Ler é Bom, Vai | As Provações de Apolo, a mais nova saga de Rick Riordan

Que Rick Riordan é um dos maiores autores da atualidade, principalmente quando o assunto é mitologia, nós já sabemos. Então nada mais justo que voltar com o Ler é Bom, Vai! falando sobre o novo livro do autor: A Profecia das Sombras. A nova produção dá continuação a história iniciada em O Oráculo Culto e é o segundo volume de uma das mais novas sagas de Riordan, As Provações de Apolo.

Como o nome já diz, o protagonista dá vez é ninguém menos que o Deus do Sol e assim como aconteceu com o personagem principal da série Lúcifer, Apolo foi punido por Zeus e enviado a Terra para viver como um simples mortal. Diferente do outro, porém, o deus perdeu todos os seus poderem e inclusive sua beleza, se tornando um adolescente barrigudo e com o espinhas chamado Lester Papadopoulos. Sua última lembrança é proveniente da guerra contra Gaia – ocorrida nos volumes anteriores de suas sagas, e sua fonte de ajuda para isso vem de onde ele menos espera: Meg McCaffrey. A menina é uma jovem semideusa perdida nas ruas de Nova York e que possui a estranha habilidade de controlar as frutas – algo bem típico de sua mãe. Diferente dos outros semideuses que conhecemos, o padrasto da menina também é muito conhecido por qualquer um que tenha estudado história, e é o grande responsável pelo passado nebuloso e triste que circunda a vida de Meg. Riordan não poderia ter colocado companhia melhor para se juntar a Apolo em sua jornada de volta ao Olimpo.

Como você pune um deus imortal? Transformando-o em humano, claro! Depois de despertar a fúria de Zeus por causa da guerra com Gaia, Apolo é expulso do Olimpo e vai parar na Terra, mais precisamente em uma caçamba de lixo em um beco sujo de Nova York.

Assim como em tramas anteriores, Rick faz questão de agradar seus fãs com referências a outras histórias suas, remetendo até mesmo ao final de A Maldição do Titã, e aumentando ainda mais aquela suposta teoria de um “mega crossover” no final de tudo. Outro chamariz nesse novo livro é a volta da abordagem de assuntos (infelizmente) polêmicos como a homossexualidade. Ao conhecer seus filhos Austin, Kayla e Will durante uma visita ao Acampamento Meio-Sangue, Apolo descobre uma leve semelhança entre ele e o segundo menino: o fato de ambos se interessarem por homens, mesmo que Apolo também não resista ao charme feminino. E aqui vai uma informação que vai lhe fazer correr para comprar essa obra: o namorado de Will é ninguém menos do que nosso eterno e querido filho de Hades, Nico di Angelo. Outro personagem certamente irá nos agradar é Paulo Montes, um semideus brasileiro filho de Hebe, deusa da juventude (impossível não associar e não rir com o nome).

A primeira história acontece no já conhecido Acampamento Meio-Sangue, onde semideuses estão desaparecendo após entrarem na floresta e dentre eles estão os filhos de Apolo. Ao chegar no acampamento, o Deus descobre que o Oráculo de Delfos está com defeito e perdeu seus poderes, mas nem mesmo os mais sábios sabem explicar o porque. Se você já leu outras obras de Rick Riordan, sabe que não existe um semideus sem uma profecia terrível para guiar seu caminho, então ter um oráculo com problemas é terrivelmente sério…e engraçado. Apolo é sem dúvidas o personagem mais divertido criado pelo autor – mais até do que Magnus -, e seu lado narcisista e egocêntrico nos rende diversas gargalhadas. Os haicais bem construídos no início de cada capítulo só aumentam as qualidades do Deus e mesmo que tais características estejam longe de ser atrativas, juntas irão moldar um ótimo personagem. Não se desesperem com tanta informação, pois as respostas virão (até rimou), e com elas novas perguntas e teorias misteriosas e surpreendentes.

Via: Intrínseca

Recentemente foi lançado o segundo volume de As Provações de Apolo, entitulado A Profecia das Sombras. Mais uma vez Apolo estará envolvido com um oráculo, e esse está mais próximo a ele do que nunca. Logo de cara Rick já nos traz um belo motivo para ler seu livro: Leo Valdez está de volta dos mortos e ao lado de sua namorada Calipso – finalmente liberta de Ogigia -, irão auxiliar o deus em sua incansável busca pelo Olimpo. Perseguidos por seres mágicos a mando do Triunvirato, os três amigos irão contar com a colaboração de antigas aliadas, as Amazonas de Ártemis e Thalia Grace. A nova aventura se passa em Indianápolis, nos Estados Unidos, onde um novo membro do trio inimigo está tentando tomar a cidade e tudo que nela existe. O passado de Apolo vem a tona e mostra que as consequências um dia são cobradas, e nossas ações podem acarretar em muitos problemas no futuro. Nessa nova produção conhecemos o lado romântico do deus, que encontra sua fragilidade onde ele menos esperava. Uma ótima reunião entre o velho e o novo, clássico dos trabalhos de Riordan e que o torna sempre tão prazeroso de se ler.

Tudo acontece muito rápido, mas dura tempo suficiente para não querermos largar o livro em momento algum. Semelhante a todas as outras obras de Rick, mas com o lado divertido de Apolo, A Profecia das Sombras irá trazer de volta personagens esquecidos e adicionar novos dignos de serem guardados no coração. O envolvimento do deus com os vilões se torna extremamente pessoal e ver que ele está provando não apenas para Zeus, mas para si mesmo que errou, é uma ótima lição de vida. A sexualidade de Apolo é muito bem explorada nessa nova trama e o autor nos mostra que rótulos não estão com nada hoje em dia. É mais importante vivermos o amor que transborda do que ficar nos preocupando com a opinião dos outros. E o deus aprende isso da pior maneira possível. O livro termina com – adivinhem – uma profecia, maior do que todas já vistas até agora e mais tenebrosa do que nunca. O lado positivo é a possibilidade de termos a aguardada reunião de todos da saga Heróis do Olimpo, com direito a participação de nosso sátiro preferido.

Ler é Bom, Vai | Pequenas Grandes Mentiras evidencia o poderio feminino em uma sociedade

A série Big Little Lies, da HBO, vem fazendo sucesso com o público – principalmente o feminino – desde o seu lançamento em fevereiro desse ano. O que muitos não sabem porém, é que assim como boa parte das produções televisivas e cinematográficas, essa foi baseada em um livro homônimo de grande sucesso da autora Liane Moriarty. Caso você tenha gostado da série, espere até ler o “roteiro” original…é melhor ainda! Caso você não tenha visto, leia primeiro e depois passe para a produção da HBO!

Pequenas Grandes Mentiras é o segundo romance da autora, sendo publicado no Brasil pela editora Intrínseca. Após o lançamento da série o livro adquiriu uma nova capa, composta pelas atrizes que interpretam os papéis principais de Madeline, Celeste e Jane (Reese Witherspoon, Nicole Kidman e Shailene Woodley, respectivamente).

A trama gira em torno da opinião, poder e influência das mulheres em uma pequena cidade na Austrália, principalmente quando o assunto são seus filhos e a hierarquia paterna na Escola Estadual Pirriwee. Um assassinato rege todo o enredo do livro, e apesar de só descobrirmos a identidade do morto nas últimas páginas, a curiosidade para tal é tão grande que desperta e prende a atenção do leitor até o último momento. E não pensem que Moriarty “encha linguiça” para atingir seu objetivo, pois o entrelaçado de mentiras é muito mais complicado do que pode parecer. Retrocedemos alguns meses antes do crime para conhecer os elementos presentes nele, e é então que as tais pequenas grandes mentiras surgem a cada virada da página. Com dinheiro no banco ou não, cada mãe esconde seu drama por trás do rosto perfeito e jóias, e muitas destes histórias vêm à tona por meio de ameaças e fofocas. Aliás, se existe algo em comum entre todos os pais da escola é a capacidade que tem de falar mal dos outros pelas costas, o que nos é mostrado por meio de pequenos depoimentos alternados entre os capítulos.

