defensores. Os easter eggs e conhecidos personagens desse universo estão ali. Mas, a Marvel e Netflix perderam uma grande oportunidade com um personagem (a priori) mais fácil para se adaptar. Quem sabe a união com Demolidor, Jessica Jones e Luke Cage possam trazer dias melhores e tirar o sabor ruim que ficou.

Crítica | A Bela e a Fera é mágico e retrata de forma esplêndida o clássico de Walt Disney

Sabe aqueles filmes que queremos dar mais do que a nota máxima? A nova versão de A Bela e a Fera é, sem sombra de dúvida, um desses casos.

De uns tempos para cá, alguns clássicos contos de fada vêm sendo produzidos e relançados no formato Live-Action, adicionando um toque de realidade aos desenhos de nossas infâncias. Histórias como Alice no País das Maravilhas, Malévola e Cinderela, ganharam atores reais para interpretar seus personagens, além de todo um cenário ao redor, representando os reinos encantados. A última fábula escolhida para ganhar vida nos cinemas foi A Bela e a Fera, revivendo a magia da produção do Walt Disney Animation Studios, de 1991, baseado no filme francês de 1946.

Logo nos deparamos com um rosto conhecido no papel da protagonista Bela, vivida por Emma Watson, que finalmente se desvencilha de Hermione Granger. Criticada por muitos desde o momento de sua escolha, Watson honra a emblemática personagem não apenas por sua ótima atuação, mas pela bela voz ainda desconhecida pelo público, que certamente é um show a parte. Do outro lado temos Dan Stevens, atualmente em Legion, vivendo o príncipe transformado na monstruosa Fera, que através de efeitos visuais surpreendentes, transmite realidade e emoção em suas feições.

Um dos principais problemas presentes nos últimos Live-Actions lançados, foram as mudanças feitas em relação a história original. Em A Bela e a Fera isso não acontece faz com que a produção seja a melhor já feita. Os fãs com mais de 20 anos irão se emocionar ao ouvir as músicas de sua infância e ver as inesquecíveis cenas retratadas de maneira tão excepcional e real, enquanto os mais novos terão a chance de conhecer uma das clássicas princesas de Walt Disney.

Ao lado dos protagonistas, um elenco de peso ajuda a moldar o enredo e transformar o drama em algo gostoso e prazeroso de assistir, mesmo boa parte dele tendo sido revelada após a quebra da maldição. Ewan McGregor interpreta o candelabro Lumière, Ian Mckellen ,o relógio Cogsworth (Horloge), Emma Thompson, a chaleira Senhora Potts (madame Samovar), Nathan Mack, a pequena xícara quebrada Chip, Gugu Mbatha-Raw, o espanador Plumette, Audra McDonald, o guarda-roupa Garderobe, Stanley Tucci, o piano Maestro Cadenza, Kevin Kline, o pai de Bela, Maurice, e Hattie Morahan, a feiticeira Agathe.

O vilão Gaston é interpretado por Luke Evans, que atua de forma deslumbrante e incrivelmente semelhante ao original da Disney, além de adicionar uma bela e potente voz as músicas alegres dos camponeses. Finalmente, Josh Gad vive o “polêmico” personagem Le Fou, escudeiro que nutre uma paixão homossexual por Gaston e é o responsável por boa parte das gargalhadas e momentos engraçados da história. Certamente um elenco fenomenal, para um filme de igual característica.

Outra grande jogada do diretor Bill Condon foi a inclusão da maior parte, senão todas, das canções de Alan Menken e Howard Ashman do musical da Broadway, ornamentando o enredo com as emblemáticas músicas de A Bela e a Fera. Apesar de não cantar a versão original  de “Beauty and the Beast” ,de sua autoria, Céline Dion interpreta uma nova balada, “How Does a Moment Last Forever“, inserida no começo dos créditos, seguida da tão divulgada versão de Ariana Grande e John Legend da música principal. Você com certeza irá sair do cinema querendo ouvir toda a trilha sonora novamente, além de cantarolá-la incessantemente o resto do dia.

Por fim, a produção Live-Action de A Bela e a Fera é daqueles filmes que assistimos com um sorriso no rosto do início ao fim, além de lágrimas nos olhos de emoção e felicidade ao relembrar momentos da infância. Emma Watson encara um papel de grande responsabilidade e e com tamanha maestria se transforma na princesa de um dos principais contos de fada. A realidade com que a Fera é retratada e interpretada por Dan Stevens se encaixa no personagem assustador e solitário das histórias e ao lado de Watson, vivem o icônico casal de Walt Disney. Sem muitas mudanças no roteiro, o filme não poderia ter sido melhor, embalado por ótimas músicas e um elenco excepcional. Indubitavelmente dá vontade nunca mais sair da sala de cinema e revê-lo inúmeras vezes. Obrigada Bill Condon!

Crítica | Kong: A Ilha da Caveira surpreende por excelente fotografia e efeitos especiais

As expectativas para Kong: A Ilha da Caveira eram as mais baixas possíveis. Logo de cara, o filme pode parecer mais uma daquelas novas produções baseadas em histórias antigas (como o clássico King Kong de 1933, 1976 e 2005), apenas com efeitos e fotografias mais modernos. Sim, no começo percebemos que as semelhanças são inúmeras e como é possível ver no trailer, temos um gorila colossal atacando seres humanos em uma ilha desconhecida. As conformidades, porém, acabam por aí e trama desenvolve sua própria narrativa e características.

