Ler é bom vai! | Azeitona, um romance que vai fazer você rir e chorar!

azeitona-livroConfesso que quando fiquei sabendo que o youtuber Bruno Miranda iria escrever um livro isso me animou, pois acompanho o seu canal já tem algum tempo. Ao mesmo tempo em que fiquei feliz por ele lançar o livro, eu me preocupei. Lançar um livro por si só já uma grande dificuldade, quando você faz vídeos para o Youtube, parece que essa dificuldade é multiplicada por dois, visto que muitos livros de youtubers recebem inúmeras críticas. Porém, Azeitona veio para superar minhas expectativas.

O livro conta a história de Ian, um garoto normal de dezesseis anos que tinha duas preocupações em sua vida: estudar e dar aulas de tênis. Assim como lemos em outros livros, Ian não é o cara mais popular da escola, as meninas não se matam para ficar com ele e muito menos para que ele as convidem para sair. Ian é como a maioria dos meninos na escola, sabendo que o único objetivo é passar de ano. Somos apresentados a Emília, uma garota que está no top dez das meninas mais bonitas da escola, aquela menina ‘inalcançável’ para o menino que quer se passar despercebido. Inicialmente você pode imaginar que o livro é um grande clichê, como a maioria dos romances lançados, mas é aí que você se engana. Azeitona tem cara de ser uma comédia romântica ou um sitcom que faria muito sucesso.

A história do casal principal Ian e Emília é um pouco mais complicada do que vocês imaginam, já que o protagonista é convidado para participar de um reality show chamado Novos Pais, onde jovens casais que estão ‘grávidos’ mostram como é a sua rotina até o parto da criança, só que há um pequeno detalhe nisso, Ian e Emília não estão grávidos e muito menos são um casal. É a partir daí que a história começa a se desenrolar, pois eles precisam manter essa mentira por seis meses até que o filho ou filha dos dois nasça. O desenrolar da história é uma verdadeira loucura, você vai rir (muito, de verdade eu nunca ri tanto lendo um livro), também vai chorar (sim, tem um plot twist nesse livro que você fica até apreensivo ao continuar lendo) e vai amar muito esses dois.

Não podemos esquecer de outros personagens que também são importantes nesta história, como Iris a irmã mais velha de Ian, que cuidou dos dois desde que sua mãe faleceu e seu pai os abandonou (isso nem é spoiler, pois está na contracapa do livro ok!?), temos também Catarina, uma produtora extremamente bipolar, Lisa, uma amiga de infância que tinha se afastado de Emília, mas que a reencontrou pelo fato de também participar do programa, Gael, o verdadeiro namorado de Emília e Caio, o aluno de tênis e amigo de Ian. Em Azeitona também somos recheados de referências à cultura pop, algo que nos deixa ainda mais próximo aos personagens, por ser uma coisa que você provavelmente deve fazer.

Azeitona é a prova que criadores de conteúdo e influenciadores pode sim fazer um ótimo trabalho, que não é sua profissão que te faz um ótimo profissional, mas sim sua dedicação em fazer um ótimo trabalho.

Onde Comprar: Cultura / Saraiva / Submarino

Review: O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares

Capa orfanato para criTítulo: O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares

Série: Srta. Peregrine

Autor(a): Ransom Higgs

Editora: LeYa

Páginas: 336

Ano de Lançamento: 2015 (2ª edição)

Onde Comprar: Cultura / Saraiva / Submarino


Aventura, romance e ação na medida certa.  

Em O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares nos mostra como Ransom Higgs é um gênio da literatura infanto-juvenil. Quem poderia dizer que algumas fotos peculiares inspirariam alguém a escrever um livro tão envolvente.

O livro que possui 336 páginas conta a história de Jacob Portman, um adolescente que viaja com seu pai em busca de respostas. Ao sermos apresentados a Jacob notamos que ele é um garoto comum, que não tem muita expectativas na vida e que provavelmente quer ter sua vida tranquila. Quando criança o jovem era apaixonado pelas histórias que seu avô Abraham Portman contava, essas histórias envolviam pessoas com dons que até então todos achávamos que só existiriam em contos de fadas. Conforme os anos foram passando e Jacob crescendo, ele deixa de acreditar que essas histórias são reais e as trata apenas como um conto de fadas. Um dia enquanto trabalhava ele recebe o telefonema de seu avô e é ai onde começa a toda a reviravolta da vida de Jake.

A reviravolta é o ponto em que começamos a realmente adentrar e conhecer mais do que são as crianças peculiares que o título nos fala, pois é o momento em que Jacob começa a investigar se as histórias que o vovô Portman eram reais, tendo até que viajar com seu pai para a cidade onde seu avô cresceu. E é neste momento que você começa a ficar apreensivo, pois você fica se perguntando quem são aquelas crianças que estão nas fotos que são mostradas no inicio do livro, o que elas podem fazer e quais seus nomes. Demora um pouco até sermos apresentados ao orfanato da Srta.Peregrine e à suas crianças peculiares, mas Ransom Higgs faz com que a apresentação de cada personagem seja tão única e tão profunda que você pensa “MEU DEUS, COMO EU AMO ESSE LUGAR”, sério! Para quem está lendo ou leu o livro depois de ver os trailers que saíram do filme, assim como eu, vai estranhar algumas diferenças entre os personagens que aparentemente foram trocados na adaptação cinematográfica para fazer com que a história desenrole melhor. Não acho que isso vá atrapalhar, mas pode frustar em alguns aspectos. Voltando ao livro, após sermos apresentados às crianças peculiares e suas habilidades, começamos a ver como funciona todo aquele lugar como a Srta. Peregrine coordena e cuida das crianças protegendo-as dos perigos do mundo.