Embora o assassinato seja o combustível que move o livro, são os outros elementos que o compõe. A construção de cada personagem por parte da autora é o ponto forte que permite que tudo se encaixe perfeitamente no final. Na história de Moriarty existe apenas um único vilão – revelado logo no começo -, mas os únicos mocinhos têm menos de 10 anos de idade. Ninguém é inocente e ao mesmo tempo todos são, envolvidos pelas tramóias uns dos outros que acabam por degringolar em uma morte.

Outra boa jogada da autora é nos trazer para o passado e presente em uma mesma página. Enquanto lemos a história no passado, temos acesso aos depoimentos fornecidos pelos pais a polícia no presente. Mais uma vez o poder que um boato pode causar está presente em uma trama, e mais uma vez nos pegamos em dúvida sobre que lado seguiríamos no lugar. As três protagonistas estão em todas as mentiras, mas Moriarty as descreve com tamanha maestria que acabamos desenvolvendo empatia por cada uma, e até mesmo torcendo para que todas tenham um final feliz. E o que falar das crianças? Ziggy, Amabella (com M mesmo), Max, Skye, Chloe e Josh são os únicos completamente inocentes desde o início, independente das acusações que recaem sobre o primeiro. Presos e envolvidos nos problemas dos pais, eles querem apenas se divertir como é típico de sua faixa etária. Caso não tenha se apaixonado por eles no livro, certamente irá pelos pequenos atores que os interpretam – e vice versa.

Em suma, Pequenas Grandes Mentiras é um ótimo livro adaptado em uma ótima série. Escrito de maneira simples e intensa por Liane Moriarty, a história capta a atenção de quem a lê desde as primeiras páginas e por mais que o crime em questão não seja o foco de tudo, é ele o responsável pela curiosidade despertada no leitor. Definitivamente uma ótima nova produção da autora de O Segredo do Meu Marido.

 

Ler é Bom, Vai | Quantos segredos uma família pode ter? Tudo O Que Nunca Contei, o novo livro de Celeste NG

Tudo o que nunca contei  foi um desses livros que pega a gente pela capa misteriosa e pela sinopse igualmente vazia, sem revelar qualquer tipo de informação além do básico para atrair os leitores.
” Na manhã de um dia de primavera de 1977, Lydia Lee não aparece para tomar café. Mais tarde, seu corpo é encontrado em um lago de uma cidade em que ela e sua família sino-americana nunca se adaptaram muito bem. Quem ou o que fez com que Lydia — uma estudante promissora de 16 anos, adorada pelos pais e que com frequência podia ser ouvida conversando alegremente ao telefone — fugisse de casa e se aventurasse em um bote tarde da noite, mesmo tendo pavor de água e sem saber nadar?
Logo fiquei animada ao pensar no suspense e no enredo sombrio que as páginas poderiam esconder – e de fato escondem -, mas a maneira escolhida por Celeste Ng para narrar sua trama deixou um pouco a desejar. A história é boa e com um conteúdo denso, mas ao mesmo tempo em que desperta a curiosidade, se arrasta pelos capítulos. Felizmente o livro é curto e muito bem escrito, o que nos motiva a continuar desvendando seus mistérios e tentar descobrir o que de fato aconteceu com Lydia. A autora soube utilizar os argumentos para manter o leitor preso a trama e por isso merece todo o destaque possível.
Divulgação/Intrínseca
Todos sabemos o quão complicada pode ser a relação entre os membros de uma família, mas até que ponto podem interferir na sanidade de um deles? Por meio de idas e vindas ao passado de cada um, Celeste procura nos mostrar a fundo a origem de cada problema, como o florecer do casamento entre James e Marilyn e sobretudo, as consequências do mesmo. Ela também nos dá pequenas dicas ao longo do livro, sobre o que pode vir a acontecer no desfecho – como a relação entre Nathan e Jack -, e mesmo assim nos surpreendemos quando algumas situações são reveladas.

“As pessoas formam uma opinião antes de conhecerem você. — Olhou para ele, subitamente ousada. — Mais ou menos como você fez comigo. Elas acham que sabem tudo a seu respeito. Só que você nunca é o que elas pensam.” 

 Algo que me desapontou em Tudo o que nunca contei é o fato do livro não seguir o estilo policial, mas sim o drama. A morte de Lydia é apenas o estopim para um copo d’água que há muito estava transbordando e é sobre isso que a autora deseja nos falar. Até que ponto o orgulho de um ser humano pode ser superior do que o bem estar daqueles que mais amamos? Celeste faz questão de descrever cada mínimo detalhe de cada momento, o que torna o livro relativamente monótono em diversas partes – mais do que o necessário. A autora poderia ter abordado melhor os diálogos entre os personagens, ao invés de tentar relatá-los por meio frases indiretas.

Quando Celeste optou por não focar sua história em algo específico, mas sim na rede de segredos entrelaçados na família, ela não nos trouxe para perto da trama o suficiente e não conseguimos nos identificar ou desenvolver empatia por alguém. A autora poderia ter abordado melhor os diálogos entre os personagens, ao invés de tentar relatá-los por meio frases indiretas. Apesar disso, não há como negar o talento dela para a escrita e principalmente o fato de que sua narrativa é intrigante. Tudo o que nunca contei nos faz pensar e refletir sobre a vida, e isso pra mim é sinal de um bom livro.

Ler é Bom, Vai | O melhor de John Green e David Levithan está presente em Will & Will – um nome, um destino

John Green ficou conhecido no mundo inteiro como o autor de A Culpa é das Estrelas e Cidades de Papel, duas de suas obras que tiveram adaptações cinematográficas. Muitos não sabem, porém, que ele é o autor de livros igualmente maravilhosos e que apenas não tiveram seus direitos comprados – ainda. Um deles é Will & Will – um nome, um destino, escrito em parceria com outro de meus autores favoritos, David Levithan, e publicado pelo Grupo Editorial Record. A mensagem dessa produção deveria ser propagada e espalhada pelos quatro cantos do mundo. O livro aborda temáticas ainda incrustadas na sociedade como homossexualismo e preconceito, então se você ainda vive no século passado e tem problemas com isso, leia o livro de lado e tente desfazer sua mentalidade arcaica.

Como o título mesmo já diz, o livro conta a história de dois garotos com o mesmo nome e que tem apenas isso como semelhança. O destino resolve entrar em ação e os dois se conhecem em uma sex shop em Chicago após decepções na vida de cada um. Will Grayson vive na cidade e tem como melhores amigos Jane e Tiny, um jovem homossexual assumido e preocupado apenas em aproveitar as oportunidades da vida. O outro Will Grayson mora com a mãe, em um estado evoluído de depressão e tendo desistido da felicidade da vida e do amor, após sua amiga Maura fingir ser seu namorado virtual. Será por meio das forças de seu “xará” e de uma pequena ajuda e Tiny que ele encontrará uma razão para voltar a sorrir novamente.

“Quando as coisas se quebram, não é o ato de quebrar em si que impede que elas se refaçam. É porque um pedacinho se perde – as duas bordas que restam não se encaixam, mesmo que queiram. A forma inteira mudou.”

Um dos pontos chaves do trabalho de Green e Levithan é a naturalidade como tudo é abordado, sem enfoque no fato de que fulano é gay ou ciclano é hétero; todos são pessoas e tratados como tal, independente de sua opção sexual…assim como a sociedade deveria fazer. Os Wills contam sua história de maneira alternada – o que no início pode parecer confuso -, e nos encantam de sua própria maneira particular assim como os responsáveis por narrar suas vidas. Os fãs de cada autor irão identificar seus traços nas páginas e um corrobora com o outro para tornar uma obra maravilhosa de se ler.

Will & Will – um nome, um destino é daqueles livros que acabamos em uma tarde no sofá tomando uma xícara de chá, com sua trama envolvente e 350 páginas que voam em frente aos olhos. Comédia, romance, drama e uma dose necessária de moral se misturam e a dupla de autores sabe exatamente como encaixá-los no enredo para que se torne algo fluido e gostoso de ler. Além disso, a empatia que a história nos proporciona para com os personagens é importante para mostrar a quem quer que esteja lendo que infelizmente, a aceitação e compreensão por parte dos colegas de Will estão longe de se tornarem algo recorrente em nosso dia à dia.