Um dos principais objetivos dessa nova franquia é trazer os mais jovens para o universo dos monstros gigantescos, trazendo um pouco dos clássicos e adicionando adrenalina, efeitos monstruosos e ação do início ao fim. O filme se passa em 1970, pós Guerra do Vietnã, onde soldados contam os segundos para retornarem a suas famílias e casas. Entretanto, uma última missão aparece quando o cientista Bill Randa (John Goodman) decide procurar um inimigo do passado em uma ilha ainda não explorada. Toda uma expedição é planejada e uma equipe de soldados é enviada para acompanhar, além do geólogo Houston (Corey Hawkins), da bióloga San (Jing Tian), do explorador James Conrad (Tom Hiddleston) e da fotógrafa antiguerra Mason Weaver (Brie Larson).

Logo no início conhecemos Kong, um dos grandes reis desconhecidos do mundo e protetor da Ilha da Caveira, localizada no meio do oceano e rodeada por tempestades monstruosas, mas incapazes de destruir um helicóptero. A partir daí, se inicia um show de fotografia e efeitos visuais por meio da criação de um lugar paradisíaco e isolado, habitado não apenas pelo nosso querido gorila, mas por outras espécies descomunais como lagartos, aranhas e polvos. Não demora muito tempo para a ação começar, e os primeiros seres humanos começarem a cair perante a ira do anfitrião e por consequência, do líder do exército Preston Packard (Samuel L. Jackson). Os soldados que acompanham Packard são vividos por Thomas Mann, Jason Mitchell, Shea Whigham, Eugene Cordero e Toby Kebbell, que interpreta também a versão digital de Kong.

Temos plena consciência de que nada ali é real, mas a veracidade como tudo nos é apresentado é surpreendente. Desde os mais singelos detalhes como pequenos insetos, até as criaturas maiores como Kong e os lagartos, são feitos com tanta maestria que motiva o público a continuar prestando atenção até o fim. A trupe embarca em uma aventura desconhecida, mas acaba por ter a experiência de suas vidas, principalmente quando elas terminam na ilha, afinal, não era de se esperar que o Rei ficasse parado quando bombas são lançadas em sua casa.

Kong: A Ilha da Caveira pode ser descrito como puramente cinema entretenimento, adotando um ritmo frenético do início ao fim. Não será aquele tipo de filme que muitos irão dormir, principalmente se for visto em uma sala equipada com telas panorâmicas, sons de última geração e qualidade 3D, aumentando ainda mais os efeitos impecáveis da parte técnica. Vale a pena investir um pouco mais no ingresso! Além disso, não apenas de ação é formada a trama, visto que o filme ironiza a si mesmo em diversos momentos, principalmente após a adição de John C. Reilly ao grupo. Cenas escalafobéticas levam o público a se divertir de maneira inteligente, não deixando claro se foi proposital ou se é apenas bobo, caracterizando o melhor tipo de ironia.

O que não se pode esperar é um roteiro denso e bem trabalhado. Não será uma produção indicada ao Oscar de Melhor Filme, por meio de um roteiro básico e raso, dependente dos trabalhos anteriores. Nos é oferecido exatamente aquilo que foi prometido no trailer, e nem mesmo a presença de atores como Larson, Jackson e Hiddleston é necessária, já que os mesmos não exercem todo seu potencial e seus personagens poderiam ter sido interpretados por qualquer um. Nos resta saber se eles estarão presentes em outras produções ou se serão substituídos por outros personagens.

Por fim fica uma reflexão: Quem é o vilão da história? O gorila, protetor e rei do lugar, ou os seres humanos que chegam bombardeando e tomando conta de uma terra que não é sua?

E uma dica, por mais que os créditos sejam bem longos, vale a pena esperar terminar.

 

Crítica | De maneira simples e criativa, Um Limite Entre Nós soube explorar a versatilidade de seu elenco

Existe melhor maneira de se adicionar qualidade a uma produção, do que escalando Denzel Washington para o papel principal? Existe, claro! É só colocá-lo ao lado de Viola Davis.

Há pouco menos de dois dias para a premiação mais aguardada para o mundo do cinema, Um Limite Entre Nós vem para nos provar que não é preciso muito para fazer um grande filme. Inspirado na peça da Broadway de mesmo nome, a produção conta com pouco mais de um único cenário para desenvolver sua história. Salvo alguns momentos, as cenas transitam entre o quarto, a sala, a cozinha e o quintal da casa de Rose e Troy, brilhantemente interpretador por Davis e Washington, respectivamente. Ele, um homem frustrado por não ter conseguido sucesso no beisebol, mas grato por ter um emprego que sustente sua família, mesmo que seja como catador de lixo. Ela, uma dona de casa apaixonada pelo marido e pelos filhos, disposta a aguentar de tudo para manter a felicidade entre eles.

Enquanto no teatro a peça levou diversos prêmios, como Pulitzer e Tony Awards, nos cinemas não foi diferente. Além de ter 4 indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme e Melhor Ator, Viola Davis conquistou todos aqueles a que foi indicada.

Troy é o personagem central, presente em quase todos as conversas e cenas mesmo quando a pessoa física não está. Honrando o original teatral, a obra é rica em diálogos extensos e espontâneos, feitos com tanta naturalidade que parecem não terem sido ensaiados. Esses tipos de interações, principalmente entre o casal e entre Troy e Bono (Stephen McKinley Henderson), são as que pouco a pouco vão moldando o roteiro e desenvolvendo a narrativa. Denzel tem seus grandes momentos durante a trama, como enquanto conversa com o filho mais velho, acaba descrevendo o relacionamento que seu personagem tinha com o pai, e tudo que aconteceu por consequência de suas atitudes.