O livro também nos apresentam os acólitos e os étereos, que são os vilões de toda a série de livros e com a  narrativa maravilhosa do Jacob, conseguimos visualizar eles perfeitamente. Aliás, vamos falar dessa narrativa? Desde que li os livros do Rick Riordan, não tinha encontrado nenhum livro que fosse tão simples, com a narrativa direta e simples como essa. Higgs sabe fazer você se transformar no personagem e fazer parte da história.

 

Review | Nunca Vou Te Deixar é um misto de risos e lágrimas que vale a pena

Título: Nunca Vou Te Deixar10380316_1025346197538127_6705068718108269740_n

Autor(a): Rody Cáceres

Editora: Multifoco

Páginas: 246

Ano de Lançamento: 2016

Onde Comprar: Editora Multifoco

Sinopse: “Inicio dos anos dois mil. Músicas de amor ainda estavam na moda e alguns casais se embalavam em promessas românticas. Jovens e adultos namoravam nas esquinas, nas praças, em todos os lugares. O amor acontecia para todos. Todo mundo amava no inicio do milênio. Menos Renato. Na verdade, Renato era um tremendo fracasso. Passa os dias com um violão de quatro cordas, sonhando com o sucesso de sua banda. Até o telefone tocar e, do outro lado, alguém determinado a bagunçar a rotina de Renato e brincar com suas emoções. Quem estava do outro lado da linha? Por que escolhera Renato? O que Bruce Lee, Kiss e Alexandre Pires tem a ver com tudo isso? Prepara-se. É só mais uma história de amor”

 

Às vezes o dia a dia é corrido e a rotina pode ser bem estressante. Nestes momentos precisamos olhar para o passado, refletir nossa vida e agarrar um livro romântico, mais leve e estilo comédia. É nesses momentos que “Nunca Vou Te Deixar”, do autor independente Rody Cáceres, é uma adição bem vinda a própria literatura independente.

O romance segue Renato, um típico adolescente brasileiro cuja vida é praticamente um desastre ambulante. Se veste de preto, ouve rock pauleira e culpa o Alexandre Pires por seus desgostos. Amargurado, Renato conhece Isis (na verdade a reencontra de uma forma demasiadamente hilariante com um joguinho por telefone) e se envolve com a garota, vivendo um amor proibido e delirante.

A grande jogada de “Nunca Vou Te Deixar” é a experiência do primeiro amor que praticamente já abalou qualquer ser vivo nesta terra, especialmente os meninos mais tímidos que sofriam de delírios por aquelas garotas populares (ou não) na escola. O livro representa o que é verdadeiramente estar apaixonado da forma mais brutal possível sem aquele clichê clássico Shakesperiano em que ambos os personagens estão destinados a viver juntos para sempre. Aqui não. Os anos passam e, com um amor proibido, Renato e Isis partem para suas vidas apesar da promessa que estampa a capa do livro.

Entre dias e noites sofrendo, Rody destrincha o personagem Renato como se fosse a si próprio, conhecendo cada pensamento e dor do rapaz por uma menina tão distante e tão perto. “Nunca Vou Te Deixar” é uma viagem alucinante aos anos 2000, época em que o pagode começava a se alastrar no Brasil e ainda não tínhamos boa internet. Com esse jeito comédia e drama perfeito do autor, nos apaixonamos por Renato e sofremos com ele, lembrando o que é realmente amar e rejeitar, sofrer e seguir vivendo para que em um dia mais próspero venhamos a conseguir sentir paixão de novo. Apenas paixão porque primeiro amor só há um, mas essa é outra história.

Review: Artistas dos Ossos | O que você faria por dinheiro?

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Título: Artistas dos Ossos

Série: Asylum (Livro 2.5)

Autor(a): Madeleine Roux

Editora: V&R Editoras

Páginas: 112

Ano de Lançamento: 2016

Onde Comprar: Amazon / Saraiva / FNAC

Sinopse: “Oliver é um adolescente que tenta economizar dinheiro para ingressar na faculdade e deixar para trás a loja de antiguidades de sua família. Mas para garantir seu sonho ele começa a trabalhar para uma organização sinistra, que se denomina “Artistas de Ossos”. Bem, mas dinheiro é dinheiro. Abrindo sepulturas e roubando ossos, ele aceita a missão pensando que isso seria uma fase momentânea, mas descobre que abandonar essa empreitada pode ter um custo muito alto, pois existem algumas dívidas que não podem ser pagas. Assim Artistas dos Ossos é um puzzle importante que faltava para os fãs da série Asylum.”

Começo a resenha dando dois avisos, o primeiro vai para quem acompanha a série Asylum e minha dica é a mesma que está na capa do livro: Não dê as costas para os Artistas dos Ossos. O segundo aviso vai para aqueles que, assim como eu, ainda não leram a série, e ela é simples e direta: leiam!

Artistas dos Ossos é um episódio spin-off da série principal, e não há nenhuma influência ou ligação com Asylum, ou seja, você pode ler tranquilamente e sem medo de perder alguma coisa que exista na série, que foi o que eu fiz.

O protagonista da história é Oliver, que deseja guardar dinheiro para pagar sua universidade e, assim, deixar sua cidade e a pequena loja que sua família possui. Para isso, ele e o seu melhor amigo, Micah, topam aceitar qualquer tipo de trabalho, seja ele ilegal ou não. É aí que eles se envolvem com um misterioso clã, denominado Artistas dos Ossos.