A grande lição que John Green e David Levithan nos dão é que nada importa quando o assunto é amor, amadurecimento e aceitação. Ninguém é obrigado a ser igual a outra pessoa, mas sim a aceitá-la e respeitá-la acima de qualquer coisa. Existem milhões de Wills espalhados pelo mundo e assim como os dois personagens do livro, estão mesclados na sociedade e muitas vezes não paramos para perceber, apenas julgar.

“Sua vida é essa mesma. E, sim, ela é uma merda. A vida costuma ser assim. Portanto, se quer que as coisas mudem, não precisa trocar de vida. Você precisa tirar a bunda da cadeira.

 

Ler é Bom, Vai | A melhor maneira de aprender sobre Mitologia Nórdica é com Neil Gaiman

Há muito tempo tempo atrás estudar sobre mitologia era algo remetente à escola, que tornava o estudo obrigatório e monótono, além de engessado aos enormes livros didáticos de história. Para nossa gratidão e felicidade, autores como Rick Riordan, Tolkien e Neil Gaiman resolveram abordar o assunto de maneira informal e acessível, criando contos fantásticos envolvendo as lendas e personagens da antiguidade e transformando-as em algo discutível entre conversas de amigos. Apesar de muitos contos terem se perdido através das época, visto que alguns datam do início do século XIII, existe um grande montante que sobreviveu aos efeitos do tempo e hoje circula entre prateleiras de livrarias e até mesmo em telas de cinema.

Estamos todos cansados de saber que quando o assunto é Mitologia Nórdica, Neil Gaiman é uma das grandes referências da atualidade – e de antes também. Após o enorme sucesso de “Deuses Americanos” nas livrarias e mais recentemente nas telas, o autor publicou uma espécie de guia para Deuses Nórdicos e suas histórias; e se você assim como eu já leu outras produções da mesma temática – como “Magnus Chase”, de Riordan -, certamente sua memória irá despertar para alguns nomes conhecidos. Quando pensamos nos feitos heróicos, atrapalhados e egocêntricos dos Deuses, diversas são as vertentes que cada uma segue dependendo do país ou do narrador que os contam, entretanto, tudo sempre retorna aos objetivos principais das divindades: poder, adoração e mais poder. Independente de quantos anos você tem, Gaiman nos convida a conhecer a fundo um pouco desses mitos, além de nos introduzir com palavras simples e claras, temas tão complexos quanto os nomes cheios de consoantes presentes nos mesmos.

“Às vezes intensos e sombrios, outras vezes divertidos e heróicos, os contos retratam tempos longínquos em que os feitos dos deuses eram contados ao redor da fogueira em noites frias e estreladas.Às vezes intensos e sombrios, outras vezes divertidos e heróicos, os contos retratam tempos longínquos em que os feitos dos deuses eram contados ao redor da fogueira em noites frias e estreladas.”

Mitologia Nórdica é um coligado de quinze das mais famosas histórias do universo que dá nome ao livro, explicando inclusive alguns fenômenos naturais – como terremotos – como consequências de grandes batalhas. A trama segue uma ordem cronológica: suas primeiras páginas abordam o começo da vida, a gênesis do mundo e de todos os seres que nele vivem; em seguida conhecemos mais um pouco sobre a Árvore do Mundo Yggdrasil (a que está presente na capa de Deuses Americanos) e seus efeitos para a história dos Deuses; a partir daí temos capítulos destinados individualmente a uma divindade – iniciando claro com Odin, seguido de Thor e seu martelo Mjölnir, o astuto e perverso Loki, além de seus filhos monstruosos, Freya e muitos outros. O último capítulo remete ao Ragnarök, ou o fim da era dos Deuses, marcado por diversos eventos catastróficos que culminam na submersão do mundo pela água. Gaiman ainda nos explica no começo do livro sobre sua paixão pelo assunto, descrevendo o que o levou a escrever a obra e como personagens conhecidos (Thor, Loki e Odin) podem não ser tudo aquilo que os filmes da Marvel nos proporcionam.

Mesmo sendo um livro relativamente pequeno quando comparado ao anterior, todo o crédito deve ser dado a Editora Intrínseca por sua publicação, uma vez que Mitologia Nórdica tem uma encadernação maravilhosa de capa dura, com textura e fonte em relevo que irão destacar ainda mais o imponente martelo Mjölnir. Apesar do tamanho, a obra apresenta um conteúdo de imensa importância para o entendimento daqueles interessados neste ramo da mitologia, introduzindo novos assuntos, relembrando outros e esclarecendo histórias mal contadas durante os anos. Basicamente, Gaiman criou o livro didático mais legal que poderia existir em todos os 9 mundos de Yggdrasil.

Caso esteja procurando uma história densa e complexa – como as típicas do autor -, esse não é o livro para você. Escrito de maneira superficial, Gaiman não busca uma trama entrelaçada com um final feliz que irá te surpreender, mas apenas traz para o papel as informações que coletou durante todos os anos. Da melhor possível, Mitologia Nórdica flui diante dos olhos e desperta uma fome de aprender ainda mais sobre o imenso universo que é a mitologia, independente de onde e de quem ela fale sobre.

Divulgação/Intrínseca

Ler é Bom, Vai | Minha Metade Silenciosa, um livro necessário de Andrew Smith

Em tempos onde o combate ao bullying está em alta nas redes sociais, seja pelo “jogo da baleia azul” ou pela maravilhosa produção da Netflix, 13 Reasons Why, resolvi escolher um livro com temática semelhante para o Ler É Bom, Vai! de hoje.

Minha Metade Silenciosa narra a vida de Stark McClellan, um menino alto e franzino de 14 anos e que por conta de suas características físicas recebeu o apelido de Palito. Esse é, porém, o menor dos problemas de Stark em relação aos pré julgamentos, já que a razão de todo o bullying sofrido por ele é o fato de que ele nasceu “deformado” com apenas uma orelha – entenderam o título? Seu irmão mais velho Bosten sempre tenta o defender nas mais diversas situações, mas quando o assunto é a violência e o abuso dentro da própria casa, os dois meninos sofrem juntos. Enfrentar a adolescência já é complicado quando temos o apoio de nossa família e um lugar seguro para retornar no fim do dia. Stark nem isso tem. Quando o irmão foge de casa para escapar do pai, o menino vê tudo desabar e resolve ir atrás dele. Inicia-se então a maior aventura de sua vida.

“E nada do que aconteceu conosco faria sentido se eu não deixasse os verdadeiros monstros que nadavam em minha cabeça aflorarem e mostrarem seus dentes. E não há amor na minha casa, somente regras.” 

Viajar sozinho e sem rumo ajuda o menino a amadurecer e deixar para trás algumas coisas supérfluas que costumavam importar. As belas palavras do autor nos levam ao lado de Stark e por mais que muitos talvez fizessem parte do time que seriam maus com o menino, não há como não se identificar com o sofrimento e angústia que o mundo lhe oferece. Assim como aconteceu em Os Treze Porquês, houve diversos momentos em que quis entrar pelas páginas e defender o garoto das pessoas perversas que cruzam seu caminho, mas mais uma vez Andrew Smith nos oferece o conforto de saber que ainda há esperança na sociedade – mesmo que pouca.

Minha Metade Silenciosa é daqueles livros que você termina em poucas horas e depois se pergunta porque fez isso, já que gostaria de ter mais história para ler. Os personagens são tão complexos e bem desenvolvidos que nenhuma ponta fica solta no fim. Mesmo tendo suas próprias tramas para contar, cada um é uma peça no grande quebra-cabeça elaborado por Smith. Não pense você que a trama é infantil por se tratar de um livro “para adolescentes”, pois os abusos psicológicos e sexuais sofridos por Boston estão presentes em mais casas do que imaginamos pelo mundo, e é um tema não suficientemente abordado. A hipocrisia, a homofobia e o preconceito ainda estão incrustados em alguns seres humanos – se é que podemos nos referir assim -, e cabe a nós evitar que mais Starks e Bostens sofram por isso.