Apesar de todo o lado amargo e desacreditado de Troy, a versatilidade de Washington consegue transformá-lo de um homem raivoso para um brincalhão em questão de segundos, ou seja, conseguimos amá-lo e odiá-lo rapidamente. Troy é frustrado com a vida e desconta suas desilusões na família, a quem ele trata como uma extensão do trabalho. Alimentar os filhos e a esposa, manter um teto sob suas cabeças e lhes prover roupas para vestir, é uma questão de dever e/ou obrigação, e não de sentimento entre um pai e um marido. Palmas e mais palmas para Denzel Washington, que conseguiu com tamanha fluidez interpretar um personagem complexo e instável.

Rose, por outro lado, entra para contrabalancear o lado fervoroso do marido. Por meio de uma atuação estupenda de Viola Davis, a personagem não faz grandes esforços para causar impacto. Risadas fáceis e gostosas, olhares carinhosos e momentos familiares são o que caracterizam a mulher forte, batalhadora e simples que é Rose, mas que ganham vida nos trejeitos de Viola. Mesmo quando achamos que toda essa fortaleza irá se desmanchar na revelação de Troy, o casal dá uma aula de encenação e nos surpreende mais uma vez, com o momento auge do filme. Rose e Troy não são os únicos personagens memoráveis em Um Limite Entre Nós. Mykelti Williamson, que interpreta o irmão de Troy com condições psicológicas debilitadas, faz um incrível trabalho ao interpretar Gabriel e não pode deixar de ser mencionado. Gabe é ingênuo e só quer ver seu irmão feliz, mesmo que recorra a maneiras erradas para deixar isso claro.

O que as cercas representam? Essa é a pergunta que o filme nos deixa no final e nos instiga a pensar em sua resposta. Cada personagem as encara de forma diferente, refletindo claramente suas personalidades. Uma pena que o título em português tenha, mais uma vez, se desvirtuado tanto do título original, que se encaixou perfeitamente. Com uma linda história e um elenco fenomenal, Um Limite Entre Nós é uma produção memorável do diretor e protagonista Denzel Washington.

Crítica | O direito de amar é o foco no ótimo drama Loving

A segregação racial e os direitos civis da população negra são temas bastante pertinentes, que já renderam ótimas histórias nos cinemas. Muitos desse filmes como o recente Selma – Uma Luta pela Igualdade traziam a bandeira política e destacavam os vários conflitos.

Jeff Nichols, dos excelentes O Abrigo, Amor Bandido, mostra uma luta diferente em Loving, drama inspirado em fatos. Nesse longa, o diretor mostra um casal lutando pelo direito de amar, de constituir uma família.

A trama ambientada na década de 60 acompanha Richard Loving (Joel Edgerton) e Mildred (Ruth Negga), um homem branco e uma mulher negra que estão apaixonados e decidem se casar na Virginia, nos Estados Unidos, mas são presos por infringirem as leis contra a miscigenação. Forçados perante o júri a se declararem culpados para evitar uma pena maior, o casal é forçado a abandonar o estado no qual suas famílias residem, vivendo como exilados em Washington.

Parece difícil de acreditar um casal impedido de se unir matrimonialmente. Mas, era exatamente assim que funcionava no período de extremo conservadorismo. E o mais difícil de acreditar é que essa atrocidade histórica completou apenas 50 anos. E se trazermos para os dias de hoje, o preconceito racial continua evidente. Basta recordar casos recentes como do ator Bruno Gagliasso que mostrou com orgulho a sua filha adotada ao lado da esposa, mas que sofreu ataques raciais por ela ser negra.

Não buscando arrancar lágrimas e apostar no melodramático, Jeff Nichols aposta de forma eficaz no tom sóbrio e abordar com simplicidade o drama dos Loving. Talvez, isso possa incomodar para aqueles que esperam mais dramaticidade.

As atuações de Joel Edgerton e Ruth Negga são admiráveis e dignas de premiações. Interessante perceber que a persona de Edgerton com o cabelo oxigenado que destacam seus olhos azuis, mais parece um supremacista branco. Mas, na primeira cena percebe-se a gentileza e a humildade do rapaz, que demonstra uma “ignorância” em não saber o que é segregação racial. Richard Loving é apenas um homem que revela imenso amor pela esposa e só isso importa pra ele. Já Ruth Negga interpreta Mildred de forma fascinante, começando o longa como uma mulher amedrontada e passiva, mas revela ser a grande voz do casal pelos seus direitos.

Loving é um drama tocante que nos leva a refletir: Será que avançamos como sociedade? Se há um tempo atrás um casal interracial era impedido de casar, o que dizer de hoje em relação aos direitos LGBT? Ao ver o filme a resposta que fica no consciente é: Ainda estamos engatinhando.

 

Crítica | A Lei da Noite é um trabalho incompleto de Ben Affleck

Sempre subestimado, Ben Affleck mostrou ser muito mais que um típico galã de Hollywood. Desde que passou a assumir a função de diretor com Medo da Verdade (2007), o ator mostrou uma excelência por trás das câmeras comprovadas com Atração Perigosa (2009) e Argo (2012), o último proporcionando-lhe o Oscar de Melhor Filme.

Com bons filmes, mais desafios surgem. E o projeto dos sonhos de Affleck sempre foi adaptar A Lei da Noite, romance de 2012 de Dennis Lehane, autor de Medo da Verdade. Com esse projeto, a Warner Bros. (parceira de todos os filmes do ator) esperava mais um filme vistoso aclamado pela crítica e que estaria entre os favoritos do Oscar 2017. Acabou que foi tudo por água abaixo e a produção resultou em um prejuízo de U$75 milhões para o estúdio. A Lei da Noite pode ser resumido em um filme com boas intenções, um visual noir incrível, mas que soa incompleto. Um longa que caminha sem um desfecho.