No começo Oliver achou que teriam alguns trabalhos simples, mas logo vê que as “missões” vão piorando conforme as ofertas de pagamento crescem. Acostumados a abrir túmulos para pegarem apenas algumas joias e relógios, a dupla agora tem que levar os ossos de um falecido até o clã. Completada a missão, mesmo com alguns revés, Oliver resolve pular fora do pequeno trabalho secreto, mesmo com uma boa oferta em dinheiro.

Acontece que com os Artistas dos Ossos não se brinca, que aceitar o trabalho e cair fora não é algo tão simples. Devido a essa decisão, não só Oliver, como pessoas ao seu redor, começam a sofrer as consequências. E é aí que Oliver entende que não deveria ter dado as costas para eles…

Crítica | Ídolo Quebrado é uma pérola da literatura nacional independente

poltrona-idolo-quebradoMuitas vezes nos sentimos tentados a buscar na literatura estrangeira boas opções de leitura, mas é bem curioso que a literatura nacional independente esteja inundada de excelentes pérolas literárias e, esse é o caso de Ídolo Quebrado do escritor Leonardo de Andrade. Com uma trama empolgante e personagens carismáticos o livro prende o leitor do começo ao fim.

Ainda falando sobre a trama, o que mais a diferencia são os mistérios muito bem construídos que levam o leitor a querer devorar o livro o quanto antes. O personagem principal também é um destaque extremamente positivo da obra. Vale notar que a divisão do livro leva em consideração os períodos da vida de Evan e que tudo ao seu redor se transforma de uma forma assustadora. Por exemplo, a descrição da cidade logo no começo é extremamente depressiva, mas isso vai se perdendo no decorrer dos acontecimentos.

Os personagens secundários também ocupam uma posição de destaque na narrativa e servem muito bem a seus propósitos, principalmente o misterioso e enigmático Morgan. A forma como os eventos se desenrolam sem parecerem maçantes é uma das melhores qualidades narrativas do jovem autor. Outra qualidade digna de elogios é a diversidade do escritor, que consegue transitar de forma natural entre vários gêneros, passando do terror psicológico até o romance. Essa transição de gêneros fica mais evidente na passagem das estações do ano e quando há uma troca no personagem que está narrando o livro.

Um dos únicos pontos negativos do livro fica por conta de sua encadernação, que não está em sintonia com a excelente qualidade da trama. O elemento sobrenatural da narrativa também poderia ter sido um pouco mais bem explorado, mas é bem possível que um dos maiores charmes do livro sejam as perguntas que devem ser respondidas no âmago de cada leitor.

Nesses tempos de construções intrincadas de universos e sequências, o Ídolo Quebrado se apresenta como uma boa opção para uma leitura mais descompromissada e que faz o leitor imergir nessa história misteriosa e, por fim, “Não corra”.

O livro está disponível na Livraria Vanguarda. Você também pode saber mais sobre o autor acessando sua página no Facebook.

Review: Os bons segredos| Um YA para o coração e a gordice

Vamos começar falando dessa incrível escritora que tem milhões de exemplares vendidos e é a rainha do young adult nos Estados Unidos: Sarah Dessen, a autora que consegue arrancar seu coração fora e destruir e reconstruir seu mundo a cada história, mas que até esse semestre não tinha sido muito levada a sério aqui no Brasil.

“A caminho do verão”, um dos grandes títulos da autora, foi trazido pela ID pra cá, assim como alguns outros, mas nenhum deles teve sua merecida divulgação e empenho, se assim podemos dizer. Sem criticar a editora em si, que fez uma excelente edição de “A caminho do verão”, que me deixou apaixonada. A questão é que parecia que Sarah Dessen, uma autora de best seller, estava sendo deixada na última prateleira da estante da livraria.

os-bons-segredos-de-sarah-dessen-editoraseguinteEsse ano então a Companhia das Letras obteve os direitos de um dos últimos livros da autora, Os bons segredos, que conta a história de Sidney, uma menina que sempre viveu as sombras das encrencas do irmão mais velho, Peyton. Até o dia que ele atinge o fim da linha e é preso por machucar uma pessoa – e parece que apenas Sidney se sente culpada pelo garoto, em vez de estar tentando aliviar a barra do irmão. Ao menos é o que ela pensa antes de entrar na Seaside, a pizzaria da família de Layla, que se tornará não apenas sua melhor amiga, mas aquela que lhe deixará entrar para a família e se sentir a vontade ao ponto de Sidney conseguir voltar aos eixos e fazer  não apenas seus pais a enxergarem, mas também ver a si mesmo, finalmente.

A edição do selo SEGUINTE está com uma capa belíssima, que seguiu a ideia da original e trás um marcador de páginas no lugar da orelha da contracapa (uma ressalva para esse detalhe: assim como o marcado de A Rainha Vermelha, acho que ele deveria vir “destacável” e não pontilhado para cortar,porque pelo menos eu sou um desastre pra essas coisas!). A divulgação foi muito bem feita e até contou com um comentário da booktuber Pam Gonçalves, que já bateu a marca de cem mil inscritos.

E mais uma vez, após ler a obra, que mesmo tendo para lá de 400 páginas, é uma leitura rápida que mal se vê os números passando, só ficou os bons sentimentos e os bons ensinamentos. Nesse livro Sarah constrói uma história para nós e depois a desmonta, nos mostrando que nada do que vemos em outro alguém, é realmente a verdade.