Apesar de ser um drama em boa parte do tempo, há momentos de amor e ternura nas páginas de Andrew representando a famosa luz no fim do túnel. O conforto familiar oferecido pela tia dos rapazes simboliza aquele resquício de ilusão de que tudo ficará bem – por mais que demore, fica. O autor não nos poupa de palavras pesadas e intensas, sejam elas boas ou ruins, e farão o leitor emocionar-se em ambas as situações. Como o livro é narrado sob o ponto de vista de Stark, temos toda e completa noção do que os olhos adolescentes e castigados estão vendo, além dos sentimos reais expressos em seu “diário”. Muitas vezes nos questionamos se aguentaríamos metade do que o menino sofre e continua sorrindo, amando e vivendo sua vida como um garoto de 14 anos.

Seres humanos precisam daquele buraco, para que as coisas possam sair. As coisas entram na minha cabeça e ficam quicando lá dentro até arrumarem um jeito de sair.

Um livro que nos mostra o real valor da amizade entre irmãos, o quão ruim um ser humano pode ser – mesmo que ele seja seu pai, a perseverança de continuar vivendo dia após dia e quanto amor pode existir dentro de uma pessoa. Minha Metade Silenciosa entra na lista de livros necessários a serem abordados até mesmo em escolas e faculdades, visto que ainda encontramos esses “problemas” entranhados na sociedade.

Ler é Bom, Vai | #Girlboss, uma divertida aula sobre negócios por Sophia Amoruso

Há quem diga que gostar de um livro depende muito do momento em que seus pensamentos se encontram e definitivamente #GIRLBOSS é um clássico exemplo disso. Provavelmente teria achado ele entediante em outras épocas, mas me identifiquei muito com a fase iniciar de Sophia Amoruso – inclusive marcando algumas de suas frases -, e devorei o livro em apenas alguns dias.

Em #GIRLBOSS, assim como na série homônima da Netflix, Sophia nos relata sobre os momentos cruciais de sua carreira e como sua vida girou em torno disso. Em boa parte das páginas temos situações engraçadas e de superação, que transformam o livro em uma espécie de guia para o sucesso inesperado. Quando ela resolve partir para apenas instruções e termos técnicos nós já estamos apaixonados pela história, e por mais que se torne burocrático e monótono, Amoruso sabe como manter seu público preso em suas palavras.

“Não importa onde você está na vida, você vai poupar muito tempo ao não se preocupar demais com o que os outros pensam de você […]. Você é quem você é, então, acostume-se com isso.”

Uma das maiores qualidades de Sophia é não ligar para o que os outos podem vir a pensar de suas ações – ela realmente não liga para as consequências. Sejam seus ideais anarquistas e anticapitalistas, ela sempre procurar tirar o melhor proveito de todas as situações e dar a volta por cima a seu favor. A maneira fácil e objetiva como Sophia escreve nos traz para dentro de seu universo e parece que estamos lendo um conto fantástico ao invés de pura realidade. Você pode não concordar com tudo o que ela faz e/ou diz, pois o lado impulsivo da moça é facilmente confundido com prepotente e petulante. Entretanto, o objetivo desse grande relato chamado #GIRLBOSS não é saber nossa opinião e sim apenas contar uma história.

Seja você uma ou um adolescente, duvido não ter vontade de sair pedindo carona pelo país e vivendo as loucuras de Sophia sem a menor preocupação com o dia de amanhã. Lembre-se, porém, de tudo que ela teve a ensinar em seu “roteiro”. Não é todo mundo que irá sentar em frente ao computador, criar uma conta no eBay e alguns meses depois ter um império de milhões de dólares. Sophia é bem clara em tudo que diz, procurando sempre vangloriar-se e trazer mais público para sua empresa, mas não iludindo o leitor de que tudo tenha sido fácil.

“Quando as vendas aumentavam, perto das festas de fim de ano, eu ficava tirando fotos da tela toda vez que o saldo da conta subia, porque eu não sabia se algum dia veria novamente tanto dinheiro acumulado. Eu queria lembrar, para sempre, como eram ter tantos zeros juntos.”

#GIRLBOSS é uma grande aula divertida e objetiva sobre como ter seu próprio negócio, mesclando uma dissertação cômica e pessoal com termos técnicos e burocráticos do mercado. Por mais que apareça bastante entre as páginas, a palavra “sorte” não pode descrever e levar todo o mérito pelo sucesso de Sophia Amoruso. Não, ela não passou pelos típicos rituais de uma adolescente – escola, faculdade, estágio e emprego -, mas talvez tenha batalhado mais pelos seus objetivos do que muitos. Aprender a lidar com pessoas e dedicar-se intensamente a seus sonhos foi o que transformou a menina de 22 anos na multimilionária dona da Nasty Gal.

Por fim, a autora optou por também incluir depoimentos de outras #GIRLBOSSes, que em algum momento tiveram suas histórias unidas em um só lugar. A única crítica está nas partes finais do livro, que demoram mais a passar do que a obra inteira. Sophia tenta nos convencer de coisas e introduzir de qualquer maneira os princípios da Nasty Gal, indo contra todas as suas ações até então. Não é algo que comprometa a trama como um todo, longe disso, mas evita que tenhamos um fechamento com chave de ouro.

 

Ler é Bom, Vai | Cormoran Strike, os misteriosos e desconhecidos romances policiais de J.K. Rowling

Não, você leu não errado e nem a pessoa que vos escreve está ficando maluca. A aclamada autora da saga Harry Potter, J.K. Rowling, escreveu três romances policiais nos últimos anos – sob o pseudônimo de Robert Galbraith – e eles são excelentes! Por que Rowling optou pelo nome falso? Simples, ela não queria que as pessoas lessem suas histórias apenas por ela ser quem é, mas sim pelas palavras e pelo conteúdo presente em suas novas produções. Até agora foram três livros publicados, mas Rowling já afirmou que o quarto está em produção. O sucesso foi tanto que a HBO, em parceria com a BBC One, adquiriu os direitos de produção e Cormoran Strike se transformou em The Strike Series, futura série de televisão britânica com 7 episódios.

O primeiro livro recebeu o nome de O Chamado do Cuco e é o primeiro caso de Cormoran a que temos acesso. Após perder a perna e ser considerado um herói de guerra, Strike adentra no mundo de detetives particulares e é contratado para investigar a morte de uma super modelo, Lula Landry, considerada suicídio pela polícia, mas não por seu irmão. Enquanto isso, uma empresa de  funcionários temporários lhe envia semanalmente uma secretária, e por não poder arcar com as despesas, ele acaba as dispensando. É então que chega Robin Ellacot – bela, objetiva e inteligente -, que desperta no detetive um ânimo que ele há muito não encontrava. No fim da semana, ele acaba indo contra seus princípios e contratando-a. É o começo de uma maravilhosa parceria que irá nos fazer suspirar e gargalhar pelas páginas, além de nos deixar em dúvida sobre torcer ou não para um suposto casal.

Tenho de confessar que esse é o meu menos favorito dos três, pois a medida que Galbraith nos apresenta as características de Cormoran, acaba fornecendo detalhes demais e o livro se torna maçante. O detetive é muito complicado na vida e em seus relacionamentos, e no começo da história, não há nada de muito interessante que nos obrigue a prestar atenção. Não demora muito, porém, para a história engrenar e as teorias começarem a surgir na cabeça. Enquanto os primeiros capítulos passam lentamente, do meio para o fim não podemos piscar e a trama já se mostra dinâmica, inteligente e muito bem escrita. Com um desfecho surpreendentemente sensacional, o autor encerra seu primeiro caso e abre o caminho para uma ótima série de livros policiais.

“O que realmente nos faz falta, se formos honestos o suficiente para admitir, são as travessuras divertidas dessa garota de boa vida e fina como papel, de cuja existência de quadrinhos marcada por abuso de drogas, vida tumultuada, roupas elegantes e namorado perigoso e errante, não podemos mais desfrutar.”
Em O Bicho da Seda a história já engrena mais cedo, visto que não temos toda a introdução ao personagem de Cormoran. Neste caso, assim como no anterior, temos um parente da vítima (a esposa Leonora) acreditando que algo diferente aconteceu. O escritor Owen Quine desapareceu repentinamente, e por mais que a senhora tivesse todas as razões para acreditar que era outro dos típicos sumiços do marido – feito para que alguém sentisse sua falta e envaidecesse seu ego – ela contrata Strike para encontrá-lo. Tratando-se de J.K. Rowling, não poderia ser um simples caso de desaparecimento, e não demora muito para descobrirmos o porque. Assim como o detetive, nos deparamos com uma rede de corrupção e falsidade exposta no último livro de Owen, resultando em uma série de pessoas que desejariam silenciá-lo.