Estrelado e dirigido por Ben Affleck, o filme bebe da fonte do gênero gângster, que gerou grandes obras marcadas por cineastas como Martin Scorsese, entre outros. Affleck tenta resgatar essa atmosfera e consegue. O início do filme situado em seu personagem é um dos pontos fortes do filme.

Situado entre as décadas de 1920 e 1930, a história segue Joe Coughlin (Affleck), o filho prodígio do capitão de polícia de Boston (Brendan Gleeson). Depois de se mudar para Ybor City, Tampa, Flórida, ele se torna um contrabandista de bebidas alcoólicas e, mais tarde, um notório gângster.

O filme constrói com eficiência o cenário da época fazendo o parâmetro entre o crescimento da cidade com o surgimento do crime organizado, a força oculta do Ku Klux Klan, jogos de azar e o comércio ilegal de bebidas alcoólicas. Com tudo vindo fácil, Joe Coughlin se vê seduzido a entrar nesse mundo, onde percebe um caminho mais fácil para uma vingança pessoal. Há interessantes discussões no primeiro ato sobre caráter entre Joe e seu pai. Os diálogos entre os dois são executados de forma sublime.

A grande falha do filme é não aceitar o lado obscuro do protagonista. Affleck tenta fazer de Joe um herói incompreendido, que se sente forçado a combater seus rivais, pois eles que são os bandidos. Enquanto A Lei da Noite poderia seguir os passos de Boardwalk Empire em que os fins justificam os meios, o filme se apresenta apenas como um conto moral com o bandido começando a se dar conta de seu papel violento na sociedade, e, assim, busca ser o mocinho da vez.

Ao final, A Lei da Noite é um filme ambicioso, que soava ser o grande trabalho da carreira de Ben Affleck. Contudo, a pretensão do ator e diretor se tornou um filme que introduz com eficiência várias temáticas interessantes, mas que não são concluídas da mesma forma. Uma produção marcada por erros e acertos.

Crítica | Logan é visceral, brilhante e revolucionário

Os filmes dos X-Men nunca foram unânimes. A maioria sempre dividiu opiniões de críticas e do público ao longo dos anos, e Logan veio para quebrar esse parâmetro com a mesma facilidade com que se rasga papel molhado. O novo filme do carcaju é um respiro para o gênero de heróis, trazendo um enredo louvável, recheado de drama e ação visceral. Os fãs, tais como Hugh Jackman, podem se sentir representados – e aliviados – com a despedida do personagem interpretado pelo australiano. Como o próprio ator disse na coletiva de imprensa: “Este é o filme que imaginei e tornou-se realidade, mesmo após tantos anos”.  A discrepante tonalidade com os predecessores é notada na cena inicial, onde vemos Wolverine tendo seu sono perturbado por arruaceiros que tentam furtar peças de sua limusine. A prossecução mostra a decorrência dos anos no corpo de adamantium, que o tornou lento e reduziu seus poderes regenerativos, ou seja, a luta corpo-a-corpo é próxima, brutal e dura de assistir. Membros decepados e crânios perfurados são um mero atrativo para uma história bem desenvolvida que soube discutir de forma sutil a dualidade do Wolverine.

Baseado nos quadrinhos de Velho Logan (Old Man Logan), a trama do filme se passa no ano de 2029, com os poucos mutantes que restaram no mundo escondidos num cenário pós-apocalíptico. Isso inclui o próprio Logan e Charles Xavier (Patrick Stewart), que se homiziaram na fronteira com o México. O velho carcaju agora trabalha como chofer, divagando pela cidade e servindo humanos, com o intuito de assomar lucro para abandonar a terra firme, e prover medicamentos para conter a mente mais poderosa do mundo em deterioração. Mesmo que o início mostre a dureza cotidiana dos mutantes, o enredo prova que a vida, do dia para a noite, pode piorar o que já estava péssimo. O advento de uma nova mutante, Laura (Dafne Keen), muda para sempre a vida dos dois, forçando-os a postergar a zona de conforto e enfrentar os demônios do passado como forma de aprendizado para lidar com o presente.

O diretor James Mangold, de forma exímia, acerta na forma que conduz o longa-metragem e nas nuances sutis do roteiro. Nota-se que ele entendeu e respeitou o personagem do início ao fim da produção, tanto pelos diálogos bem escritos como na forma que conduziu o veterano Hugh Jackman durante as gravações. É interessante ver a forma em que James utiliza a metalinguagem no perpassar da narrativa, tendo as revistas em quadrinhos como ponto chave dessa ideia. Laura, como qualquer criança, agarra-se na esperança emanada pelas histórias e crê que sua salvação está diretamente ligada a elas. Logan, por outro lado, despreza a fantasia e repete veementemente que o mundo real é o oposto da ficção. O conflito assíduo entre ambos é outro elemento bem explorado. A convivência serve como crescimento natural de suas personalidades; um busca salvação para ter liberdade; outro busca redenção para a alma enclausurada, que sofre pelas vidas ceifadas por suas garras. Além da relação entre os protagonistas e além mesmo da metalinguagem, o diretor coloca Logan contra seu próprio passado, de forma literal e figurativa. O velho integrante dos X-Men passou o decorrer de sua trajetória atormentado pelo propósito de sua criação, mas aprendeu a lidar (ou apenas sentiu-se anestesiado) com o passar do tempo. James traz à tona esse embate, colocando Logan contra seu antigo eu desalmado, mostrando o contraste da evolução do personagem desde sua primeira aparição nos cinemas.