Os temas “pesados” vem de forma sutil, você os sente, mas não é aquele livro que sufoca você de coisas ruins, a autora consegue abordá-los de uma forma que os sentimentos vem nos momentos certos, como quando você sente aquela raivinha da mãe da Sidney, mas mais pra frente entende um pouquinho como é estar em seu lugar. Assim como  os outros personagens – sempre iremos tirar algo deles, nem que seja apenas uma centelha que nos faça querer trazê-los para a vida real.

E quem acha que o livro é ‘aquele mimi de menina sem atenção’, está enganado. É um livro sobre  o valor de uma pessoa que lhe vê quando você mais precisa, pessoas que não se importam de onde você vem, mas quem você é, de mudanças e até mesmo a questão de você poder ser quem quiser e pra isso basta apenas se esforçar. E Sarah até quebra o estereotipo do garoto de romance perfeito: e se o par romântico de Sidney vivesse em uma dieta mega controlada por que já esteve bem acima do peso?

Mas mais que tudo isso temos: batata frita e pizza. De montão. Talvez você passe muita vontade ou talvez passe a apreciar ainda mais essas maravilhas da vida, de um jeito que só personagens de Sarah Dessen podem fazer.

“Há segredos muito bons para serem guardados”.

(E também é um livro sobre como nós, meninas, nos sentimentos com devidos comportamentos de caras que acham que um olhar não incomoda – quando incomoda e muito! Sobre como ficar quieta não é a melhor opção, nem se sentir errada quando sente medo.)

Por fim, Sarah Dessen não trás apenas um livro e sim histórias para nosso coração (e barriga, claro).

ALERTA: Se você sofre de desejos por comida, ou melhor, gordices extrema, prepare um estoque antes dessa leitura! Considere-se avisado.

 

Review | Estranhamento, da autora Adriane Dias Bueno

Sigmund Freud certa vez disse que os poetas são aliados poderosos por conhecerem uma vasta gama de coisas entre o céu e a terra que outros desconhecem. E sabemos, ao ler uma poesia perdida em um canto qualquer, quão poderoso é esse conhecimento. Tão poderoso que gera um Estranhamento. De fato, contos e poesias dependem de uma vasta interpretação por parte de diversas pessoas. Exigem também que o leitor esteja com a mente aberta para todas as possibilidades que se apresentarem diante dele e todas as filosofias de uma poesia, carregadas de moralidade ou não.

Em seu livro de contos e poesias, a acadêmica, advogada e escritora Adriane Dias Bueno destrincha o que é ser humano de verdade. Na maioria dos momentos realizamos essa mesma inquietação – na verdade, trazemos este sentimento angustiante desde os tempos mais remotos em que o homem pisou nesta terra – e, em certos momentos, consegue responder do jeito que ninguém mais faria. O livro, uma publicação independente, adota um estilo rústico, retratando a cidade natal da autora como realmente é. Cheia de mistérios já resolvidos (o jogo de cintura de Adriane com as pessoas torna o livro mágico), pessoas tão estranhas que acham ser normais e uma baratinha tentando manter a ordem natural do mundo.

É de conhecimento comum que não existe ordem natural. Às vezes, estamos tão focados em um dia a dia cheio de rotinas, que mal percebemos como tudo é tão estranho e tão alheio à nossa própria natureza. Não estamos aqui porque deveríamos estar, mas porque somos estranhos. Claramente é necessário o uso de uma literatura poderosa para nos fazer refletir algo como isso. Seja através do verso Caminhar, um dos mais simples e mais poderosos de todo livro, ou o conto Marginal, qual acompanha um jovem indignado com a vida pacata e que acaba metralhando versos em uma multidão alheia. Com essas e outras tiradas sarcásticas, Adriane consegue dar vida a um mundo sombrio e ao mesmo tempo colorido, pacato e ao mesmo vivo, tentando sobressair-se nestas coisas tão mundanas que damos valor e tentando destruí-las. A autora é como um bisturi: corta a carne de toda a sociedade e a reconstitui para que ninguém fique zangado.

Sabe-se muito bem que é uma arte perigosa criticar o sistema e não são todos os autores que conseguem fazer com maestria (e sabedoria, um destes dons perdidos), contudo, Adriane eleva este patamar em seus contos, retratando o urbano com a fidelidade de clássicos como Kerouac ou até os sentimentos tão confusos que temos dentro de nosso peito, algo que Dostoievski dominava.

Certamente, apesar de poesias serem curtas e encherem seu peito com aquele sentimento de “quero mais” e os contos com seus personagens imortais, Estranhamento não é para os fracos. É literatura engajada e um prato cheio para “aquele” momento do seu dia em que você precisa subir mais um degrau e está sem fé na vida. Aquele momento em que você se sente… Estranho.

Estranhamento está disponível na Livraria Vanguarda (clique aqui). Acesse também o blog e a página que a autora mantém atualizada para seus fãs.

John Constantine, Hellblazer: Raízes da Coincidência| Nem tudo é apenas mera coincidência

Hellblazer_RaizesCara, como é bom ler Hellblazer! Acho que essa frase consegue resumir bem a passagem de Andy Diggle como roteirista do mago da Vertigo. John Constantine, Hellblazer: Raízes da Coincidência é o fim do run do roteirista a frente do título do mago inglês sendo assim, é necessário que você tenha lido os dois encadernados anteriores para entender as duas primeiras histórias. Já na história final, é preciso entender um pouco do cânone do personagem para apreciá-la melhor (basta saber que no passado, John fez uma burrada muito grande em Newcastle e muita gente morreu).