Leonora não tarda para ter suas respostas e seu marido logo é encontrado brutalmente assassinado, o que só instigou Cormoran a descobrir o motivo de um crime tão macabro. Para nossa felicidade – ou não – o lado detalhado de Galbraith retorna nesse momento e cada parte do corpo do escritor é descrita, incrementando ainda mais o horror na morte de Owen. Robin e Strike se desdobram para investigar a complexa vida do morto e tudo aquilo que o rodeia, e Galbraith consegue sem esforços, nos trazer para dentro do processo. O relacionamento entre os dois já está mais desenvolvido e uma chama de torcida para um suposto casal florece no leitor. Pistas e informações vão surgindo, assim como teorias e hipóteses em nossas cabeças.  Quando tudo parece estar claro, percebemos que não estamos nem perto do veredicto. Se você achou o final de O Chamado do Cuco surpreendente, prepare-se para O Bicho-da-Seda. Apesar de ser um novo caso sem a menor relação com o anterior, ler o primeiro é estritamente recomendável devido a união entre os dois protagonistas, que vai se desenvolvendo com o decorrer das histórias.

“Owen Quine pensava que as mulheres não tinham lugar na literatura: ele, Strike, também tinha um preconceito secreto – mas que alternativa tinha agora, com o joelho gritando por misericórdia e nenhum carro com direção automática para alugar?”

Finalmente chegamos ao último livro da série publicado até agora, e também o meu favorito, sendo aquele que li mais rápido entre os três. Se você chegou até aqui é porque se encantou pelas palavras de Galbraith e por seus dois protagonistas, e felizmente (ou não) nesse livro a torcida por Robin e Cormoran fica mais forte do que nunca. Apesar de ambos estarem em um relacionamento sério, ela tem o “poder” de fazer Strike se abrir e olhar para dentro de si, revelando o melhor lado do investigador e impedindo que ele consiga viver sem ela. Ele por outro lado é o alvo das brigas entre Robbie e Matthew, e a secretária prefere um inferno astral em casa a sair do escritório pequeno. A moça conquistou espaço não apenas no protagonismo da saga, mas também em nossos corações.

O macabro nos pega logo no início, quando a secretária recebe nada mais do que uma perna decepada pelo correio e desperta em Strike memórias de quatro possíveis pessoas que poderiam ter enviado-a. O que todos tem em comum? Simples, o fato de serem extremamente violentos, perigosos e odiarem o detetive. Diferente das outras histórias de Galbraith, onde a dupla apenas investigava os crimes, nessa eles são o alvo de tudo – principalmente Cormoran -, tendo que descobrir o mais rápido possível para salvar suas vidas. Pouco a pouco vão revendo casos antigos de Cormoran, investigando cada suspeito a fundo e desenredando uma rede de informações interligadas e mal resolvidas do passado.

Outra divergência nesse livro é o ponto de vista do vilão, entreposto entre os capítulos e aguçando ainda mais nosso desejo de descobrir quem é o responsável por pensamentos tão sombrios e pútridos. Os pensamentos do assassino são expostos desde o início da trama e o tempo todo nos vemos com vontade de invadir as páginas e alertar Robin do que está por vir. Vocação para o Mal é a prova de que mesmo após tantos trabalhos publicados – incluindo outros dois livros da série – Rowling ainda consegue nos surpreender e deixar-nos de queixo caído. Se você não havia se surpreendido com os dois primeiros desfechos, duvido que não o faça nesse, e se fizer….parabéns Cormoran!

“Ele pretendia infligir tanta dor em Cormoran Strike, uma dor sobre-humanamente possível. Iria muito além de uma facada nas costas no escuro. Não, o castigo de Strike seria mais lento e mais inusitado, assustador, tortuoso, e por fim devastador.”

Ler é Bom, Vai | O colorido e magnífico universo de WondLa

Muitas são as vezes em que um livro nos engana pela capa. Cores brilhantes e chamativas, desenhos bem trabalhados ou paisagens enigmáticas são alguns dos exemplos mais conhecidos, mas graças à tecnologia e a criatividade de seus autores, são inúmeras as opções. Quando recebi em casa o exemplar de A Batalha por WondLa, do autor e ilustrador Tony DiTerlizzi (de “As Crônicas de Spiderwick”) e publicado pela Editora Intrínseca, descobri ser o último de uma trilogia iniciada em 2012. As ilustrações das capas, os desenhos estampadas nas páginas e os comentários de Rick Riordan na frente dos três livros aguçaram minha curiosidade e quando percebi já estava com os dois precursores nas mãos.

DiTerlizzi criou um mundo mágico recheado de fantasia, cores e personagens maravilhosos, além de desenvolver um enredo entrelaçado durante os três livros, que irá captar a atenção do leitor até o fim. As três edições foram elaboradas com primor, compostas por páginas grossas e intercaladas com as ilustrações do autor, sempre muito bem feitas e relevantes em um universo tão abstrato. Os seres que habitam o planeta Orbona são desconhecidos, apesar de bem detalhados, tornando fundamentais as “fotos” idealizadas por Tony.

Nomeado Em Busca de WondLa, o primeiro livro narra a jornada de Eva Nove, uma menina de 12 anos que vive com sua mãe, a robô Mater, em uma espécie de bunker completamente automatizado no subsolo. A menina foi criada no Santuário e nunca viu o mundo exterior, nunca conheceu ninguém além da robô e nunca comeu ou bebeu nada que não fossem comprimidos, purificadores de água ou NutriBarras. Eva sonha em conhecer a superfície e encontrar outros de sua espécie – humanos -, mas de acordo com Mater e seu Onipod, ela precisa estar preparada. A menina passa pelas mais variadas simulações holográficas, representando situações de risco que poderiam vir a ocorrer, inclusive perigos fatais.

Logo ficamos sabendo de onde vem a palavra que dá nome ao título. Durante uma de suas muitas explorações pelo Santuário, Eva encontrou um pequeno azulejo com a imagem de uma menina de mãos dadas com um homem e um robô exalando felicidade, e decidiu que era aquilo que queria para sua própria vida. Por mais que estivesse quebrado, ainda foi possível distinguir as letras W-O-N-D-L-A, e desde então, Eva passou a procurar o seu WondLa. A segurança da criança é dissolvida quando uma gigante criatura invade o Santuário e destrói tudo, restando a Matter enviar a menina para a superfície. DiTerlizzi descreve minuciosamente cada segundo e transparece a angústia das duas ao ver sua vida virar um caos, e antes que percebamos estamos torcendo para que tudo dê certo.

Você deve estar se perguntando quem é a criatura à esquerda na foto e ele é simplesmente o segundo melhor personagem da história – você já vai conhecer o primeiro. Eva descobre um mundo completamente diferente daquilo que Mater lhe ensinou, começando pelo nome: a Terra agora se chama Orbona, e é habitada pelos mais diversos e curiosos alienígenas. Entre eles está Andrílio Kitt (o azul da foto), um cæruleano simpático e gentil que se transforma no melhor amigo de Eva, servindo de conselheiro e protetor quando ela mais precisa. É graças a Andri que a menina consegue desvendar os mistérios do planeta e seguir sua busca por outros humanos, mesmo que acabe encontrando os piores problemas de sua vida. No final do primeiro livro conhecemos Hayley, o primeiro garoto que Eva conhece na vida e que está disposto a levá-la para seu grande sonho.

O primeiro melhor personagem é, em minha opinião, o gigante urso-d’água Otto. Extremamente fiel a criança, ele acompanha a trupe em busca dos humanos de Nova Ática – uma cidade habitada por pessoas que assim como Eva, nunca viram o mundo. O que parecia um sonho, logo se torna no pior pesadelo possível e os habitantes da cidade – principalmente o líder Cadmus – revelam-se piores do que o desconhecido do lado de fora.Aqui Tony nos introduz uma Eva mais madura após a perda da mãe, e já não é mais a garota mimada do primeiro livro. Mais uma vez, graças as ilustrações do autor, acompanhamos “de perto” a transformação física da menina e de tudo a sua volta, descrito no vocabulário criado por Tony dentro desse universo tão complexo e encantador. Logo nos transportamos para Orbona e viajamos na imaginação.