O elenco condecorado acompanha a ambição do roteiro. Todos os intérpretes trabalharam de forma opulenta, mas os destaques ficam por conta de Patrick Stewart, Dafne Keen e, claro, Hugh Jackman. O desempenho da atriz mirim é admirável, fazendo a X-23 roubar o brilho das câmeras sempre que entra em ação. A personalidade taciturna e selvagem é decifrada com suas expressões, pouco necessitando de diálogos. Por outro lado, Patrick traz uma brilhante visão do que seria um Xavier com a mente danificada. Quando não ingere seus remédios, aborda assuntos sem sentido e age de forma exorbitantemente divergente do que estamos acostumados; a postura de homem sábio se esvai nesses momentos e é retomada quando anestesiado pelos medicamentos. Hugh Jackman, acostumado a interpretar o Wolverine, traz uma nova faceta ao mutante imortal: sua velhice na forma de andar e o semblante de dor estão presentes em (quase) todo percurso do filme, sendo substituído quando adota sua particularidade selvagem. Caliban (Stephen Merchant) está irreconhecível debaixo da maquiagem e de uma performance exemplar. Os vilões Pierce (Boyd Holbrook) e Doutor Rice (Richard Grant) não deixam nada a desejar, mesmo que o foco do enredo esteja nas relações e nos conflitos do protagonista.

Logan pode ser considerado uma película stand-alone, tornando-se acessível para as pessoas que não acompanharam a saga desde o início. O público pode entrar na história sem medo de perder-se, pois poucas são as citações ao passado dos mutantes, tanto como sua extinção. O foco, mais uma vez, está nos dramas pessoais de Wolverine e no seu crescimento ao lado de Laura, que se desenvolve como um clássico road movie. Logan torna-se um marco por saber utilizar muito bem sua alta censura na forma de contar uma história madura, deixando o clichê de que filmes de heróis precisam ser divertidos e coloridos de lado. Arcos dramáticos e uma carnificina que receberia elogios de Quentin Tarantino assomam qualidades pontuais ao longa-metragem. A trilha sonora e a paleta de cores utilizada na fotografia acrescem a trama adulta, enchendo os olhos dos aficionados por detalhes. O único pesar ao deixar a sessão é ter em consciência que esta é a despedida de Jackman. Posto isso de lado, é necessário exaltar que James e Hugh dobraram as mangas e trouxeram para os fãs o filme definitivo e primoroso do Wolverine: visceral, brilhante e revolucionário.

Crítica | Elle é um drama brutal com uma performance magnética de Isabelle Huppert

Paul Verhoeven ficou marcado por filmes de violência inabalável, que exploram o sexo e um senso de humor quase cruel. Filmes como RoboCop e O Vingador do Futuro causaram impacto com a violência brutal. O cineasta sempre deixou bem claro para esperar o inesperado em suas produções. Contudo, o diretor fora crucificado com o horrível Showgirls (1996) e incompreendido com o subestimado Tropas Estelares (1997).

O drama Elle, o primeiro em língua francesa do diretor, marca a sua volta em grande estilo. Claro, o filme gerou controvérsia por tratar de um tema delicado: o estupro. A sequência inicial já mostra ser um filme diferente. Sobre uma tela preta, ouvimos sons de um ataque com a chocante cena de estupro de Michele (Isabelle Huppert) por um invasor mascarado. Quando o estupro termina, Michele não liga para a polícia, não entra em desespero, ela recolhe os objetos quebrados em sua residência e começa a pensar no dia seguinte como se nada tivesse acontecido.  Seria Michele uma vítima passiva? Porque ela não reage e busca denunciar o seu agressor?

É aí que Elle busca fugir do mais do mesmo. Não é um longa sobre vingança ou sobre alguém sofrendo por um ato tão horripilante. Compreendemos (ou não) Michele quando acompanhamos o seu cotidiano: uma relação complicada com a mãe e uma tentativa de alertar o filho sobre sua companheira interesseira. De cara, Michele não faz perfil de vítima ou coitadinha quando no trabalho como chefe executiva de uma empresa de videogames, ela sabe o quão difícil é chegar ao topo de sua profissão com a maioria dominada por homens. Quando um empregado a desrespeita no trabalho ela não demonstra fraqueza, vai atrás de investigar o funcionário para se aproximar ainda mais dele com as informações que consegue.

O longa busca responder a personalidade difícil de Michele quando é revelado que em sua infância sofrera violência e abusos do pai, que deixou uma marca permanente. A partir daí, ela criou um escudo protetor. Diante disso, ela  não aceita ser controlada, não aceita compromissos com alguém. Depois do divórcio, mantém uma relação próxima do ex-marido, que ainda sente algo por ela. Mas ela se recusa a ser controlada. Seu caso de meses é apenas por algo sexual, abrupto, um prazer que some minutos depois do coito. Ao buscar compreender o porque dela não denunciar seu estuprador, que volta a violenta-la e envia SMS’s, fica evidente que ninguém é capaz de machucá-la depois de tudo que enfrentou, nem mesmo seu estuprador. Ceder seria um reconhecimento de que essas pessoas têm algum controle sobre ela.

Nada disso seria compreensível se não fosse Isabelle Huppert, que entrega uma performance magnética, impactante e devastadoramente emocional.  É percebido em seu olhar uma tremenda força para segurar todo o ódio e a raiva nos ombros. Quando a ferida é cutucada, vemos sua real face. Huppert consegue trabalhar esses dois lados de Michele com extrema maestria. Uma atuação que não se compara com suas candidatas ao Oscar de Melhor Atriz.