As duas primeiras histórias contam com o roteiro de Andy Diggle, aqui o quadrinista encerra todas as pontas soltas que tinha deixado em sua passagem pelo título e, termina de forma memorável seu run pela série. Apesar de em alguns pontos a história parecer um pouco confusa, isso faz parte do estilo de narrativa do autor que exige uma atenção redobrada em alguns pontos, mas tudo parece fazer sentido no final criando assim, uma narrativa bem coesa e instigante. Os desenhos de Giuseppe Camuncoli e Leonardo Manco são competentes e combinam muito com a atmosfera das histórias do mago. Apesar dessa combinação poderosa, os desenhos de Manco são um pouco estilizados de mais.

A história final lida com o passado musical de John e as consequências de suas ações no começo da carreira de mago. O arco em duas partes tem os roteiros de Jason Aron que são excelentes. Aron é um dos melhores roteiristas da atualidade e se destaca por seu atual trabalho na Marvel, mas aqui o roteirista escreve de forma primorosa o mago inglês o que, deixa o leitor ansioso para mais essa revelação do passado de Constantine. Os desenhos ficam a cargo de Sean Murphy e, o que mais salta aos olhos são as cores e o traço mais redondo do artista que combina com o clima nostálgico da história. Todas as capas têm a arte de Lee Bermejo e, como sempre, são um show à parte.

A HQ é em capa cartonada com 180 páginas ao preço de R$ 23,90. Ainda é fácil de achar em várias lojas e livrarias até por um preço mais baixo. Particularmente, esse formato de encadernado é o melhor em termos de custo-benefício.

Quando Andy assumiu os roteiros de Hellblazer, a revista vinha da passagem de Denise Mina no título a qual não é muito celebrada pelos fãs. Dessa forma, em seu run, o roteirista conseguiu melhorar muito as histórias do personagem e deixá-las mais instigantes e coesas, ou seja, essa é uma boa oportunidade para você começar a ler as desventuras do mago fumante da Vertigo. Só procure começar por O Passeio já que aqui é o fim da era de Diggle.

Lanterna Verde: A Ira dos Lanternas Vermelhos | Surgem os lanternas da raiva

poltrona-lanterna-verde-a-ira-dos-lanternas-vermelhosAntes de mais nada, é importante ressaltar que este encadernado faz parte do run de Geoff Johns a frente dos títulos do Lanterna Verde. A história é uma continuação direta de Lanterna Verde: A Guerra dos Anéis então, é extremamente recomendável que você tenha lido os dois encadernados anteriores para aproveitar melhor a HQ. A premissa da história reside nas consequências da nova lei dos Guardiões, que autoriza o uso de força letal contra os integrantes da Tropa Sinestro, tal lei foi estabelecida no encadernado passado em meio à guerra entre os Lanternas Verdes e os Lanternas Amarelos.

Os roteiros de Geoff Johns são excelentes e de fácil compreensão até para leitores mais casuais do Lanterna Verde. É inegável o domínio que o roteirista tem de toda a mitologia do Lanterna e, como o mesmo tem capacidade de contar uma história fluída e que consegue prender a atenção do leitor até a última página. Destaque para os diálogos entre Hal e Sinestro.

O trio de desenhistas composto por Mike McKone, o brasileiro Ivan Reis e Shane Davis entregam uma arte sensacional. A arte interna de Mckone e Reis é espetacular e consegue passar toda a profundidade do espaço e a ira descontrolada dos Lanternas Vermelhos. As capas tanto de Mckone quanto de Davis são muito boas com destaque para as capas de Green Lantern #27 e Green Lantern #36. Resumindo, as artes e os roteiros estão em completa sintonia.

Todo o run de Johns é memorável por ter trazido Hal Jordan de volta e pela revitalização dos Lanternas Verdes e a adição de vários elementos na mitologia do personagem como: o surgimento das várias tropas de Lanternas. Esse encadernado em especial se destaca pelo surgimento dos Lanternas Vermelhos e de outros.

O acabamento do encadernado é excelente e segue o padrão da linha DC deluxe da Panini. O preço de capa do encadernado é R$28,90, mas é possível o encontrar por um valor mais baixo em várias livrarias.

Lanterna Verde: A Ira dos Lanternas Vermelhos é leitura indispensável para os fãs do personagem, mas também consegue cativar alguns leitores casuais que não se importem com uma pequena pesquisa para se situar na história. Geoff Jonhs é um dos melhores roteiristas da atualidade e, principalmente, neste encadernado ele consegue te deixar ansioso para as próximas histórias. As artes também completam de forma genial os roteiros.

Review: Vingança| O primeiro passo ao new adult

O gênero new adult veio tomando conta das prateleiras entre 2013 e 2014; apesar de ter um teor mais sensual e cenas de sexo explícitas, não chega a ser um Cinquenta tons de cinza, ficando alguns passos antes da linha do gênero erótico. O new adult tem um background maior, uma história mais desenvolvida, personagens mais jovens e algumas características clichês de toda obra, como o bad boy. Enquanto o erótico fica como aquele livro ‘você está lendo isso?’ e que promete milhões de descobertas sexuais, o new adult fica mais ao lado do romance, aquele sonho antigo adolescente do garoto mau que encontra a garota que o faz entrar na linha.

O incrível é que apesar de várias coisas repetidas na maioria das história, os adeptos do new adult ficam viciados – pelo menos por um tempinho. E o legal do gênero é que ele se encaixa em vários cenários: no campo, na cidade de praia, na cidade grande, high school, bandas de rock e, inclusive, máfia e rivalidades entre famílias, que é o tema escolhido para o primeiro livro e new adult de Catherine Doyle.