Fala sério, quem não gostaria de levar o Otto para casa?

Em 2017 finalmente a trilogia chegou ao fim com o livro A Batalha de WondLa e quem diria, deixou aquela sensação de vazio quando a história acabou. Tony nos prende tanto a sua trama que três “livros infantis” foram devorados em menos de uma semana, e ver um desfecho se aproximando é desanimador. Ver o quanto Eva cresceu nos enche de orgulho e aprendizado, pois assim como ela, não conhecemos todo o mundo que vivemos. Amizade, confiança, amor e lealdade são alguns dos princípios muito valorizados do início ao fim, e quando algum deles é quebrado, temos vontade de entrar nas páginas e ajudar a menina a resolver. Não se desespere se parecer que as páginas estão passando e os perigos aparentam estar longe de uma solução, pois não é agora que DiTerlizzi nos decepciona. 

A tão sonhada família de Eva brota diante de seus olhos a medida que ganha novos amigos. Não é porque é composta de humanos e alienígenas que não pode representar uma família, certo? Diante da possibilidade de perder tudo e todos que mais ama, a menina se vê no meio de uma guerra de traições, egoísmo, egocentrismo e covardia, e tem de apelar para o âmago de sua personalidade para não desmoronar. Assim como toda fábula, a história de Tony tem um fim e a forma como ele chega e é exposto ao leitor não poderia ser diferente de esplêndida. Um belo desfecho para uma história tão bonita e criativa, certamente algo muito divergente do que esperava quando abri a primeira página do primeiro exemplar.

Ler é Bom, Vai | O Extraordinário mundo de Auggie, por R.J. Palacio

Não falta muito para vermos Jacob Tremblay (de “O Quarto de Jack“) na pele de August Pullman – ou Auggie – nos cinemas. O menino é o protagonista e narrador de Extraordinário, filme baseado no livro homônimo de R.J. Palacio de 2013. Quatro anos depois, Stephen Chbosky,  autor de “As Vantagens de Ser Invisível  “(confira a matéria sobre o livro aqui), assumiu a direção e resolveu levar a história de Palacio as telas no dia 11 de maio, razão pela qual estou escrevendo sobre ela agora. Coincidentemente, ontem recebi da Editora Intrínseca o livro Somos Todos Extraordinários, uma espécie de história em quadrinho escrita e ilustrada pelo mesmo autor. Com apenas 32 páginas, é uma excelente adição a trama original, principalmente para o público infantil.

“A única razão de eu não ser comum é que ninguém além de mim me enxerga dessa forma.”

O que faz de Auggie um garoto extraordinário? O que o torna diferente de todos os outros? Primeiramente, suas características físicas. August nasceu com uma síndrome genética rara que deformou seu rosto com o tempo, mesmo após inúmeras tentativas cirúrgicas e idas ao hospital. Não é sua aparência, porém, que o torna especial, mas sim a maneira como ele enxerga o mundo e nos relata por meio de seu ponto de vista. Tudo começa quando um de seus maiores desejos e medo se tornam reais e seus pais decidem enviá-lo para escola. Todos sabemos o quão desafiador pode ser começar em uma escola nova, onde ninguém lhe conhece e os grupos já estão formados. Imagine então fazer isso com uma deformidade no rosto. Crianças não possuem o mesmo senso crítico que muitos adultos – por mais que muitos ainda não o tenham -, e logo piadas cruéis surgem na vida de Auggie.

Ser narrado pelo ponto de vista do menino é o que faz o livro tão especial, pois nos mostra realmente o que se passa na cabeça de uma criança vítima do bullying e do preconceito, ao invés da visão enraizada de um adulto. Não pense você que isso torna a trama infantil. Auggie é um menino extremamente maduro, consciente, inteligente e de mente aberta, encarando todas as situações da melhor maneira possível. Sua ingenuidade e pureza não o permite desenvolver raiva, mesmo quando percebe as pessoas encarando-o, chamando-o de aberração em voz alta ou simplesmente desviando o olhar. Como todo humano, ele chora e se revolta com as situações, mas busca sempre enxergar o lado irônico e positivo de tudo. A personalidade jovem e engraçada de Auggie vai fazer você se apaixonar por ele desde as primeiras páginas, além de se emocionar com as belas palavras do menino.

Eu gostaria que todos os dias fossem Halloween. Poderíamos ficar mascarados o tempo todo. Então andaríamos por aí e conheceríamos as pessoas antes de saber como elas são sem máscara.”

Palacio optou por uma forma simples de conduzir sua trama, através de expressões fáceis e típicas de uma criança de dez anos. Muitos lilvros são narrados pelo protagonista, mas percebemos ser apenas uma visão retratada do(a) autor(a). Em Extraordinário isso não acontece. Temos a impressão de estar lendo um diário de Auggie, onde ele deposita seus desabafos, suas birras e insatisfações com o mundo ao seu redor. A intensidade é tanta que você vai querer entrar no livro e dar um grande abraço no menino, dizer-lhe que tudo vai ficar bem e que o mundo não é tão cruel assim. Mas ele é.

Extraordinário é um daqueles livros que deveriam ser adotados em escolas, independente da série ou da faixa etária de seus leitores. Assim como Auggie, diversas pessoas passam por problemas semelhantes e não tem a mesma percepção positiva sobre tudo. O menino nos dá uma aula de como viver e como tratar o próximo, independente do que ele tenha feito conosco. Amigos de verdade não se importam com a maneira como nos vestimos ou parecemos fisicamente. Se algum dos seus faz isso, é melhor rever a amizade.

“Deveríamos ser lembrados pelas coisas que fazemos. Elas importam mais do que tudo. Mais do que aquilo que dizemos ou do que nossa aparência. As coisas que fazemos sobrevivem a nós. São como os monumentos que as pessoas erguem em honra dos heróis depois que eles morrem.”

Ler é Bom, Vai | A Cabana oferece uma visão ampla e literária sobre religião

“Os humanos estão tão perdidos e estragados que para vocês é quase incompreensível que as pessoas possam trabalhar ou viver juntas sem que alguém esteja no comando.”

Há muito tempo não ouvíamos falar de A Cabana, livro de William P. Young. Publicado em 2007 nos Estados Unidos e em 2008 no Brasil, a obra já vendeu mais de 18 milhões de cópias no mundo, e voltou a ser assunto em redes sociais esse ano. O motivo? Simples, Young terá sua história transmitida nas telas de cinema, 10 anos depois, contando com um elenco de peso na pele de seus personagens ( Sam Worthington, Octavia Spencer, Alice Braga e muitos outros).

Muitos irão questionar os motivos de Young ter publicado seu livro e do mesmo ter feito tanto sucesso. A Cabana é basicamente um livro – polêmico – sobre religião, fé e principalmente, até que ponto um homem está disposto a ir para atingir o fundo do poço. Não pense, porém, que caso você não acredite em Deus – como eu – esse livro não é para você. Existe algo muito maior nas palavras do autor que irá captar sua atenção e surpreendê-lo a medida que a trama se desenvolve. Entretanto, nem tudo são flores. A leitura desse livro é monótona e carregada de discursos longos, que me fez chegar muito próximo de largá-lo de lado e procurar uma história de ficção. Os momentos de resolução do crime principal são curtos, rodeados de momentos de reflexão que poderiam ter durado muito menos.

A Cabana conta a história de Mackenzie Allen Phillips (Worthington), um pai que vive em uma espécie de “bolha de tristeza” após a morte de sua filha mais nova, Missy. A maneira como a menina foi levada de sua vida e do mundo acabou com a vida de Mack e de sua família, além de devastar o resquício de fé que ele tinha em Deus. Quatro anos depois da tragédia, um singelo bilhete surge na caixa de correio da família endereçado a Mack, e o que parecia ser apenas uma brincadeira se transforma na corda que irá tirá-lo do fundo de sua Grande Tristeza. Disposto até mesmo a aceitar o fim da própria vida, ele retorna a fatídica Cabana, local onde seu pior pesadelo começou, esperando encontrar o assassino de sua filha. O que ele encontra, porém, são as últimas pessoas que imaginara ver um dia: Deus, Jesus e o Criador.