Elle é um filme áspero e não convencional, pois ele força a compreender o mais sombrio comportamento humano: a luxúria, a violência. Ele ousa em mostrar que o estupro pode não ser a origem de um trauma, mas resposta para superar um trauma ainda maior. Instigante, poderoso e brutal, um grande retorno para o esquecido Paul Verhoeven.

Crítica | Com excelentes atuações, A Qualquer Custo é um clássico faroeste moderno

Filmes western renderam ótimas produções em Hollywood ao longos dos anos. Mas, há muito tempo que não se via um ótimo faroeste, talvez o último tenha sido Bravura Indômita dos irmãos Coen, que foi um remake do filme da década de 60. A Qualquer Custo, longa que recebeu 04 indicações ao Oscar, atualiza o gênero e entrega um clássico faroeste moderno.

Ambientada no Texas nos dias atuais, o filme mostra que muita coisa não mudou na cidade natal do ex-presidente Bush. Lá, parece que as pessoas não avançaram. São rudes, ignorantes, andam armadas livremente e não aceitam quaisquer tipo de diferenças.  A montagem do filme faz um interessante balanço que Texas consegue ser bela com incríveis paisagens, mas ao mesmo tempo desértica e assustadora pela hostilidade presente, muito se devendo a pobreza pós-crise financeira que assolou em 2008.

A pobreza acaba sendo motim dos irmãos Toby Howard (Chris Pine) e Tanner Howard (Ben Foster). Toby é um pai divorciado e Tanner um ex-presidiário que perderam a fazenda da família em West Texas e decidem assaltar um banco como uma chance de se restabelecerem financeiramente. Porém, eles acabam cruzando o caminho de Marcus Hamilton (Jeff Bridges), um Texas Ranger que está para se aposentar e decide cumprir seu dever para a cidade uma última vez.

O cineasta David Mackenzie explora com eficiência a sociedade texana. Através de diálogos preconceituosos e humor negro, Marcus Hamilton representa alguém preso no tempo, que não aceita o “admirável mundo novo”. Ele continua com um pensamento arcaico e não pensa duas vezes em soltar piadas de mau gosto contra Alberto Parker (Gil Birmingham) por ser de origem indígena. Não deixa de ser uma crítica para moradores da cidade que continuam com um linha de raciocínio estreita. Pessoas essas que exaltam Donald Trump por trazer em sua campanha o slogan “make America great again”, que significa nada menos do que nós primeiros e depois os outros.

As atuações de Bridges e Foster são ótimas, mas que não surpreendem por apresentar semelhanças com os respectivos papeis em Bravura Indômita e Os Indomáveis. Entretanto, é Chris Pine que entrega uma performance que foge da zona de conforto. Aqui ele demonstra alguém endurecido pelo ambiente que vive e que se vê forçado a abraçar o lado negro. Toby representa o homem pacato que está cansado de ver injustiças ao redor. Suas motivações são levadas pelo desespero, enquanto seu irmão Tanner é motivado apenas pela adrenalina.

Com uma incrível trilha sonora de Nick Cave e Warren Ellis, A Qualquer Custo é um faroeste contundente e ágil sobre uma cidade melancólica, desolada, onde não existe mocinhos e bandidos. Uma obra ficcional, mas nem por isso menos verídica.

Crítica | John Wick: Um Novo Dia Para Matar supera o primeiro filme, mas não surpreende

A continuação de De Volta ao Jogo (2014) veio para aumentar não apenas a qualidade de seu antecessor, como também o número de tiros, lutas e corpos. O filme cumpre aquilo a que veio oferecer, sem surpresas, mas consegue superar sua produção anterior e divertir o espectador. John Wick: Um Novo Dia para Matar transborda ação do início ao fim, com cenas meticulosas e bem trabalhadas, além de comprovar o sucesso da nova franquia de Keanu Reeves, após dois fracassos em filmes do gênero.

Logo de cara nos vemos envolvidos em uma cena de ação, onde Wick persegue enlouquecidamente um motociclista pelas ruas de Nova York. No melhor estilo Velozes e Furiosos, a perseguição acontece em ruas movimentadas e em meio ao trânsito, com manobras calculadas por parte do espião. O objetivo de tudo isso? Recuperar seu carro, roubado no primeiro filme da franquia. A grande sacada do diretor Chad Stahelski foi saber o momento certo de introduzir a comédia em meio a cenas de tensão, não tornando a obra pesada e maçante, mas sim captando a atenção de quem a assiste.

Apesar de títulos diferentes, o segundo filme começa pouco depois de onde o primeiro terminou. John Wick busca vingança pela morte de seu cachorro e pelo roubo de seu carro, e não desiste da missão até conseguir completá-la. Wick vê seu desejo pela aposentadoria explodir junto com sua casa, e percebe que ainda está longe de conquistar seu tão sonhado descanso. A história se desenrola a partir daí e o personagem cético e fechado “volta ao jogo” para uma última missão, envolvendo a Alta Cúpula italiana e o desejo por poder. Por ser o melhor matador profissional do momento, Wick é requisitado por Santino D’Antonio e obrigado a pagar uma dívida antiga, velada a sangue.