O enredo segue Sophie – na verdade Persephone -, que após o pai ser preso e perder seu padrão de vida social, precisa trabalhar na lanchonete da família como garçonete e aceitar que, agora, seus antigos amigos não a veem com os mesmos olhos. Mas o que parecia apenas um incidente pode vir a se revelar a grande reviravolta de sua vida com a chegada de cinco irmãos à sua pacata cidade. Entre sua paixão por um deles, o jovem Nic, Sophie irá descobrir que sua verdadeira história, assim como a de sua família, está entrelaçada a mais mistérios do que fora capaz de perceber.

A proposta do livro de Doyle é totalmente new adult! A questão é que apesar do clima sensual e de “todos esses irmãos são uns deuses”, o primeiro livro da série, Vingança, não trás cenas explicitas ou sequer se atém muito aos momentos entre Sophie e Nic, o que, num primeiro momento, me fez pensar que a autora perdeu um pouco o rumo e se esqueceu de dar um desenvolvimento mais crédulo para o romance antes da ação e consequências que esse poderia trazer para a trama. Mas ela, com sutileza, nos leva para outro caminho e terminamos o livro querendo mais páginas, nos perguntando como não desconfiamos desde o principio?

Logo podemos considerar o todo da obra uma grande introdução para a trama, um amontoado de primeiros capítulos que se tornou um livro com seus merecidos créditos entre os leitores, com bons momentos que trazem todas aquelas boas sensações dos velhos clichês adolescente com uma pitada de ação.

Para o primeiro livro, Catherine deu um bom passo e deve estar certa do rumo que dará a Sophie e aos irmãos para se firmar num mercado já dominado por grandes nomes como Colleen Hoover e Abbi Glines, autoras número um do New York Times.

Vingança também vale como um bom primeiro livro para quem quer mergulhar nesse mundo que é o new adult e vêm sido explorado pelo mercado editorial brasileiro com aprovação do público.

PS: Devemos dar nota mil para a edição brasileira, feita pela Agir Now. A capa ficou maravilhosa, assim como a diagramação dos capítulos, que combinou – e muito – com o tom do livro. Geralmente preferíamos as capas originais, mas dessa vez nossa querida versão brasileira saiu bem na frente!

Review: Mosquitolândia | Uma roadtrip para pensar

Fazer uma viagem de estado a estado em um carro cheio de amigos, atrás de novas experiências e aventuras é algo que sempre atrai nossa atenção. Mas e se essa roadtrip tivesse um motivo mais “profundo”? E se de repente tudo dependesse do destino dessa viagem?

Esse é o caso de Mary Íris Malone, ou melhor, Mim, que não está nada bem.

“Sou uma coleção de esquisitices, um circo de neurônios e elétrons: meu coração é o dono do circo; minha alma o trapezista, e o mundo, minha platéia.”

Após o divórcio dos pais, o sumiço da mãe e o novo casamento do pai, a garota de dezesseis está perdida em uma cidade que detesta, vivendo em seu próprio casulo e se perguntando por que, de repente, as cartas da mãe pararam de chegar. Quando, sem querer, descobre que sua mãe pode estar doente e sozinha há milhares de quilômetros, Mim se joga na estrada, sem estar realmente preparada para todas as coisas e pessoas que irão fazer da sua jornada uma lição de vida.

O primeiro livro de David Arnold é uma bela premissa do que esperar de um autor com tanto a dizer – a narrativa, embora seja um young adult, se torna uma metáfora do começo ao fim, recheada de mensagens que tem como objetivo “tirar o leitor da caixinha”.

“E, por mais simples que pareça, acho que entender quem você é – e quem não é –

é a coisa mais importante de todas as Coisas Importantes.”

Com personagens que se diferem de todos já encontrados em outras obras do gênero, o autor constrói uma bela história de descobrimento e autoconhecimento, entrelaçada por pequenas questões misteriosas que nos fazem querer avançar rapidamente as páginas para saber o que Mim encontrará em sua próxima parada.

Uma ressalva pode ser tido com o meio da obra, que parece um pouco devagar e enrolado, com acontecimentos, muitas vezes, desnecessários, como um súbito clima de romance que atrasa a protagonista e também faz um incrível personagem, Walt, portador de síndrome de down, ser deixado de lado, quando se tem muito a oferecer à história, se tornando então o ponto alto do livro, quando já estamos cansados de Mim não ir direto ao ponto ou se tornar alguém que não acrescenta mais nada à história.

” — Ei,oi, eu sou Walt.”

Por sorte o inicio cativante e as revelações no desfecho salvam a obra como um todo, tornando assim o livro uma bela mensagem do que se pode aprender com experiência com as quais não contávamos – e que devemos sempre nos abrir para os inesperados da vida. Afinal, é com eles que vêm os grandes acontecimentos.

Com uma capa e edição maravilhosas, Mosquitolândia é um livro que ficará em destaque nas livrarias e não esquecido nas prateleiras de difícil acesso.

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ATENÇÃO! Mosquitolândia também foi o primeiro livro do Clubinho!, um clube do livro online criado pelo booktuber Vitor Martins. Para acessar o CLUBINHO!, clique aqui. O livro de setembro será A GAROTA NO TREM.

 

Review: O Sol é Para Todos | Um livro para aprender a viver

Talvez um livro lançado em 1960 e que é narrado pelos anos 30 não seja o mais desejado da lista da nossa geração – e digo isso por experiência própria de quem já teve certo receio com coisas “antigas” -, mas às vezes um pré-conceito é tudo que está nos afastando de uma obra que pode nos dizer um pouco mais sobre a vida.