“Só porque você acredita firmemente numa coisa não significa que ela seja verdadeira.”

Mack precisa de uma redenção em sua vida, carregada pelo fantasma da morte de Missy, e a encontra nas palavras e ações do trio celestial presente na cabana. Lá, o homem aprende importantes lições como o perdão, a tristeza, a aceitação e a vingança. Para muitos tudo pode não passar de asneiras motivacionais, ou até mesmo um livro de auto ajuda, mas não devemos ser tão céticos assim ao ler A Cabana. O livro de Young carrega termos e cunhos religiosos, mas oferece uma trama simples e densa, onerada pelo desconsolo da perda de alguém tão próximo. Não é preciso acreditar em Deus para entender o sofrimento de Mack e solidarizar-se com as lágrimas derramadas. As lições ensinadas por Papai, Jesus e Sarayu são ao mesmo tempo profundas e rasas, relembrando-nos de circunstâncias banais onde possamos ter julgado errado, interpretado errado e por consequência, reagido errado.

“Deus não precisa castigar as pessoas pelos pecados. O pecado já é o próprio castigo, devora as pessoas por dentro. O objetivo de Deus não é castigar, Sua Alegria é curar.”

A Cabana diverge a opinião de quem o lê. É daqueles livros que ou você ama, ou odeia, visto que é preciso paciência para chegar até o fim. O desfecho da trama é surpreendentemente bonito e feliz, após páginas e páginas de dor e sofrimento. A maneira como Young transcorre o delicado – e polêmico – assunto de religião é diferente de muitas “lavagens cerebrais” que encontramos por aí. Em momento algum o autor te força a acreditar em tudo aquilo que está escrevendo, mas o tema fé está presente em cada acontecimento descrito. Então se você é um ateu radical indisposto a ler qualquer tipo de matéria que carregue o nome Deus, esse livro não é para você. Caso você não seja, apesar dos momentos lentos e extensos, A Cabana é um livro que nos faz abrir a cabeça e pensar muito naquilo que fazemos.

Não estou pedindo que acredite em nada, mas vou lhe dizer que você vai achar este dia muito mais fácil se simplesmente aceitá-lo como é, em vez de tentar encaixá-lo em suas idéias preconcebidas.

Ler é Bom, Vai | Antes que Eu Vá reflete sobre a curta duração de uma vida

Essa semana resolvi continuar o que vinha fazendo nas postagens anteriores…falar sobre livros que tiveram ou terão sua história adaptada para as telas. Diferente dos anteriores, Antes que Eu Vá será exibido nos cinemas e não na tela do computador ou televisão, razão pela qual precisava falar sobre ele após recebê-lo em casa (obrigada Intrínseca!).

Já imaginou o que aconteceria se juntássemos Meninas Malvadas, Como se Fosse a Primeira Vez e Contra o Tempo? Não? Provavelmente teríamos a história de Antes que Eu Vá, livro de Lauren Oliver. Apenas pela sinopse podemos perceber a referência ao primeiro filme, visto que “Samantha Kingston tem tudo: o namorado mais cobiçado do universo, três amigas fantásticas e todos os privilégios no Thomas Jefferson, o colégio que frequenta — da melhor mesa do refeitório à vaga mais bem-posicionada do estacionamento”. Ter tudo, porém, não significa nada quando você morre, já que a morte é algo que todos irão passar um dia -independente de seu nível de popularidade.

“Você acha que eu estava sendo tola? Ingênua? Tente não me julgar: lembre-se que somos iguais, eu e você.
Também pensei que fosse viver para sempre…”

Um terrível acidente de carro termina com o reinado de Sam e seus privilégios, mas diferentemente do que acontece com a maioria das pessoas, ela não permanece morta. Durante uma semana a vida da menina sofre um ‘reset’ e começa na manhã do dia 12 de fevereiro — o dia do acidente —, com a diferença de que ela lembra de tudo o que aconteceu no “dia anterior”. E as pessoas não.

Ser obrigada a lidar com a morte, esquecimento, fim e solidão mexe com a cabeça de Sam, e a fazem enxergar a vida com outros olhos. Lauren Oliver começa aí sua aula, mostrando ao leitor o verdadeiro significado de nossas ações. Será que um simples olhar ignorado no corredor ou receber uma rosa — ou um buquê — no Dia do Cupido tem a mesma importância para todos? Sam descobre que não da pior maneira possível.

“As crianças sempre fazem esse tipo de coisa umas com as outras. Não é nada demais. Sempre vai haver uma pessoa rindo e outra sendo o motivo da graça. A grande questão em crescer é aprender a ficar do lado de quem ri.”

A cada dia que passa, Sam procura corrigir as coisas que fazia antes do acidente e acaba por descobrir segredos há muito escondidos e nunca revelados, que podem levar uma pessoa a querer tirar sua própria vida. É o que aconteceu com Juliet Sykes, uma menina do colégio vítima de bullying há anos, originado no grupo de amigas de Sam. Ver uma outra jovem estar disposta a acabar com a própria existência — coisa que Sam está tentando evitar — a faz repensar seus atos, e ela toma como meta de vida, evitar um suicídio. Entretanto, uma série de acontecimentos estão interligados e culminam para o que Juliet está prestes a fazer, razão pela qual estereótipos têm de ser deixados de lado e preconceitos desfeitos para que tudo dê certo. Mais uma vez, Lauren expõe comportamentos de Sam que certamente serão semelhantes a muitos que um dia tivemos na vida. Muitos leitores estarão do lado da protagonista, mas muitos estarão também, do lado de Juliet.

É claro que o amor não ficaria de fora de tudo isso, afinal estamos falando de uma adolescente popular no auge de seu ensino médio. Não é muito difícil imaginar o namorado de Sam, após toda a descrição feita até aqui. Rob é igualmente popular e desejado por várias outras meninas, mas sem possuir um só neurônio. O oposto é revelado em Kent McFuller, o nerd dos olhos claros apaixonado por Sam e alvo de boa parte de suas piadas. A imagem dos dois garotos é igualmente construída e desconstruída pela autora nos momentos certos, a medida que passam as páginas. Não é sempre que o óbvio é a melhor opção, por mais que muitas vezes preferimos optar pelo mais fácil. Kent é o responsável pela única ponta de esperança que tudo corra bem no fim, pois diferentemente do que acontece na maioria das vezes, é pelo nerd que nos apaixonamos.

“Quando sairmos do colégio, vamos olhar para trás e saber que fizemos tudo certo, que beijamos os caras mais bonitos, fomos às melhores festas, fizemos bastante besteira, ouvimos música alto demais, fumamos cigarros demais, bebemos demais, rimos demais e ouvimos de menos, se é que ouvimos alguma coisa.”

O único ponto negativo do livro é uma certa repetitividade, uma vez que o mesmo dia recomeça sete vezes. Chegamos a um ponto da leitura que a mesma se torna cansativa e dá vontade de pular logo para o final. Tenham paciência, Oliver fez questão de nos compensar. Confesso que fiquei com medo em relação ao desfecho, pois após 350 páginas de comportamentos fúteis e imaturos por parte de Sam, um final de conto de fadas seria inconcebível. Entretanto, não há como não ficar triste pela morte de Sam, mesmo que seja uma tristeza boa. A menina que começou o livro não é a mesma que o termina, e sentimos orgulho pelas decisões que ela resolve tomar. A lição final que Lauren nos dá pode ser resumida em uma famosa frase de Antoine de Saint-Exupéry, autor de “O Pequeno Príncipe”: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”. E Sam se tornou.

Ler é Bom, Vai | O denso e maravilhoso universo de Os Treze Porquês

Antes de Os 13 Porquês, o livro mais rápido que li na vida tinha sido em 6 horas e foi O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares. Diversas pessoas me recomendaram a leitura da obra de Jay Asher, alegando ter sido um dos melhores que já leram…e agora, 4 horas depois,  posso dizer que compartilho a opinião.