A trama alterna entre Roma e Nova York, onde o famoso hotel Continental está presente em ambos os locais. A influência de Wick é um dos pontos cômicos da produção, onde o espião consegue recuperar em minutos o que foi perdido na explosão de sua casa. Desde um sommelier com um estoque de armas de dar inveja até mesmo a James Bond, a uma rede de mendigos assassinos e altamente armados, o espião conta com a cobrança de favores e ameaças para sobreviver. Os personagens do primeiro filme permanecem, e figuras novas são adicionadas como Riccardo Scamarcio, Ruby Rose, Common ( Lonnie Rashid Lynn Jr ) e Laurence Fishburne, propiciando o aguardado reencontro entre Neo e Morpheus.

Alguns detalhes bizarros deixam a produção um pouco a desejar, como a impressão de que boa parte da população mundial é composta de assassinos, ligados por uma rede de comunicação via SMS. Esses detalhes, porém, são o que mostram ao espectador o tipo de filme a que estão assistindo. Não devemos esperar algo muito divergente do primeiro filme, mas sim algo maior e melhor, com momentos em que parece estarmos em um video game e acreditem, isso é um ponto positivo.

Apesar de ser um ator subestimado, outra pessoa não poderia ter interpretado John Wick, além de Keanu Reeves. O lado sombrio e vingativo do personagem contrasta com a expressão blasé de Reeves, trazendo uma característica singular a todo o enredo. Wick é metódico, organizado e extremamente forte, beirando a imortalidade em alguns momentos, razão pela qual é tão respeitado por outros assassinos. Felizmente, tudo indica que um terceiro filme está a caminho, alcançando um terceiro degrau na ordem crescente de perigo enfrentado pelo espião. Da máfia russa, a todos os assassinos de Nova York, para praticamente todo o planeta. Não é preciso pensar muito para saber quem sairá vitorioso nesse confronto: o cachorro, lógico.

Dito isso, tenho um pedido a fazer a aqueles responsáveis por escalar os atores de filmes: apenas parem de colocar Ruby Rose para fazer papéis aleatórios, em filmes aleatórios. Estamos em fevereiro e já a vimos em três produções cinematográficas distintas, nas quais não oferece nenhum diferencial significativo.

 

Crítica | Lion – Uma Jornada para Casa é uma tocante jornada que inspira coragem e determinação

Mais de 80 mil crianças se perdem por ano na Índia. Algumas tiveram um final feliz, mas muitas sofreram com as mazelas do país, passando pelas piores situações possíveis. Saroo Brierley foi uma dessas crianças com final feliz e, sua história real foi adaptada para as telonas em Lion – Uma Jornada para Casa, produção que inspira coragem e determinação.

Escrito por Luke Davies adaptado do livro de memórias A Long Way Home, a trama acompanha a jornada do indiano Saroo, uma criança de 05 anos que se perdeu do irmão numa estação de trem de Calcutá e enfrentou grandes desafios para sobreviver sozinho, até ser adotado por uma família australiana. Incapaz de superar o que aconteceu, aos 25 anos ele decide buscar uma forma de reencontrar sua família biológica usando a ferramenta Google Earth.

A performance tremendamente maravilhosa de Dev Patel é a alma resiliente do filme tamanha a paixão e emoção entregados em cada cena. É sentido em sua postura o fardo que carrega por desconhecer suas raízes, algo que o consume por dentro, a ponto de mudar a forma de relacionar-se com a família adotiva. As comparações com Quem Quer Ser Um Milionário?, filme que o lançou em Hollywood, serão iminentes. De fato, há muita semelhança na sequência inicial com a abordagem da pobreza das crianças na Índia com o filme de Danny Boyle. Mas enquanto esse filme era carregado de energia e com musicais, Lion – Uma Jornada para Casa é algo bem diferente – uma visão sóbria e profunda sobre a importância da família, das raízes, da identidade e do lar.

Mas, sem dúvidas, a atuação do jovem Sunny Pawar é apaixonante e surpreendente como Saroo na infância. O notável garoto consegue tirar algumas lágrimas tamanho o sofrimento que enfrenta, mas encarando tudo na esperança de reencontrar sua família. Nicole Kidman e David Wenham interpretam de forma soberba Sue e John Brierley, os pais adotivos de Saroo. Os únicos papeis problemáticos são de Rooney Mara como Lucy, o interesse amoroso de Saroo. O romance entre os dois é mal desenvolvido, sendo apenas justificado para que Saroo conheça o Google Earth. O outro ponto pouco explorado é Mantosh, o segundo indiano adotado pela família australiana. O personagem é apresentado apenas como um garoto problemático e durante a narrativa acaba sendo ignorado.

A fotografia de Greig Fraser enquadra as magníficas paisagens em toda a robustez e beleza da Índia e Austrália. Com tomadas aéreas que deixa uma vontade de conhecer esses países, alguns takes passam com eficiência o ponto de vista de Saroo diante da muvuca de pessoas na Índia e na descoberta do novo e belo paraíso australiano.

Mesmo estreante como diretor, Garth Davis demonstra sutileza em abordar um drama real sem exagerar no melodramático. São em cenas simples que sua direção consegue uma emoção espontânea. Desde a habilidade de nos colocar dentro da cabeça de um garoto de cinco anos quando conhece pela primeira vez a Austrália e encontra seus pais adotivos, até o primeiro contato de Saroo com coisas banais como a televisão ou uma geladeira. Tudo é apresentado de forma magistral.

Por fim, Lion – Uma Jornada para Casa é um drama tocante sobre a busca de nossas origens e da importância de enfrentar nossos demônios internos para seguir em frente e nos encontrar como pessoas. A mensagem social durante os créditos finais busca conscientizar sobre o que acontece na Índia e em outros países mais pobres. O caso de Saroo terminou da melhor forma possível. Mas difícil não ficar imaginando que outras crianças por aí não tiveram a mesma sorte que ele.