O primeiro e, até algum tempo atrás, único romance de Harper Lee, O Sol é Para Todos (To Kill a Mockingbird), foi um Best-seller imediato quando chegou ao mercado editorial em mil novecentos e sessenta, sendo merecedor do prêmio máximo de literatura, o Pulitzer. A trama segue as aventuras de Scout entre seus seis e dez anos, ao lado do seu irmão Jem e seu amigo Dill. Jem e Scout são filhos do velho Atticus Finch, advogado respeitado do pequeno condado de Maycomb, e possuem grande curiosidade pela vida das pessoas, especialmente pela lenda interiorana que se tornou Boo Radley.

“Eu queria que você visse o que é realmente coragem, em vez de pensar que coragem é um homem com uma arma na mão. Coragem é quando você sabe que está derrotado antes mesmo de começar, mas começa assim mesmo, e vai até o fim, apesar de tudo. Raramente a gente vence, mas isso pode até acontecer.”

A rotina das crianças muda quando Atticus é designado a defender um negro acusado de estuprar uma mulher branca. Dado em uma sociedade por deveras racista e preconceituosa, apesar da libertação dos escravos, Scout conta como algumas pessoas podem mudar o mundo com pequeno gestos – e outras podem fazer o errado mesmo estando cientes disso.

O prêmio Pulitzer de Harper Lee não vêm por conta de uma linguagem rebuscada que pode se esperar pela época em que foi escrito, mas sim pela maneira como uma narrativa tão simples e clara pelos olhos inocentes de uma criança pode nos mostrar verdades cruéis da vida.

“Só existe um tipo de gente: gente.”

Tratando de assuntos que ainda estão presentes em nosso cotidiano, “O sol é para todos” é uma abertura para nossos olhos que, às vezes, ficam cegos para os pequenos detalhes do que é justiça, igualdade, honra, confiança, julgamentos e, acima de tudo, crescer fiel à si mesmo.

“Antes de poder viver com os outros, eu tenho de viver comigo mesmo.

A consciência de um indivíduo não deve subordinar-se à lei da maioria.”

O livro tem uma adaptação cinematográfica de 1962, que ganhou Oscar de melhor adaptação. O segundo título da autora, Go Set a Watchman, chegou as livrarias também como best-seller, com uma tiragem de 2 milhões de cópias. Este também trata da vida de Scout (curiosamente a autora teria o escrito primeiro, mas o editor achou melhor ter uma história prévia, para os leitores conhecerem melhor os personagens).

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Review: Vivian contra o apocalipse| Quem será seu herói no fim do mundo?

Vivian Contra o Apocalipse – Vivian Apple tem 17 anos e mal pode esperar pelo fatídico “Arrebatamento” — ou melhor, mal pode esperar para que ele não aconteça. Seus devotos pais foram escravizados pela Igreja faz tempo demais, e ela está ansiosa para que voltem ao normal. O problema é que, quando Vivian chega em casa no dia seguinte ao suposto Arrebatamento, seus pais sumiram e tudo o que restou foram dois buracos no teto. Vivian está determinada a seguir vivendo normalmente, mas quando começa a suspeitar que seus pais ainda podem estar vivos, ela percebe que precisa descobrir a verdade. Junto com Harp, sua melhor amiga, Peter, um garoto misterioso que tem os olhos mais azuis do mundo e informações sobre o verdadeiro paradeiros dos seguidores da Igreja (ou é o que ele diz), e Edie, uma Crente que foi “deixada para trás”, os quatro embarcam em uma road trip pelos Estados Unidos. Mas, depois de atravessar quilômetros de eventos climáticos bizarros, gangues de Crentes vingativos e um estranho grupo de adolescentes auto-intitulados os “Novos Órfãos”, Viv logo vai perceber que o Arrebatamento foi só o começo.

O melhor de um livro, para mim, sempre são os personagens. Às vezes o enredo pode se perder e o plot twist desapontar, mas nada é pior do que um personagem que não te diz nada. Se o personagem cumpre sua função, com certeza você terá um bom livro nas mãos, apesar de pequenos detalhes que possam  vir a desagradar. É melhor recriar um desfecho (amém as fanfics), do que um personagem.

Em Vivian contra o Apocalipse é exatamente isso que temos: uma grande personagem acompanhada dentro de um enredo com ressalvas.

A iniciante Katie Coyle nos dá uma heroína real – geralmente recebemos um personagem e observamos sua desconstrução, mas na obra de Coyle podemos acompanhar o passo a passo da construção de Vivian Apple de uma menina quieta e que preferia deixar os outros lhe tomarem as rédeas a uma desbravadora do fim do mundo e seus mistérios.

“Faça com que eu seja menos dócil, menos medrosa.

Universo, me transforme na heroína da minha própria história.” p. 21

Na primeira impressão que tive do livro, achei que não seria algo bom, algo com o qual eu me deleitasse e sentisse vontade de devorar. Mas enquanto ia, aos poucos, desbravando as páginas, não pude deixar de associar cada aspecto bem posto de Vivian com a crescente necessidade de se ter figuras femininas fortes e independentes. Ela, sem dúvidas, é uma dessas e o que mais agrada é o fato de ela começar real: uma menina que ainda não sabe como pode se impor no mundo e então, ao longo do livro, podemos acompanhar sua descoberta, a revelação de que ela pode ser quem quiser e Vivian Apple quer ser implacável.

Essa transformação é agradável, contínua e sem pulos muito grandes – ponto positivo na narrativa de Coyle, que usa sempre uma linguagem simples e não mete os pés pelas mãos, mantendo os acontecimentos lineares. É como se você conseguisse perceber que a autora quis, o tempo todo, uma heroína e esperou cada momento certo para Vivian se descobrir e notar o que se tornava, mesmo com seus medos e erros.