Como é de se imaginar após o tempo que leve para concluir a trama, Os 13 Porquês tem uma leitura extremamente fácil, gostosa e fluida – dessas que não nos dá vontade de parar -, instigando o leitor a concluir a história o mais rápido possível. Além disso, a maneira como nos identificando com os dois protagonistas nas mais distintas maneiras pode lhe assustar. Obviamente, não estou dizendo que você vai terminar o livro e querer cometer suicídio, pelo amor de Deus, mas irá abrir os olhos para as pessoas que estão ao redor. Um sorriso no rosto nem sempre significa um sorriso interno.

“É importante estarmos consciente do modo como tratamos os outros. Mesmo que alguém pareça ignorar um comentário casual ou não se deixar afetar por um boato, é impossível saber tudo o que se passa na vida daquela pessoa e o quanto podemos ampliar sua dor.”

O livro conta a história de Clay, um adolescente que recebeu uma caixa de fitas cassete no correio, numeradas de 1 a 13. As fitas por sua vez contam a história de Hannah Baker, jovem que tirou a própria vida duas semanas antes e quer que um grupo seleto de pessoas ouça o motivo por tal radical decisão. Por meio de uma lista numérica, as fitas são passadas através do grupo até o número 13, oferecendo as versões de Hannah de boatos que circulavam na escola. Chegou a vez de Clay ouvir, e com ele, tomamos conhecimento do conteúdo de cada um.

A narrativa intercala os dias atuais – com os pensamentos de Clay a medida que ele ouve a histórias -, e duas semanas antes, quando Hannah ainda pensava sobre sua vida. Personagens secundários vão surgindo a cada vez que o menino aperta o play, descritos por ele e pela jovem de sua própria percepção. Por mais que você não esteja mais na escola, duvido não se identificar com os problemas relatados pela menina, ou que até mesmo já tenha passado por isso. As palavras de Asher conseguem entrar na cabeça e nos transportar para a mente de Clay, compartilhando suas agonias e irritações com os responsáveis pela morte de Hannah.

“Vocês não sabem o que estava passando no resto da minha vida. Em casa. Nem mesmo na escola. Não sabem o que se passa na vida de ninguém, a não ser a de vocês. E quando estragam alguma parte da vida de uma pessoa, não estão estragando apenas aquela parte. Infelizmente, não dá para ser tão preciso ou seletivo. Quando você estraga uma parte da vida de alguém, você estraga a vida inteira da pessoa. Tudo… é afetado.”

Os 13 Porquês pode ser considerado um livro de auto-ajuda, para crianças e adolescentes que sofrem calados. O número de jovens que optam por acabar com a própria vida para fugir do sofrimento é maior do que muitos de nós imagina, e ter isso retratado não apenas na literatura, mas também em uma série é essencial. Sim, para quem ainda não sabia, a história de Jay Asher vai virar uma série da Netflix ainda esse mês, estreando no dia 31 de março. Então corre para descobrir tudo antes de vir ao ar!

“Você pode ter ouvido boatos, mas não pode dizer que sabe alguma coisa de verdade só por causa deles.”

As gravações de Hannah são intensas e muitas pegam Clay de surpresa, uma vez que ele só conhecia a versão dos boatos que circulavam pelas bocas dos alunos. Ouvir o que realmente aconteceu pode ser mais significante do que parece. Não houve uma pessoa responsável pela morte da menina, mas sim uma série de fofocas, criadas pelas pessoas da fita, que desencadearam um transtorno de incapacidade em Hannah e a levaram a tomar os comprimidos. A culpa que consome Clay por não ter percebido nada é devastadora e mais uma vez nos leva a pensar…até que ponto conhecemos alguém?

Ler é Bom, Vai | O Símbolo Perdido, um dos melhores casos de Robert Langdon

Dan Brown já nos agraciou com seu talento em várias obras, muitas inclusive adaptadas para o cinema. Enquanto Tom Hanks dava a vida ao Professor Robert Langdon nas telas, Brown nos apresentava com os mais detalhes seu tão famoso personagem.

Depois de viajar o mundo, em O Símbolo Perdido o professor de Harvard se encontra em Washington, após ter sido convidado as pressas por seu amigo e mentor Peter Solomon (maçom e filantropo) para dar uma palestra no Capitólio norte-americano. Obviamente, tudo não passa de uma armadilha e Solomon sumiu, cabendo a Langdon encontrar seu amigo. O preço do resgate? Nada mais tradicional do que um tesouro, escondido na cidade de Washington por seus fundadores, e cobiçado pelo sequestrador Mal’akh. A partir daí, se inicia mais uma das ótimas aventuras de Robert Langdon, descrita pelas ótimas palavras de Dan Brown.

“Viver no mundo sem tomar consciência do significado do mundo é como vagar por uma imensa biblioteca sem tocar os livros.”

Como em todos os seus livros, Brown procura investigar e expor um universo polêmico poderoso. Em O Símbolo Perdido, somos apresentados aos mistérios da maçonaria, antiga sociedade discreta que prega que todo homem é livre e possui bons costumes. Para salvar a vida de Solomon, Langdon tem de encontrar a famosa Pirâmide Maçônica, um dos segredos mais profundos da fraternidade, escondido nas vísceras da capital norte-americana. E claro que não podia faltar a força policial que irá trabalhar com Langdon, seja para ajudá-lo ou impedi-lo. Como estamos nos Estados Unidos, nada menos do que a força tática da CIA é acionada, sendo desafiada por todos os mistérios que se desenvolvem nas descobertas do professor. Não pensem que será muito diferente dessa vez, tais mistérios se encontram ocultos em obras de arte e locais inimagináveis ao olho humano. A menos que você seja um simbologista como Robert Langdon.

 A maneira como Dan Brown apresenta as informações é tão profunda e detalhada, que acreditamos piamente em tudo que estamos lendo. Por mais que muitas informações sejam verídicas, não é todo monumento apresentado na trama que possuí um segredo milenário escondido, mas você terminará de ler crendo que sim. O fato dos mistérios estarem escondidos em lugares reais, na maioria das vezes em partes pequenas e ocultas, nos faz querer sair correndo e confirmar se aquilo realmente está ali.

Um dos diferencias em O Símbolo Perdido é a perspectiva da narrativa, não apenas contada pelo ponto de vista de Langdon. Conseguimos enxergar através do ponto de vista de Katherine Solomon, Sato Inoue, a diretora do Escritório de Segurança da CIA; Bellamy Warren, o Arquiteto do Capitólio; e Mal’akh. Por mais que boa parte seja narrada pelos olhos do professor, uma visão mais ampla dos acontecimentos nos permite entrar na história e tentar prever o que acontecerá em seguida. Com um início lento e monótono, demorei a pegar o ritmo da aventura, e essa concepção ampliada do mistério ajuda o leitor a se apegar ao livro.

“- Robert, nós dois sabemos que os antigos ficariam horrorizados se vissem como seus ensinamentos foram deturpados… como a religião acabou virando uma cabine de pedágio para o céu… como soldados vão para a guerra acreditando que Deus está do lado deles. Nós perdemos a Palavra, mas seu verdadeiro significado continua a nosso alcance, bem diante de nossos olhos”

O molde adotado por Dan Brown se repete, mas não pensem ser algo negativo. O autor sempre encontra uma maneira de nos surpreender, e em O Símbolo Perdido não foi diferente. Desvendando e introduzindo um assunto polêmico e pouco conhecido por muitos, ele traz o simbologista Robert Langdon para mais uma aventura, e quem somos nós para reclamar? Pela clareza nos detalhes, pelo número de símbolos e charadas e pela maneira como tudo se encaixa no final, este foi um dos meus favoritos da série. Apesar dos momentos cansativos do começo, a trama vai desabrochando e logo não conseguimos mais largar o livro, querendo saber o que acontece no final. Espero que esta história seja adaptada para os cinemas, assim como seus antecessores, mas que nada seja mudado como aconteceu em Inferno. Os fãs de Dan Brown vão reforçar seu amor pelo autor e ficarão felizes com aquilo que lhes foi oferecido.