Crítica | A Cura: um bom suspense com final questionável

“Fulano larga tudo para viajar pelo mundo; casal deixa carreiras promissoras e vai se aventurar…”, há um tempo notícias como essas chamam atenção na imprensa, afinal, os corajosos que ousaram abandonar a pressão de um mundo cada vez mais caótico são admirados (invejados). Em A Cura (A Cure For Wellness), foi isso que aconteceu com o chefe de Lockhart (Dane DeHaan), que resolveu se isolar em um refúgio de bem-estar nos Alpes suíços enquanto sua companhia milionária passava por um processo de fusão.

Lockhart, que para conseguir uma promoção, descumpre leis tributárias que poderiam levá-lo à cadeia, foi enviado para buscá-lo, mas logo percebe que o tal Spa, está mais para hospício com tratamentos suspeitos e pessoas que aparentam uma certa dormência. No caminho até lá, ele descobre uma espécie de lenda sobre o terreno onde a instalação foi construída, que gera o ódio do povo local contra o retiro. Se você está esperando um filme de terror, por conta do diretor ser Gore Verbinski (O Chamado), anime-se para um suspense que intriga em boa parte do filme.

A presença de Hannah (Mia Goth), uma jovem introspectiva que difere muito dos demais pacientes, em sua maioria idosos, é mais um impulso que faz Lockhart querer desvendar os segredos do lugar, mas ele encontra muitas barreiras na equipe do Dr. Volmer (Jason Isaacs), que está parecido com o personagem que fez em The OA da Netflix, quem já assistiu vai notar as semelhanças dos cientistas interpretados por Isaacs.

Por mais que não seja um filme de terror, há momentos realmente aterrorizantes, cenas que despertam desconforto e vão testando a sanidade de Lockhart junto com a do espectador. Será mesmo que ele não está enlouquecendo e tudo de absurdo que acontece por ali não passa de alucinações de sua mente? Os detalhes fazem a diferença na hora de amarrar os fios soltos.

O problema é que todo o mistério e o pano de fundo que dão à história, não fazem parte do quebra-cabeça, mas sim são o próprio quebra-cabeça. Me incomoda um pouco que as respostas venham ser mais para o lado fantástico (falando do gênero fantasia mesmo), em um filme com questões tão humanas como o questionamento do modo de vida vigente e a loucura do dia a dia, que leva as pessoas a quererem uma cura. O desfecho tem um toque sobrenatural e deixa um gosto amargo.

Distribuído pela Fox Film do Brasil, a estreia acontece em 16 de fevereiro.

Crítica | Moonlight: Sob a Luz do Luar – um drama profundo sobre a jornada da aceitação pessoal

A escolha de Moonlight: Sob a Luz do Luar como Melhor Drama no Globo de Ouro, me fez querer ver ainda mais o filme com a participação do ator sensação do momento Mahershala Ali, que após as produções da Netflix: House of Cards e Luke Cage, tem sido escalado para papéis em filmes. Mas, eu não esperava que a história de um garoto poderia ser tão perturbadora e tocante.

O filme é uma jornada em torno da vida de Chiron, que na trama, passa por três fases: infância em que faz uma amizade, um tanto paternal, com o traficante Juan (Mahershala Ali), adolescência em que sua sexualidade, já questionada na infância, é explorada com o amigo Kevin, e vida adulta, onde em busca de si mesmo, acaba em uma caminhada muito parecida com a única figura paterna que teve na infância, Juan. O protagonista é vivido por três ótimos atores, que conseguem passar toda a instrospecção e luta interna vivida por ele, Alex R. Hibbert (infância), Ashton Sanders (adolescência) e Trevante Rhodes (adulto).

A mãe de Chiron é viciada em drogas. Paula é muito bem interpretada por Naomi Harris e, é a responsável pela vida do garoto não ter uma rotina ou mesmo qualquer tipo de segurança que um lar deveria oferecer. Com o passar do tempo, percebemos o quanto o vício da mãe interfere na vida de Chiron. E ao descobrir que Juan é o traficante que fornece drogas à mãe, um rompimento importante acontece dentro do menino, mais um. Só Teresa, em mais uma ótima participação de Janelle Monáe nos cinemas, é uma constante, a namorada de Juan, acaba sendo o único refúgio do garoto.

A obra é inspirada em um projeto de faculdade do dramaturgo Tarell Alvin McCraney, “In Moonlight Black Boys Look Blue” e é uma grande crítica social, humanizando clichês tão batidos como o jovem pobre negro, o traficante e a mãe viciada. A violência e preconceito são velhos conhecidos do protagonista, andando junto com sua história. Enquanto lida com seus conflitos internos, a sociedade o expõe de uma maneira maldosa. No caminho de Chiron não há uma redenção ou mesmo definição, as coisas ainda estão por se revelar, aos poucos. Na fase adulta, em que ele se encontra tentando se desvencilhar do passado, mas ao mesmo tempo, fruto dele, é indicado que talvez, o amor e a aceitação, possam fazer com que finalmente sua vida flua.

Um dos favoritos ao Oscar, o filme estreia em 23 de fevereiro no Brasil, exibindo uma figura muito pessoal, mas ao mesmo tempo, universal da eterna caçada pelo descobrimento pessoal, aceitação e a solidão deste caminho. Ao ver  “Moonlight”, não é preciso ser pobre, negro, traficante ou gay para entender a jornada de Chiron, é preciso apenas ser  humano.