“Não se parece em nada com Vivian Apple de antes.

Mas esta é a Vivian Apple no fim do mundo”. p 77

Além de Vivian, temos outros personagens que não fogem a sua proposta e completam a história de forma eficaz: Harp, a melhor amiga rebelde; Peter, o menino misterioso e o acréscimo de Edie, uma grávida crente que foi deixada para trás e que de forma sutil foi feita para arrancar risos leves.

Quanto ao enredo, o ponto fraco acaba sendo o final. É meio corrido, com muitas informações jogadas ao leitor e sem pausas. Há revelação atrás de revelação e falta de explicação. Mas ao todo é tranquilo, cada uma das três partes em que é dividido são interligadas com sentido e não escapa do que se é esperado de um Young Adult em meio ao caos apocalíptico – não é radical, mas também não deixa a desejar quando se precisa de um abalo.

O livro tem continuação, ainda sem data prevista de chegar em terras brasileiras, o que pode explicar, por cima, a falta de informações como ganchos para a continuação da aventura de Vivian e seus amigos.

“Eles tinham que amar você. Porque você é a Vivian Apple, porra.” p. 202

Vivian contra o Apocalipse é bom em sua mensagem de que devemos ser nossos próprios heróis e merecemos tudo o que sonhamos apenas por sermos nós e também trás uma grande reflexão sobre como andamos levando o modo de viver.

“Não importa de onde viemos, para onde vamos ou quando isso vai acontecer. A única coisa que importa é o que a gente precisa fazer enquanto estamos aqui, e se a gente faz isso bem”. p. 203

 

REVIEW: A Playlist de Hayden| Você nunca conhece um livro até lê-lo.

 

Depois da morte de seu amigo, Sam parece um fantasma vagando pelos corredores da escola o que não é muito diferente de antes. Ele sabe que tem que aceitar o que Hayden fez, mas se culpa pelo que aconteceu e não consegue mudar o que sente. Enquanto ouve música por música da lista deixada por Hayden, Sam tenta descobrir o que exatamente aconteceu naquela noite. E, quanto mais ele ouve e reflete sobre o passado, mais segredos descobre sobre seu amigo e sobre a vida que ele levava. A PLAYLIST DE HAYDEN é uma história inquietante sobre perda, raiva, superação e bullying. Acima de tudo, sobre encontrar esperança quando essa parte parece ser a mais difícil. (Editora Nova Conceito)

 

“Nunca julgue um livro pela capa” é um ditado popular internacionalmente conhecido e que sempre pode ser aplicado a situações onde você é surpreendido por algo. Geralmente isso acontece no bom sentido: você tem uma primeira impressão muito ruim sobre algo e depois acaba amando. ‘Nunca julgue um livro pela capa’ é uma expressão que costuma vir com um sorriso. Mas, dessa vez, poderia vir com total desgosto.

Para ‘A Playlist de Hayden’, eu diria que as altas expectativas da capa, título e divulgação acabaram se tornando imensas decepções. No meu primeiro post no Poltrona, listei o livro como um dos mais esperados do ano. O título é incrível e remete a coisas que estão em alta, assim como a apresentação da orelha: música, suicídio, mistério e superação. A capa, que manteve o design original das publicações internacionais, é perfeita e bem executada, conseguindo passar bem o feeling que o título da obra e a sinopse apresentam. A frase de impacto, “Você nunca conhece uma pessoa até ouvir o que ela gosta”, também é a chave para levar o livro ao topo da lista de próximos livros a ler.

Só que tudo desmorona ao que se descobre o que há dentro.

A narrativa de Michelle Falkoff começa sutil e direta e é o que se espera de um prólogo quando você já sabe o que aconteceu: Hayden, o melhor amigo de Sam, cometeu suicídio e deixou para ele uma seleção de músicas, para que o mesmo conseguisse desvendar o que o levou àquilo. Nos próximos capítulos esperei que a autora construísse lembranças por meio das músicas escolhidas que davam título aos capítulos, porém não foi o que ganhei ao decorrer da leitura.

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Todas as vinte e sete músicas escolhidas não tem nada a ver com seus capítulos designados. Sequer remetem alguma mensagem ou criam uma conexão com Hayden e o que aconteceu a ele ou com Sam e o que ele está por descobrir. Infelizmente o título acabou perdido dentro do enredo e significou só uma lista de músicas criada por alguém que se foi e citada ocasionalmente para que o leitor não se esquecesse desse detalhe.

E a esperança de que a narrativa superasse esse erro na obra, também foi por água abaixo. O jeito com que Michelle guia seu narrador é pobre para o que se espera de um livro que aborda a morte do melhor amigo do mesmo. Os sentimentos de Sam não se jogam para o autor e ligações não são criadas. Enquanto achei que teria um dejavú de ‘As vantagens de ser invisível’, onde parece que a narrativa sai do livro e se torna algo que realmente aconteceu para quem lê, o que acabei encontrando foi um personagem em foco que narra passagens de tempo, com acontecimentos que, na maioria das vezes, não dizem nada.

Os poucos mistérios desvendados ao longo do livro – todos eles ligados ao interesse amoroso de Sam, Astrid – são obsoletos. As pequenas aberturas que Michelle Falkoff cria para grandes plots, se desfazem com revelações sem graça, que não fogem do muito óbvio já trazido por várias histórias adolescentes.

No final, quando tudo está aberto na mesa, o que temos é um livro que não diz nada sobre Hayden. Às vezes grandes embrulhos não condizem com o presente.

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